Sabemos das dificuldades de manter as mobilizações por um longo período de tempo, sobretudo quando nosso foco não é mais apenas a revogação do último aumento, mas a conquista de um outro modelo de transporte. Desafio que decidimos encarar de frente, até uma Florianópolis sem catracas. Por Passa Palavra, vídeo: Doc Dois Filmes
Um novo ciclo da luta pelo transporte público parece se esboçar na cidade de Florianópolis. Após a extensa jornada de mobilização contra o aumento da tarifa construída em 2010 (veja aqui), a necessidade de um debate mais amplo e profundo sobre a questão do transporte e da mobilidade urbana foi sentida pela Frente de Luta pelo Transporte Público (que aglutina diversos movimentos da cidade, como o Movimento Passe Livre, além de outras organizações e militantes independentes). Isso porque percebemos que as mobilizações contra os aumentos das tarifas, apesar de extremamente importantes para colocarmos em evidência a crise que vive o sistema de transporte da cidade, não tocam no centro do problema, mantendo a estrutura e a lógica de exploração do transporte coletivo, mesmo quando obtivemos vitórias nas jornadas de luta passadas.
Após um período de relativo esvaziamento e posterior reorganização, avançamos na construção de um modelo alternativo e popular para o transporte público da cidade, com contribuições especiais do Movimento Passe Livre neste processo. Fruto desta nova perspectiva, nosso Seminário de Mobilidade Urbana marcou um importante momento deste avanço no debate, como podemos ver na Carta de Convergências do Seminário.
Para além da luta pontual contra os aumentos nas tarifas, ficou clara a necessidade de debatermos e nos organizarmos continuamente, para que possamos transformar o transporte de verdade. Por isso, nossa luta não se resume mais à diminuição das tarifas, nós queremos a Municipalização do transporte, ou seja, o controle político e público de todo sistema com participação popular, e a Tarifa Zero, financiada pelos setores mais ricos da sociedade, beneficiados pelo bom funcionamento do transporte e pelo fluxo de pessoas e mercadorias, como política para garantir para toda população seu real direito de ir e vir, libertando os espaços da cidade.
Após o aumento, ocorrido no dia 17 de abril, uma manifestação no dia 19 foi convocada pela Frente de Luta pelo Transporte Público. Contando com cerca de 300 pessoas, o ato começou com um ritmo bastante acelerado, percorrendo em poucos minutos o trajeto do Terminal do Centro (Ticen) até a Câmara Municipal. De lá saímos, aproveitando o pouco policiamento e ainda muito rapidamente, rumo à Avenida Mauro Ramos, uma das principais da cidade, interrompendo o trânsito nos dois sentidos.
Mas o nosso alvo era mesmo a Câmara, para onde voltamos após essa manifestação relâmpago. E embora as coisas tivessem começado agitadas, passaríamos então por um longo período de espera e indecisão. Foi preciso muita insistência (e paciência!) para que pudéssemos simplesmente entrar na sessão públicaque estava ocorrendo, uma vez que a sessão é aberta e não existe motivo que impeça as pessoas de a acompanharem, a não ser o medo dos políticos, que sentem-se mal ao ter que encarar e dar respostas para a população. Um cordão policial havia sido formado na entrada da Câmara, nos impedindo de entrar no prédio. Cansados de esperar, pressionamos o cordão policial, recebendo como resposta uma agressão covarde da Guarda Civil, que utilizou choques, cassetetes e spray de pimenta para “proteger” a sessão.
Passando por cima dos ritos e protocolos que caracterizam os espaços institucionais, por conta da nossa mobilização, foi aberto tempo de fala no plenário da sessão para um representante da Frente. Nossa intenção era aproveitar o tempo para ler nossa Carta e cobrar uma posição do poder legislativo da cidade sobre o aumento e a atual situação do transporte, exigindo a convocação de uma série de audiências públicas com a presença da Prefeitura, que criariam terreno para a construção de um grande Plebiscito, para que o povo decida qual transporte quer para a cidade. Infelizmente, apenas um número reduzido de pessoas pôde entrar na Câmara, enquanto o restante dos manifestantes acabou impedido de entrar sob a alegação de “questões de segurança”, uma desculpa visivelmente inventada, já que todos sabíamos que o segundo pavimento do prédio possuía espaço suficiente para comportar todo mundo.
A irritação era visível no rosto de quase todos os vereadores, acostumados a “trabalhar” sem a nossa presença e ofendidos por ocuparmos um espaço que deveria ser sempre do povo. Após o pedido para que nos retirássemos da sessão, uma vez que nosso tempo havia acabado, o plenário foi tomado por palavras de ordem dos manifestantes, que impediram os trabalhos de prosseguir, pondo fim àquela sessão “pública”.
Com o fim da sessão, nos dirigimos para a frente da garagem da Câmara, não permitindo momentaneamente os excelentíssimos vereadores de voltarem em paz para suas casas. E após esse último recado, voltamos para o Ticen, onde finalizamos o ato.
No vídeo a seguir, “A bendita porta de vidro”, produzido pela Doc Dois Filmes (autora do excelente documentário “Impasse”), podemos ver com maior riqueza de detalhes como foi essa primeira manifestação de 2011.
Um novo ato está marcado para esta quinta, 28/04, com concentração a partir das 17h, em frente ao Ticen.
Sabemos das dificuldades de manter as mobilizações por um longo período de tempo, sobretudo quando nosso foco não é mais apenas a revogação do último aumento, mas a conquista de um outro modelo de transporte. Desafio que decidimos encarar de frente, até uma Florianópolis sem catracas.
Para saber mais: TarifaZero.Org
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