do MAURO SANTAYANA


Há uma inquieta passagem de Goethe, em sua conhecida reconstrução da tragédia de Eurípedes, Efigênia em Tauris, que serve de ponto de reflexão sobre o nosso tempo, entre todos os outros tempos.


Tendo sido salva da morte e vivendo em Tauris, Efigênia consegue proteger seu irmão Orestes. No texto de Goethe, ela maldiz a mentira, ao afirmar que a mentira não liberta o coração, não consola, e sim aporta a angústia. A passagem é citada por Aléxis Philonenko, em seu exaustivo estudo sobre os matadores e as várias manifestações do assassinato. Nas guerras, como instrumento de poder, ou de submissão de outros povos, e de saqueio, o ato de matar é mais horripilante e se camufla em falsa razão de estado. Os mandantes transferem, assim, sua culpa à comunidade nacional, mesmo quando agem contra o próprio povo. É o que ocorre com os golpistas e déspotas em todos os tempos e lugares.

Goethe escreveu sua peça aos 29 anos, dez anos antes da grande tempestade de violência política, que foi a Revolução Francesa. Mas não faltaram a ele os exemplos do passado, os grandes conflitos internacionais e as fortes tragédias, como as do fim da República Romana, da Idade Média e do Renascimento.O aspirante ao poder absoluto deverá arrancar seu coração, no obsessivo projeto de ser visto como herói, é o que, em suma, diz o grande escritor alemão, citado por Philonenko.

Há momentos em que, na necessidade da defesa de seu território, violado por tropas estrangeiras, o dirigente terá que optar pela guerra. Essa atitude é bem distinta da concepção da guerra pré-emptiva, doutrina cínica que assustou a consciência ética do mundo. Nesse, e em movimentos semelhantes, a mentira prevalece, a fim de dissimular o crime, para exibi-lo como virtude, no interesse do dirigente e no interesse daqueles que o aconselham. Um líder político não é, ao contrário do que muitos supõem, homem só, que decide apenas com a própria consciência. Ele é conduzido pelos interesses que o construíram, pelas idéias que o orientaram, pelas contingências do cotidiano. Ele é orientado pela mentira, que ele, com a consciência de seus compromissos, ou com a volúpia do poder (quase sempre) assume e, em conseqüência, age. O pior é que a mentira passa a ser a verdade conveniente, mesmo sendo identificada em sua natureza infame.

Há momentos em que grande parte do povo se submete, pela aceitação do mal ou pela covardia, à mentira de seus dirigentes, como ocorreu durante o nazismo, o fascismo, o stalinismo, o franquismo. E como ocorreu aos Estados Unidos, nas guerras contra o México, a Espanha, o Vietnã – além dos golpes sucessivos em nosso continente, na África e na Ásia. Foi com a mentira que Stalin determinou a purga do partido, nos processos de 1938; foi com a mentira que Hitler decidiu pela extinção dos judeus, eslavos, ciganos e mestiços, além dos socialistas e comunistas, a partir da mentira maior, de que participam até hoje algumas de suas vítimas: a de que há raças humanas. E foi a partir de mentiras sucessivas que os Estados Unidos construíram seu poderio. Como advertia a Efigênia de Goethe, desgraçada da mentira, porque não pode trazer o consolo, mas, sim, a angústia, e o pânico que se esconde sob outras ilusões, entre elas a da invencibilidade.

Os agressores, sabendo que mentem, estarão sempre sob a fria lâmina do terror da vingança. Como diria César, estão condenados, pelo medo, a morrer todos os dias.

Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads