De Salvador (BA)
O acaso é que me traz as novidades. Dia desses, andando pela Av. Sete de Salvador, passei por um grupo disperso, unido apenas por risos cúmplices: a razão da alegria era a voz de um homem contando piadas em ritmo vertiginoso, com sotaque nordestino, saindo de um sistema de som simples sobre um carrinho de mão. Entreouvi uma delas, ri um pouquinho, continuei andando e só voltei a pensar no assunto quando Paulo Cesar de Souza, nosso insigne tradutor, apareceu serelepe em minha casa e me presenteou com um Cd de Tonho dos Couros, o dono daquela voz.
Tonho dos Couros faz piada com tudo e tem aquele jeito safado-engraçado, de matuto falso ingênuo. Seu personagem Pedro Putêncio é impressionante, e só diz palavras que começam com a letra p, na primeira faixa deste que é o volume 11, onde tem a seguinte piada de corno. O sujeito pergunta prum amigo: "tua mulher é gostosa?". Ele responde: "uns dizem que sim, outros que não..."
O acaso e as novidades. Desta vez, na sala de som da casa de Robinson Roberto, meu primo irmanado de Conselheiro e Lampião, ouvi o disco novo de Adriana Calcanhoto, Micróbio do Samba, e gostei do jeito que foi gravado, das canções simples e fluidas, assim de prima, como diz a gíria dos músicos. E tem também o Cd do Baoba Stereo Club, que me chamou a atenção por ser um trio instrumental de guitarras, piano e bateria/percussão, sem baixo, e uma capa interessante com os caras da banda e uns cachorros simpáticos. Confesso minha falta de intimidade com a música que não esteja no formato de canção, mas a faixa Las cholitas luchadoras de la paz ficou na minha cabeça, latina, alegre.
E, não mais por acaso, fui atrás da nova canção de Chico Buarque. Na verdade, duas: a primeira, que ele canta com Thaís Gulin, Se eu soubesse, ouvi no YouTube. Uma delicada canção de amor vai enumerando: "se eu soubesse, não andava na rua (...) não ia, enfim, cruzar contigo jamais". As razões vão se sucedendo num crescendo, os saltos melódicos valorizando cada motivo. Após uma série de razões, Chico, conhecido inicialmente pelas letras extensas, termina com um simples "mas acontece que eu saí por aí/ e aí...lá rá ri, lá rá ri" e basta. Não precisa dizer mais nada, só cantarolar por aí...lá rá ri.
A segunda canção, que deve ser a primeira faixa do seu disco novo, vazou na rede. Querido diário, uma toada urbana, título enganosamente róseo. Pelo início da letra, pode-se pensar que Chico está no terreno da pessoalidade, falando de si. Mas não, à medida que se desenrola a historinha, vai se desenhando mais um personagem, desses que fazem da sua obra musical um vasto poema dramático, comédia humana da canção popular. Dessa vez é um homem de idade que, lá pelo meio da música, diz que pensa em ter religião e amar "uma mulher sem orifício". O verso cru, assim sem aviso, pega a gente de jeito, a gente vai até o fim e quer ouvir de volta pra ver se é aquilo mesmo. E tem mais: solidão, cão vadio, amigos, inimigos e o amor na nova canção de Chico Boate, como chama, brincando, minha amiga Sora Maia.
A crueza, aliás, é uma constante na obra de Chico, se insinuando desde as primeiras obras pra explodir em Construção, seu quinto LP. A partir daí, há canções como Não sonho mais e Uma canção desnaturada - que trata do sentimento materno de rejeição -, que fazem de Chico Buarque o nosso maior compositor punk.
Chico é punk, Chico é pop. Sua figura é pop. Ele pode ser avesso à badalação, mas a sua vocação pop é um fato. Desde o sucesso de A banda, Chico é pop do seu jeito. Ao contrário de Edu Lobo, que se recusou a ser uma estrela da canção, mesmo sendo um excelente músico e compositor, Chico é uma estrela, só que ele não faz alarde do brilho, e é quem dá as cartas na roda viva.
Conseguindo a proeza de ser pop e discreto, o poeta Chico nunca é ele. O outro - a mulher, o velho, a criança, o malandro - falam através de Chico, ao contrário de Caetano, sempre ele, daí o pendor do primeiro pro teatro e pro romance ficcionais, onde o "eu" se dissolve em outros, e o de Caetano pelo cinema, enquanto obra de autor, e pelo memorialismo, no caso, o livro Verdade tropical. A diferença os faz ricos.
Quando Caetano incorpora à sua canção Terra quase toda uma estrofe de Caymmi da música Você já foi à Bahia, cortando apenas o último verso - "que nenhuma terra tem" -, deixando no ar, Caymmi é Caetano. Quando os versos de Castro Alves "A praça é do povo/ Como o céu é do condor" são transmutados para "A Praça Castro Alves é do povo/ como o céu é do avião", Castro Alves também se transmuda em Caetano.
Entre poetas: Manuel Bandeira declarou que o poeta da sua predileção era Drummond, e acrescentava: "quem não estiver de acordo, é melhor não falar mais comigo". Entre poetas da canção: quando perguntado pelo pessoal do CQC, sobre quem era melhor, ele ou Chico, Caetano Veloso não pestanejou: "Chico Buarque".
Na obra mais recente de Chico, ao misto peculiar de lirismo e crueza, aparece com frequência o tema do sonho: Outra noite, parceria com Luís Claúdio Ramos, Sonhos sonhos são, Outros sonhos, A moça do sonho, Noite de verão e Cantiga de acordar, estas três últimas com Edu. "Tudo que se vê é o sonho de algum pobre sonhador". Tudo sonho, ilusão e fingimento do poeta, da atriz e dos amantes: "Quando ela mente/ não sei se ela deveras sente/ o que mente pra mim", numa ampliação do fingidor pessoano, e "Quer se divertir/ fingindo me adorar/ ou finge me enganar/ me amando pra valer". Fingir, iludir e sonhar. É o que basta.
Paquito é músico e produtor.
O acaso é que me traz as novidades. Dia desses, andando pela Av. Sete de Salvador, passei por um grupo disperso, unido apenas por risos cúmplices: a razão da alegria era a voz de um homem contando piadas em ritmo vertiginoso, com sotaque nordestino, saindo de um sistema de som simples sobre um carrinho de mão. Entreouvi uma delas, ri um pouquinho, continuei andando e só voltei a pensar no assunto quando Paulo Cesar de Souza, nosso insigne tradutor, apareceu serelepe em minha casa e me presenteou com um Cd de Tonho dos Couros, o dono daquela voz.
Tonho dos Couros faz piada com tudo e tem aquele jeito safado-engraçado, de matuto falso ingênuo. Seu personagem Pedro Putêncio é impressionante, e só diz palavras que começam com a letra p, na primeira faixa deste que é o volume 11, onde tem a seguinte piada de corno. O sujeito pergunta prum amigo: "tua mulher é gostosa?". Ele responde: "uns dizem que sim, outros que não..."
O acaso e as novidades. Desta vez, na sala de som da casa de Robinson Roberto, meu primo irmanado de Conselheiro e Lampião, ouvi o disco novo de Adriana Calcanhoto, Micróbio do Samba, e gostei do jeito que foi gravado, das canções simples e fluidas, assim de prima, como diz a gíria dos músicos. E tem também o Cd do Baoba Stereo Club, que me chamou a atenção por ser um trio instrumental de guitarras, piano e bateria/percussão, sem baixo, e uma capa interessante com os caras da banda e uns cachorros simpáticos. Confesso minha falta de intimidade com a música que não esteja no formato de canção, mas a faixa Las cholitas luchadoras de la paz ficou na minha cabeça, latina, alegre.
E, não mais por acaso, fui atrás da nova canção de Chico Buarque. Na verdade, duas: a primeira, que ele canta com Thaís Gulin, Se eu soubesse, ouvi no YouTube. Uma delicada canção de amor vai enumerando: "se eu soubesse, não andava na rua (...) não ia, enfim, cruzar contigo jamais". As razões vão se sucedendo num crescendo, os saltos melódicos valorizando cada motivo. Após uma série de razões, Chico, conhecido inicialmente pelas letras extensas, termina com um simples "mas acontece que eu saí por aí/ e aí...lá rá ri, lá rá ri" e basta. Não precisa dizer mais nada, só cantarolar por aí...lá rá ri.
A segunda canção, que deve ser a primeira faixa do seu disco novo, vazou na rede. Querido diário, uma toada urbana, título enganosamente róseo. Pelo início da letra, pode-se pensar que Chico está no terreno da pessoalidade, falando de si. Mas não, à medida que se desenrola a historinha, vai se desenhando mais um personagem, desses que fazem da sua obra musical um vasto poema dramático, comédia humana da canção popular. Dessa vez é um homem de idade que, lá pelo meio da música, diz que pensa em ter religião e amar "uma mulher sem orifício". O verso cru, assim sem aviso, pega a gente de jeito, a gente vai até o fim e quer ouvir de volta pra ver se é aquilo mesmo. E tem mais: solidão, cão vadio, amigos, inimigos e o amor na nova canção de Chico Boate, como chama, brincando, minha amiga Sora Maia.
A crueza, aliás, é uma constante na obra de Chico, se insinuando desde as primeiras obras pra explodir em Construção, seu quinto LP. A partir daí, há canções como Não sonho mais e Uma canção desnaturada - que trata do sentimento materno de rejeição -, que fazem de Chico Buarque o nosso maior compositor punk.
Chico é punk, Chico é pop. Sua figura é pop. Ele pode ser avesso à badalação, mas a sua vocação pop é um fato. Desde o sucesso de A banda, Chico é pop do seu jeito. Ao contrário de Edu Lobo, que se recusou a ser uma estrela da canção, mesmo sendo um excelente músico e compositor, Chico é uma estrela, só que ele não faz alarde do brilho, e é quem dá as cartas na roda viva.
Conseguindo a proeza de ser pop e discreto, o poeta Chico nunca é ele. O outro - a mulher, o velho, a criança, o malandro - falam através de Chico, ao contrário de Caetano, sempre ele, daí o pendor do primeiro pro teatro e pro romance ficcionais, onde o "eu" se dissolve em outros, e o de Caetano pelo cinema, enquanto obra de autor, e pelo memorialismo, no caso, o livro Verdade tropical. A diferença os faz ricos.
Quando Caetano incorpora à sua canção Terra quase toda uma estrofe de Caymmi da música Você já foi à Bahia, cortando apenas o último verso - "que nenhuma terra tem" -, deixando no ar, Caymmi é Caetano. Quando os versos de Castro Alves "A praça é do povo/ Como o céu é do condor" são transmutados para "A Praça Castro Alves é do povo/ como o céu é do avião", Castro Alves também se transmuda em Caetano.
Entre poetas: Manuel Bandeira declarou que o poeta da sua predileção era Drummond, e acrescentava: "quem não estiver de acordo, é melhor não falar mais comigo". Entre poetas da canção: quando perguntado pelo pessoal do CQC, sobre quem era melhor, ele ou Chico, Caetano Veloso não pestanejou: "Chico Buarque".
Na obra mais recente de Chico, ao misto peculiar de lirismo e crueza, aparece com frequência o tema do sonho: Outra noite, parceria com Luís Claúdio Ramos, Sonhos sonhos são, Outros sonhos, A moça do sonho, Noite de verão e Cantiga de acordar, estas três últimas com Edu. "Tudo que se vê é o sonho de algum pobre sonhador". Tudo sonho, ilusão e fingimento do poeta, da atriz e dos amantes: "Quando ela mente/ não sei se ela deveras sente/ o que mente pra mim", numa ampliação do fingidor pessoano, e "Quer se divertir/ fingindo me adorar/ ou finge me enganar/ me amando pra valer". Fingir, iludir e sonhar. É o que basta.
Paquito é músico e produtor.
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