do CONTEXTO LIVRE

Como o assunto tem despertado reações dos comentaristas, o Tijolaço reproduz o pedido público de desculpas da deputada Myrian Rios, em nota oficial, sobre o vídeo que está circulando na internet com um trecho de seu discurso.
“Iniciei meu discurso de 21 de junho na tribuna da Alerj relatando a minha condição de católica, missionária consagrada da comunidade Canção Nova e, como tal, eu prego o respeito, o amor ao próximo, o perdão. Destaco que Deus ama a todas as pessoas, pois Ele não faz diferenciação. Em um dos trechos, afirmo: não sou preconceituosa e não discrimino. Repudio veementemente o pedófilo e jamais tive a intenção de igualar esse criminoso com o homossexualismo. Se entenderam desta maneira, peço desculpas. Conto na minha família com parentes e amigos homossexuais e os amo, respeito como seres humanos e filhos de Deus. Da mesma forma repudio a agressão aos homossexuais, pois nada justifica tamanha violência.
Votei contra a PEC-23 por minhas convicções e não contra este ou aquele segmento de determinada orientação sexual.”
Menos mal que a deputada se desculpe. Mas, ainda assim, um posicionamento terrível porque, na prática, atribuiu “periculosidade” às pessoas por conta de sua orientação sexual, o que é puro preconceito. Se a deputada pensar, o “risco” que significaria entregar “suas crianças” a uma babá não depende disso. Não parece ter sido isso, por exemplo, que esteve envolvido nas agressões a crianças que, volta e meia, acabam na imprensa.
Se ela é capaz de “amar” parentes e amigos de orientação homossexual, como quer desqualificar, profissionalmente, por isso? Ou seus amigos e parentes devem ficar desempregados por isso?
A deputada Myrian Rios errou e, deliberadamente ou não, agrediu verbalmente pessoas exatamente como seus parentes e amigos. E muitos outros, que não o são.
Não conversei com o deputado Brizola Neto sobre o assunto.
Fico, portanto, num comentário pessoal, sugerindo à deputada, se professa as ideias que afirma em sua nota, que leia a carta escrita pelo pastor Renê Kivitz, sobre o episódio em que jogadores do Santos se recusaram a participar da entrega de ovos de Páscoa a crianças portadoras de paralisia cerebral pelo fato de estas estarem sendo mantidas por uma instituição espírita. O que ele diz deveria ser um exemplo para todas as pessoas que têm um papel público, sejam ídolos de futebol ou parlamentares:
“O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai. E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixam de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.
Mas quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz. Os valores espirituais agregam pessoas, aproximam os diferentes, fazem com que os discordantes no mundo das crenças se deem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero, e inclusive religião.
Eu creio que o pastor concordaria até com aqueles que preferissem escrever humanidade, em lugar de espiritualidade.
Talvez essa leitura a faça repensar como, se é mesmo uma pessoa, como afirma, que não é preconceituosa e que não discrimina, deve encarar o que fala no exercício da função pública. E que entenda e pratique este respeito humano que assegura, em nota pública, que vai além de “convicções pessoais”, pois se votava uma emenda que nada mais era que a inclusão como direito constitucional ter livre orientação sexual, como têm os parentes e amigos da deputada, a quem ela ama e respeita, como diz.
Agora, é de se lamentar que essa questão, que tem se resolvido progressivamente na vida prática e na via judicial, esteja servindo para transformar a discussão sobre a abolição do preconceito em oportunidade de reafirmação de preconceitos.
Fernando Brito

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