do TERRA MAGAZINE
Na Pensilvânia, as bandeiras - e o orgulho - expostos no local onde caiu um dos aviões sequestrados em 11 de setembro de 2001
Na Pensilvânia, as bandeiras - e o orgulho - expostos no local onde caiu um dos aviões sequestrados em 11 de setembro de 2001

Dayanne Sousa
Desde 11 de setembro de 2001, o orgulho americano foi ferido sem que houvesse reparos. De lá para cá, duas guerras sem solução, uma crise econômica e alta do desemprego. A morte de Osama Bin Laden, anunciada na madrugada desta segunda-feira (2), parece por fim à sensação de pessimismo que tomava conta do país, analisa o articulista e escritor americano Glenn Greenwald.
Crítico de Barack Obama, o autor de best sellers políticos é um eterno contestador do uso da violência pelos governantes americanos. "Eu acho que os americanos não devem se orgulhar de matar uma pessoa", lamenta. Para ele, a euforia que toma conta dos Estados Unidos será colhida por Obama como vantagem eleitoral em 2012. "Ele certamente vai ficar muito mais forte e vai subir muito nas pesquisas".
Greenwald hoje vive no Rio de Janeiro e, em entrevista a Terra Magazine, compara o comportamento americano com o dos brasileiros para tentar explicar o sentimento que toma conta do país do norte.
- Os brasileiros hoje olham para o futuro com otimismo, estão vendo o país crescer, ficar mais forte e mais importante. Nos Estados Unidos, é exatamente o oposto. Todo mundo acha que o país está caindo, ficando mais fraco. Este evento - a morte de Bin Laden - é a primeira vez que os americanos sentem orgulho em muito tempo.

Leia a entrevista.
Terra Magazine - Você criticou o fato de os americanos comemorarem a morte de Osama Bin Laden. Por quê?
Glenn Greenwald -
 Não acho que muitas coisas vão mudar por conta disso. O Bin Laden já estava escondido no Paquistão há anos e não estava fazendo muitas coisas. Temos três guerras que não têm relação com a Al Qaeda: no Afeganistão, no Iraque e na Líbia. Nada vai mudar. Em segundo lugar, eu acho que é muito estranho, muito ruim, dançar e festejar porque alguém foi morto. Podemos debater que há justificativas para isso, mas gritar e festejar é o mesmo que faz a Al Qaeda, dançando pela morte de pessoas.
Em seu anúncio, o presidente Obama adotou uma postura de orgulho. Falou que "a justiça foi feita". Você acha que ele se portou dessa forma para conquistar os mais conservadores, aqueles com desejo de vingança?
Sim. E não só vingança. Acho que muito mais do que isso. Os Estados Unidos estão muito diferentes do Brasil. Os brasileiros hoje olham para o futuro com otimismo, estão vendo o país crescer, ficar mais forte e mais importante. Nos Estados Unidos, é exatamente o oposto. Todo mundo acha que o país está caindo, ficando mais fraco. Este evento - a morte de Bin Laden - é a primeira vez que os americanos sentem orgulho em muito tempo.
E esse tipo de discurso faz efeito? A população parece ter se identificado com essa postura de Obama.
O que não gostei da fala de Obama é que ele afirmou que isso mostra que os americanos têm o poder de fazer o que eles querem. "O êxito de hoje é um testamento da grandeza de nosso país e a determinação do povo americano" - declarou o presidente americano. Com isso, ele manipula o público. Ele quer dizer que agora podemos ter orgulho novamente de ser americanos. Eu acho que os americanos não devem se orgulhar de matar uma pessoa. Essa não é a razão para ter orgulho. É muito claro que a grande maioria dos americanos - da esquerda, direita, independentes - vai ficar muito feliz com isso. Mas, para mim, justiça seria Bin Laden ter sido capturado e julgado. O que Obama fez não é justiça. Ele não mandou soldados para capturar, mas para matar.
Você disse que pessoas da esquerda e da direita apoiaram a operação, mas será que com isso Obama não perde crédito com um grupo mais liberal, pacifista, que o apoiou na primeira eleição?
Não temos um grupo assim muito grande nos Estados Unidos. Durante os anos de Bush, cresceu a esquerda que brigava contra a violência e a guerra. Mas agora, porque é Obama quem está fazendo isso, a grande maioria das pessoas está torcendo a favor da violência, porque ela parte do lado delas. Tem muitas pessoas na esquerda infelizes com Obama porque ele mantém as guerras. Mas, para falar contra a morte de Bin Laden, é preciso coragem. Eu sei porque muitas pessoas já estão me atacando.
Talvez porque falar nisso seja algo ainda muito emocional para muitos. Quem teve familiares mortos no 11 de setembro, por exemplo, pode achar que ser contra a morte de Bin Laden seria um desrespeito.
Talvez, mas isso já faz quase dez anos. Os americanos já aprenderam uma lição grande sobre desejo de vingança e seguir as emoções. Criamos quatro ou cinco guerras por causa disso. Depois de dez anos, acho que essa emoção não é tão forte. É mais o que disse antes, que os americanos já não têm mais muitas coisas de que se orgulhar. Mais do que vingança ou emoção pelo 11 de setembro, os americanos querem uma razão para se sentirem fortes de novo.
E, se esse sentimento conseguir ser restabelecido, será uma grande vitória para Obama?
Com certeza. Ele certamente vai ficar muito mais forte e vai subir muito nas pesquisas. O problema dos progressistas nos Estados Unidos é que eles sempre são acusados de fraquejarem nas questões de segurança. Ninguém poderá falar isso sobre o Obama de novo.
E a morte de Bin Laden acontece num momento em que Obama vinha sendo questionado. Donald Trump deu força à polêmica de que o presidente na verdade não teria nascido nos Estados Unidos. Agora parece que tudo isso vai desaparecer, não é?
Claro. Pessoas que apoiam Obama já estão fazendo piadas com Trump na internet. Há desenhos circulando em que Obama responde que demorou para responder sobre sua nacionalidade porque estava ocupado matando Bin Laden. Agora, todas as coisas polêmicas sobre Obama não existem mais. Por causa disso, eu também não gosto da reação das pessoas. Porque há muitas coisas que Obama faz errado e que agora as pessoas vão esquecer. Tem muitos problemas no país, mas agora vamos passar até um mês sem pensar nisso.
Esses problemas a que você se refere são, sobretudo, na saúde e na economia?
Não apenas. Temos muitas guerras. Guantánamo ainda está aberta, apesar da promessa de Obama de que fecharia a prisão. O desemprego está altíssimo, ninguém faz nada a respeito. Agora, você mata um terrorista e nada mais tem importância.

Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads