do Carta Maior

Novo terremoto na Europa

O primeiro ministro grego, Georges Papandreou, anunciou a proposta de realizar um plebiscito no país em janeiro, sobre a aceitação do pacote acertado na semana passada para estabilizar o euro. Houve uma chuva de críticas ao primeiro ministro grego, a começar pelos conservadores em seu próprio país. Além disso, a euforia que as bolsas manifestavam com o anúncio do pacote e a perspectiva da recapitalização dos bancos sofreu uma reviravolta para um clima depressivo. O artigo é de Flávio Aguiar.

Nem bem um terremoto sacudiu a Alemanha quando a chanceler Ângela Merkel anunciou que defende a adoção um salário mínimo no país, outro tremor de terra varreu a Europa inteira. O primeiro ministro grego, Georges Papandreou, anunciou a proposta de realizar um plebiscito no país em janeiro, sobre a aceitação do pacote acertado na semana passada para estabilizar o euro.

Democracia demais faz mal e dá indigestão. Houve uma chuva de críticas ao primeiro ministro grego, a começar pelos conservadores em seu próprio país. Além disso, a euforia que as bolsas manifestavam com o anúncio do pacote e a perspectiva da recapitalização dos bancos sofreu uma reviravolta para um clima depressivo. As bolsas caíram de novo, as ações do Deutsche Bank ( - 8%) e do Commerzbank ( - 10%) alemães também, o euro perdeu 1,3% em relação a outras moedas.

É verdade que o pacote prevê a diminuição da dívida grega pela metade; mas ao mesmo tempo as condições do pacote (seus próprios mentores reconhecem) vão estagnar a Grécia pelos próximos dez anos, e pulverizar o que já se esmigalhou: pensões, aposentadorias, salários, empregos, investimentos, programas sociais.

“A Grécia não tem outra saída”, é a palavra de ordem das reações iradas de dirigentes europeus. Só que, para a Grécia, a “saída” é uma entrada pelo cano. Na verdade, quem não tem outra saída é o Consenso de Bruxelas, aferrado a sua ortodoxia de mercado, a sua incapacidade até agora de efetuar a indispensável regulamentação do setor financeiro, afogando a periferia da Zona do Euro com a idéia de que sair da crise é socorrer bancos e fazer a população comum pagar as dívidas que não contraiu nem a beneficiaram.

Há nas reações iradas tanto o temor de que a Grécia comprometa o pacote quanto o pânico de que a Grécia tome outras medidas que a beneficiem mais do que o atual plano de sufocação dos direitos de sua população – inclusive o de decidir o próprio destino.

Basta olhar um pouco ao lado, para a pequena Islândia. Na entrada do século 21 a Islândia tornou-se a heroína do neoliberalismo já decadente na Ásia e na América Latina. Desregulamentou tudo, sobretudo o setor financeiro e dos diretos trabalhistas. Choveram créditos para os bancos europeus. A tal ponto que a dívida total do país chegou a mais do que seis vezes o seu PIB – sendo a maior parte dessa dívida de bancos privados cujos débitos deveriam, em tese, ser cobertos pelo Banco Central. Em 2008, com a crise iniciada pela quebra do Lehman Brothers nos Estados Unidos, os capitais que tinham entrado ruidosamente pela porta da frente saíram à socapa pela dos fundos: os bancos e o país quebraram, o desemprego tornou-se avassalador.

O governo conservador chamou o FMI e seu “plano de austeridade”. Em conseqüência disso, caiu. Assumiu um novo governo, social-democrata (o primeiro em décadas). Sem renunciar à autoridade fiscal, o governo deixou os bancos quebrarem, nacionalizou-os, entrou em confronto com a banca internacional. Dono da própria moeda, negociou outros empréstimos além de com o FMI. Manteve a rede social de proteção, ao invés de corta-la no osso, como estão fazendo Grécia, Portugal e Irlanda. Resultado: em pouco tempo o país se estabilizou e está voltando a crescer, em todos os sentidos. Fez uma devassa no setor financeiro, re-equilibrou-o, definiu regras mais estritas. Que mau exemplo, não?

Imaginem se a Grécia faz o mesmo e se dá melhor do que o que está previsto agora.

Realmente, para quem acredita no Consenso de Bruxelas é de ficar de cabelo em pé.

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