do ACERTO DE CONTAS

Com menos de uma semana na Presidência, Dilma já bota as unhas de fora


Discretamente, na última sexta-feira, a presidente Dilma Roussef, com menos de uma semana desde a posse, começou a botar as unhas de fora e mostrar que seu governo não será “igual” ao de Lula. Estou falando da medida anunciada pela equipe econômica para conter a crescente valorização do Real frente ao Dólar.



Tod@s devem ter visto que foi estabelecido um depósito compulsório de 60% das posições vendidas de instituições bancárias no mercado cambial – quando suas  negociações ultrapassarem US$ 3 bilhões. Essa retenção será feita em espécie e não será remunerada. No jargão do mercado, “estar vendido” significa que o sujeito se comprometeu na entrega futura de dólares ou no pagamento da variação cambial. Ou seja, ele está apostando na queda da moeda estadunidense em relação ao Real para ganhar dinheiro.


O Dólar baixo é o sonho da classe média, pois facilita viagens ao exterior e a compra de produtos importados. Mas é ruim para a indústria nacional, pois nossos produtos ficam “caros” para que outros países os comprem. E também gera uma inflação do pior tipo, com aumento do consumo principalmente de produtos fabricados lá fora.
A retenção obrigatória de mais da metade do que os bancos estão investindo no mercado de câmbio põe o dedo na ferida de um dos vetores da alta do Real. Ora, os bancos apostam no Dólar baixo porque sabem que, na pior das hipóteses, o governo vai intervir e comprar um grande volume para retirar a moeda de circulação e garantir que o Real não suba tanto. Em bom português, o governo é obrigado a comprar os dólares que os bancos jogam no mercado.


O outro vetor da alta do Real é a grande entrada de dólares no país por parte de investidores estrangeiros, que veem o bom momento da economia brasileira e decidem aplicar aqui. Esse vetor é muito mais complicado de controlar sem impacto significativo na economia.


A medida do governo Dilma difere muito da política conduzida por Lula (e antes dele, por FHC). O que os governos anteriores fizeram foi aumentar o IOF (o imposto sobre operações financeiras), que também impactava na oferta de crédito, afetando não apenas o mercado de dólar mas todo o consumo interno. Também apostaram na alta da taxa de juros (muito mais FHC que Lula, sejamos justos), medida recessiva que empaca o crescimento econômico.


Dilma mostra que prefere e possui outras cartas para pôr na mesa, caso seja necessário. A atual presidente integrava o grupo desenvolvimentista do governo anterior, que batia de frente com o grupo financista liderado pelo ex-presidente do BC, Henrique Meireles. Eleita, Dilma botou Meireles para fora (ele tentou permanecer no cargo, com apoio do PMDB) e nomeou Alexandre Tombini para o lugar, muito mais comprometido com o crescimento econômico que com os bancos – ao contrário de seu antecessor.


O próprio ministro Guido Mantega reconheceu que a retenção compulsória estava pronta desde 2008, mas esperava pelo “momento apropriado” para ser usada. Isso prova que o governo Dilma pretende  ser bem mais ousado em termos de política econômica.


Será mais bem-sucedido que o governo Lula? O futuro dirá.

1 Comentários

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  1. Ainda bem que não será igual. Por melhor que tenha sido o anterior, é sempre precios avançar, melhorar o que não ia tão bem assim. Ou, pelo menos, tentar seria e responsavelmente.

    Para isso serve, aliás, a alternância no poder. Que muitos confundem com a mera troca de partidos. A alternância é algo que vai muito além. É possível haver alternância sem troca de partidos, assim como continuidade com a mesma troca. Tudo depende de quem está lá, sobretudo.

    Por enquanto, ela confirma que veio para continuar, mas aprofundar o que já havia de bom no governo anterior.

    Esperemos que assim seja!

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