do ESQUERDOPATA
Ricardo Melo, em plena Falha de S. Paulo

Durante uns bons anos, a academia adorava divagar sobre a 'crise da esquerda'. Gastou-se muito papel, tinta e dinheiro para dissecar a falência do modelo comunista -na verdade, a derrocada do projeto stalinista, que subverteu os ideais de uma sociedade igualitária e democrática. Sobre os escombros do Muro de Berlim, as trombetas tocavam para festejar a direita e o conservadorismo.

Nada como um dia depois do outro. O stalinismo não ressurgiu, ainda bem, mas a crise se deslocou. Aqui no Brasil, seus contornos políticos aparecem, por exemplo, no esfacelamento constrangedor do PSDB, que de social-democrata só ostenta o nome no registro.

No seu principal bastião, São Paulo, o partido definha em praça pública e perde gente para, quem diria, o balaio de Gilberto Kassab. É pena para todo lado, num processo ainda longe de acabar: toda hora aparece um tucano de alta ou média plumagem para reclamar da vida, do partido e, por trás disso, da distância cada vez maior em relação às benesses do poder.

O ex-presidente Fernando Henrique tenta salvar o que pode da lavoura. O espetáculo é quixotesco. Fala-se em ir atrás da 'nova classe média', seja lá o que isso significa. Em outro momento, cogita-se a fusão do partido com o DEM.

Do ponto de vista da proximidade, não há grande notícia -nos oito anos de FHC no governo, o então PFL e o PSDB sempre agiram como Kate e William à beira do altar. Mas, vamos e venhamos, hoje em dia até para tucanos seria preciso algum estômago para celebrar a união.

Programa? Projetos de governo? Discussão de princípios? Nada disso. Apenas um abraço de afogados.

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