do Carta Maior

Lupi e PDT se unem, rechaçam denúncia e não admitem demissão

Em demonstração de força, Carlos Lupi arranca da cúpula do PDT declaração de que partido deixa governo, se ministro do Trabalho for demitido por Dilma Rousseff. Denunciado por corrupção, Lupi reafirma inocência e diz que só sai 'abatido à bala'. Nota de chefe de gabinete de Dilma e avaliação prévia da Procuradoria Geral da República ajudam ministro, mas dissidência de três pedetistas e racha entre centrais sindicais mostram que futuro ainda é incerto.

BRASÍLIA – O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, e o partido do qual ele é presidente licenciado, o PDT, decidiram ir à guerra para salvá-lo no cargo e responder à denúncia de que se cobra propina na pasta. Depois de longa reunião da cúpula pedetista nesta terça-feira (8), Lupi disse que só sai “à bala”. E, se isso ocorrer, o que teria de ser feito por ação da presidenta Dilma Rousseff, o PDT promete abandonar o governo também.


Em entrevista depois da reunião, Lupi desafiou os jornalistas a “apresentarem qualquer prova” que o ligue a casos de corrupção em 31 anos de vida pública. Acusado pela Veja de abrigar no ministério aliados que pedem dinheiro a ONGs para não criar problemas na liberação de recursos para convênios, Lupi portava documentos que provariam que foi a pasta que decidiu suspender repasses para entidades com prestação de contas frouxas.


A tese do ministro, exposta já na nota de defesa que divulgara no fim de semana, é que as ONGs contrariadas teriam tentando subornar agentes públicos para voltar a receber. Sem conseguir, teriam “inventado” a história contada à Veja, cuja reportagem baseia-se em testetmunhos anônimos. “Para me tirar, só abatido à bala. Vou lutar até o último minuto da minha vida”, disse Lupi.


O ministro conversou sobre o caso com Dilma na segunda-feira (7). Na reunião, Lupi se explicou e garantiu ser inocente. “Eu não acredito que a presidenta vai querer me afastar porque ela me conhece há 30 anos e tem plena confiança em mim."


Caso a evolução dos acontecimentos frustre a crença do Lupi e Dilma resolva demiti-lo, o PDT promete morrer abraçado com seu presidente licenciado. “O ministro não tem substituto nem dentro da bancada e nem dentro do partido. Com Lupi, sai o PDT do governo, se necessário, tamanha é a confiança que temos nele. Não vamos aceitar que saia por pressão de ninguém”, afirmou o líder da bancada na Câmara, deputado Giovanni Queiroz (PA), também em entrevista após a executiva.


“O partido está unido no Senado e na Câmara, porque entendemos que a ação não é contra o Lupi, mas contra o PDT”, afirmou o líder no Senado, Acir Gurgacz (RO).


Além da unidade pedetista, Lupi acumulou nesta terça (8) mais dois fatos para poder usar em sua defesa e tentar se salvar. A primeira foi uma nota que o chefe de gabinete de Dilma, Giles Azevedo, mandou à Veja negando episódio que a reportagem contra Lupi diz ter ocorrido.


Segundo a revista, Giles teria sido avisado por parlamentares do PDT sobre a cobrança de propina. Ele desmentiu isso. “Jamais ouvi de deputados do PDT ou de qualquer outro partido que tenha estado em meu gabinete relatos sobre supostas irregularidades no Ministério do Trabalho”, disse a nota, distribuída por Lupi à imprensa que estava a acompanhar a reunião da executiva do partido.


O desmentido, em tese, ajuda o ministro a desqualificar a reportagem e, portanto, a declarar-se inocente.


O outro fato foi uma avaliação preliminar da situação feita pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Acionado para que abra uma investigação contra Lupi e os demais envolvidos, Gurgel disse que, por ora, não vê nada que envolva diretamente o ministro.


A posição de Gurgel foi decisiva para a degola do último ministro do governo Dilma acusado por corrupção, numa denúncia semelhante à que atingiu Lupi. No caso Orlando Silva, Gurgel entendeu que havia motivo para abrir um inquérito, pediu permissão ao Supremo Tribunal Federal (STF), e a autorização selou o destino do ex-ministro comunista.


Fissuras
O procurador foi acionado nesta segunda-feira (7) por um partido adversário do governo, o PPS. Mas, nesta terça, foram três parlamentares do próprio PDT de Lupi que fizeram o mesmo pedido à Procuradoria, num sinal de que não há unidade total entre os 26 deputados e cinco senadores pedetistas.


O pedido partiu dos deputados Miro Teixeira (RJ) e Reguffe (DF) e do senador Pedro Taques (MT), que é procurador de Justiça. “Isso não é pré-julgamento de ninguém. As denúncias são absolutamente graves e precisam ser investigadas a fundo, doa a quem doer”, afirmou Reguffe, que acha que seria “inteligente” Lupi se afastar do cargo.


O ministro do Trabalho também tem de enfrentar pelo menos mais uma fissura entre aliados teóricos. Cinco centrais sindicais divulgaram segunda (7) nota de apoio a ele. Mas a maior delas, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), não assinou, por colecionar divergências com o acusado.


Lupi precisa administrar também alguns embaraços criados para ele dentro do próprio governo. Segundo a Controladoria Geral da União (CGU), o ministério do Trabalho é um dos que mais tiveram processos por irregularidades enviados do Tribunal de Contas da União (TCU) e com servidores afastados por corrupção este ano. Já a Comissão de Ética da Presidência da República pediu explicações a Lupi sobre a denúncia da Veja.

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