Eliano Jorge
As câmeras das TVs Record e Globo chamavam a atenção de quem passava pelo prédio de número 1254 da movimentada Rua Pedroso Alvarenga, no paulistano bairro de Itaim Bibi, terça-feira (22). Enquanto caminhavam, duas mulheres debatiam o motivo da presença de jornalistas: "É que aí tem um cardiologista muito famoso..."Na verdade, a história ali nada tinha a ver com coração. Mas se tratava do órgão que ajuda a manter vivos os mais poderosos times do futebol brasileiro, irrigando para eles algo vital. No 11º e último andar do edifício, o Clube dos 13 finalizava o edital de concorrência para a transmissão televisiva dos jogos dos três próximos Campeonatos Brasileiros. O dinheiro gerado pela televisão é a principal fonte de receita das equipes.
Apesar da paixão do País pelo esporte que o consagrou, o tema naquele local, definitivamente, não era cardíaco. "Temos que parar de fazer papel de bobo, o assunto aqui é muito dinheiro. Vamos parar de fantasiar", disparou o presidente do Atlético Mineiro, Alexandre Kalil, nesta quarta-feira (23), em entrevista coletiva. Pouco antes, o Corinthians confirmava sua desfiliação do Clube dos 13. Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo avisavam que negociarão à parte com as emissoras de TV.
Membro da comissão que produziu o edital, Kalil se exasperou com a dissidência:
- A própria presidenta do Flamengo (Patrícia Amorim) disse pessoalmente que o trabalho da comissão era impressionantemente brilhante e bem feito. E o próprio Botafogo (representado pelo presidente Mauricio Assumpção), até o último dia, ontem, votou e opinou, teve voto e aprovou tudo o que está aqui dentro.
A proposta do Clube dos 13 prevê lance mínimo de R$ 500 milhões só das TVs abertas, com 10% de vantagem para a Globo.
- Ainda faltam ser licitados TV paga, pay-per-view, placas de publicidade, telefonia, internet e direito (de transmissão) internacional. Pelos nossos cálculos, isso se aproximará de R$ 800 milhões. Estamos falando de um contrato anual de R$ 1,3 bilhão para os clubes. Em três anos, R$ 3,9 bilhões. Colocando na praça esses valores, já temos a informação de que esse é o mínimo que vai chegar para nós. E, daqui a três anos, tem mais. É só cada um explicar por que não quer participar disso - detalhou Kalil.
- Não vejo por que dissidir desses valores. Ninguém vai receber mais que isso sozinho. Estamos dando um salto de três vezes mais o valor atualmente recebido - opinou o presidente do Clube dos 13, Fábio Koff, que permanece descrente na ocorrência da cisão.
| Koff duvida da dissidência na entidade que preside há mais de uma década (foto: Ricardo Matsukawa/Terra) |
- A impressão é que a emissora começou a fazer um trabalho nesses clubes. Alguns, pela primeira vez, estão recebendo adiantamento da Globo. Temos que evitar, de todas as maneiras, essa cisão - esclareceu o diretor-executivo do Clube dos 13, Ataíde Gil Guerreiro.
- O caso preocupante é que temos uma conta pra acertar. Espero que os clubes do Rio venham nos ajudar porque não temos uma alternativa hoje para buscar dinheiro que não seja o Clube dos 13 - reconheceu Kalil. Koff não quis aprofundar comentar sobre os empreéstimos da Globo aos clubes: "Conseguimos brecar um pouco, mas não tudo".
- As partes que antigamente ajudavam agora não podem ajudar. O CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica, do Ministério da Justiça), o Ministério Público Federal e tudo que agrega esse grande contrato não vão aceitar que uma rede de televisão, seja ela uma das três interessadas (nos direitos de transmissão), vá dar dinheiro antecipado para clube - lembrou o presidente atleticano, aludindo a uma multa de R$ 2 bilhões estabelecida pelo CADE para descumprimento das regras.
Por isso Guerreiro considera o CADE seu "grande protetor":
- Alguns interesses não estão em cima da mesa claramente.
Consultada por Terra Magazine, a Central Globo de Comunicação informou que "a TV Globo só vai se pronunciar sobre a renovação dos direitos do Campeonato Brasileiro após a publicação do edital". A assessoria de comunicação da Record deu resposta idêntica.
"O Andres (Sanchez) quer negociar, separado, o que é legítimo. Não é legítimo os interessados intervirem no processo", insinuou Kalil, sem nomear personagens nem confirmar se aludia à Globo. "Não tenho preferência. No empate, (prefiro) a Globo, que tem 25 anos de futebol", admitiu.
Questionado se a postura corintiana teria relação com interesses da Confederação Brasileira de Futebol ou os bastidores da construção do estádio em Itaquera, Kalil alegou não saber.
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