do BLOG DO FAVRE

Maria Cristina Fernandes | VALOR


Os Estados menos desenvolvidos, os eleitores mais pobres e de baixa escolaridade lhe deram votações mais expressivas que a banda remediada da sociedade. Dilma Rousseff? Sim. Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva também.


Foi há apenas 22 anos que o Brasil universalizou o voto, com a inclusão dos analfabetos pela Constituição da Nova República. De lá para cá o país realizou 12 eleições. A cada dois anos, tem a oportunidade de se reencontrar com suas diferenças e de constatar que se os mais pobres ainda definem a eleição é porque ainda são maioria. Só deixarão de fazê-lo quando não forem mais pobres. Quando a celebração de que o voto no Morumbi vale tanto quanto aquele de Canindé dá lugar à estranheza é de nação que se carece.

Duas décadas talvez seja tempo de menos para que a igualdade de direitos seja absorvida. Particularmente num país em que só agora as filas de check-in no aeroporto começam a ficar mais parecidas com a das seções eleitorais. O que dá na vista é que essa estranheza, turbinada pela agressividade, parta precisamente de eleitores mais jovens que não conhecem outra democracia senão a do voto universal.

Direito de apenas 22 anos explica estranheza

O mal-estar foi viralizado ainda no domingo pela internet. A estudante de direito paulistana Mayara Petruso teve direito a seus momentos de fama ao tornar sua frase “Nordestisto (sic) não é gente. Faça um favor a São Paulo: mate um nordestino afogado!” uma das mais citadas no Twitter em todo o mundo. O escritório de advocacia que a tinha por estagiária rompeu o contrato e a OAB de Pernambuco pediu ao Ministério Público de São Paulo a abertura de uma ação penal por racismo e incitação à violência na rede.

Foi pela internet que se destampou a intolerância mais renhida da campanha. Mas assim como a questão do aborto ganhou uma difusão na rede que não guarda relação com seu impacto eleitoral, não há motivos para se acreditar que os sentimentos regressivos de Mayara sejam predominantes no eleitorado.

Se a arma mais eficiente contra o preconceito é a informação, os fatos que se contrapõem são cristalinos. Dilma Rousseff teria levado mesmo se os planos de extermínio de Mayara fossem bem-sucedidos. Ninguém ganha eleição sem pintar com suas cores o Sudeste, onde vivem 43% dos eleitores brasileiros, entre os quais muitos dos pobres pouco escolarizados da maioria.

Sim, José Serra ganhou em São Paulo, mas não foi por lavada. Teve uma votação 17% superior à de Dilma no Estado que o PSDB governa há 16 anos. O tucano impôs à petista em São Paulo uma vantagem inferior à de sua derrota nacional. Nenhuma delas foi acachapante. Quando mal interpretados, os mapas tingidos de azul e vermelho mostram blocos monolíticos que não existem. O Brasil que Mayara desconhece e, por consequência, discrimina, está logo ali na sua esquina.

Se a campanha foi obscurantista, a geografia do voto é transparente. Dela se depreende, por exemplo, que é o impacto de políticas de governo o que move o eleitor de maneira mais definitiva.

Tome-se, por exemplo, Marcelândia, cidade de 10,2 mil eleitores ao Norte do Mato Grosso. Em 2007 o município ocupava o primeiro lugar na lista daqueles que mais desmatavam. Foco da operação federal ‘Arco de Fogo’, Marcelândia zerou o desmatamento dois anos depois. Em 3 de outubro Marina Silva conseguiu lá 1,3% dos seus votos. O candidato do PSDB manteve seu patamar do primeiro para o segundo turno cravando 75,7% no domingo, o que colocou Marcelândia na condição de município mais serrista do país.

É também a atuação do Ibama que parece explicar a extraordinária votação de Serra no Acre (69,6%). E dificilmente a demarcação da reserva Raposa do Sol pode estar dissociada da expressiva votação do candidato tucano em Roraima (66,5%). Num Estado o PT ganhou mais um mandato e no outro, foi o PSDB que teve seu mandato no governo renovado.

Some-se aí o cinturão agrícola do Sul e Centro-Oeste que também fechou com o PSDB e é possível aquilatar as três principais insatisfações que guiaram o voto do Brasil mais serrista: atuação do governo federal na defesa do meio ambiente, a política pela preservação de povos indígenas e o nó cambial que prejudica as exportações agrícolas.

Essa trinca de motivos é mais elucidativa do dilema por que passará o PSDB do que o errático discurso do seu candidato ao reconhecer a derrota. O partido que herdou a maior fatia do voto Marina Silva estará comprometido com políticas regressivas na área ambiental? Como resolver a questão cambial sem deslocar a insatisfação da fronteira agrícola para a classe média dos centros urbanos?

Dilma Rousseff não exibe vocação para prorrogar no seu mandato uma das principais características da gestão Luiz Inácio Lula da Silva, a de trazer para dentro do governo os conflitos da sociedade. Ao absorver os embates entre as políticas monetária e industrial ou entre as diretrizes agrícola e agrária, Lula deixou a oposição desnorteada em relação aos interesses de que poderia ser porta-voz.

Esse desnorteamento submeteu a oposição a uma derrota eleitoral e política. Com uma campanha errática, destampou as convicções mais retrógradas do mercado eleitoral. Na reta final da campanha, a rejeição de Serra disparou e a de Dilma caiu. E o conjunto do seu eleitorado parecia involuntariamente manchado pelo obscurantismo barulhento de poucos.

No rescaldo das urnas, a ojeriza à campanha que passou, verbalizada pelo maior formulador do partido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, parecia dar curso ao movimento. O serrista hoje parece tomado pela mesma vergonha que invadiu o eleitor dos aloprados petistas de 2006. A diferença é que o PT teve quatro anos de governo para renovar e dar sobrevida a um contrato puído. O PSDB terá que se provar capaz de representar interesses insatisfeitos longe do poder. Oxalá se acerque da razão.



Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras


E-mail mcristina.fernandes@valor.com.br

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