Carta Maior
Em Porto Alegre, cerca de 70 manifestantes ligados ao Levante Popular da Juventude se concentraram às 9 horas da manhã em frente à casa do coronel Carlos Alberto Ponzi, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) na capital gaúcha e um dos 13 brasileiros acusados pela Justiça italiana pelo desaparecimento do militante político Lorenzo Ismael Viñas, em Uruguaiana, em 1980. Caso expõe ações conjuntas realizadas por policiais e militares brasileiros e argentinos durante a ditadura.
Marco Aurélio Weissheimer
Porto Alegre - O Levante Popular da Juventude, organização ligada à Via Campesina e ao movimento de Trabalhadores Desempregados (MTD), realizou nesta segunda-feira (26) protestos em várias cidades do país, na frente de residências de acusados da prática de tortura durante a ditadura. Foi uma articulação nacional. Além do Rio Grande do Sul, ocorreram protestos nos estados do Pará, Ceará, São Paulo, Minas Gerais e Bahia.
Em Porto Alegre, cerca de 70 jovens se concentraram às 9 horas da manhã em frente à casa do coronel Carlos Alberto Ponzi, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) em Porto Alegre, e um dos 13 brasileiros acusados pela Justiça italiana pelo desaparecimento do militante político Lorenzo Ismael Viñas, em Uruguaiana, em 1980.
Na lista dos acusados, há dois falecidos: o ex-presidente João Figueiredo e o ex-chefe do SNI, general Octávio Medeiros. Entre os réus ainda vivos, estão João Leivas Job, ex-secretário de Segurança do RS, o ex-chefe do DOPS gaúcho, delegado Marco Aurélio da Silva Reis, o coronel Ponzi, Luiz Mackson de Castro Rodrigues (ex-superintende da Polícia Federal no Rio Grande do Sul), e Átila Rohrsetzer, ex-diretor da Divisão Central de Informações.
Todos os acusados estão a salvo no Brasil, mas correm risco de prisão se entrarem em território italiano. A Procuradoria Penal de Roma enviou ao Brasil um pedido para que o Judiciário brasileiro abra processo e julgue os acusados de envolvimento no desaparecimento de dois argentinos de origem italiana.
Lorenzo Ismael Viñas e Horácio Campiglia teriam sido presos no Brasil em 1980 por militares e policiais brasileiros e entregues a uma força-tarefa argentina. Após passarem por prisões argentinas, entraram para a lista de desaparecidos. Há testemunhos dando conta de que foram jogados de um avião argentino no Rio da Prata. Por conta da prisão e do posterior desaparecimento de cidadãos de origem italiana no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, a Justiça daquele país está investigando o envolvimento de policiais e militares brasileiros em ações da Operação Condor, que envolviam a entrega de prisioneiros para militares de outras ditaduras do Cone Sul. A imensa maioria dessas ações permanece até hoje em segredo.
Um dos principais objetivos dos protestos desta segunda-feira do Levante Popular da Juventude foi justamente lançar luz sobre esse segredo e manifestar apoio à Comissão da Verdade que poderá investigar diversos crimes cometidos durante a ditadura que permanecem enterrados nas valas do esquecimento e da impunidade. “A ditadura civil-militar permanece um período obscuro na história de nosso país. No dia de hoje, jovens do Rio Grande do Sul se levantaram contra a tortura e exigiram o esclarecimento e punição dos responsáveis pelas atrocidades cometidas no período”, diz nota distribuída à imprensa pelo setor de Comunicação do Levante. Esse período de trevas e esquecimento foi surpreendido hoje por uma corajosa e exemplar iniciativa.
Fotos: Leandro Silva
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