Viomundo – O que você não vê na mídia

Richard Duncan é autor do livro The Dollar Crisis, lançado em 2003, que anteviu a crise financeira global deflagrada em 2008 com a implosão do banco de investimentos Lehman Brothers nos Estados Unidos. Em entrevista à revista New Left Review, ele define o capitalismo em que vivemos como a era do “creditismo” e prevê que qualquer regulamentação do sistema financeiro resultará num colapso econômico global, por revelar as falcatruas nas quais o sistema hoje se sustenta. Ele identifica a origem da crise atual na decisão dos Estados Unidos de abandonar o padrão-ouro, que exigia que o país tivesse depositados 25 centavos em ouro para cada dólar impresso pelo Tesouro.

Outros trechos:

[A primeira parte está aqui]

[A segunda parte está aqui]

NLR: Quais foram os objetivos do governo dos Estados Unidos ao lidar com a crise? Como você avaliaria as políticas até agora?

Richard Duncan: O objetivo da política do governo dos Estados Unidos tem sido a de perpetuar a expansão do crédito para evitar um colapso. Até agora os Estados Unidos conseguiram mais ou menos sustentar o nível total de dívida no mercado de crédito. Conseguiram isso acumulando um déficit de U$ 5 trilhões, o qual provavelmente não teriam conseguido financiar se o Banco Central [Federal Reserve] não tivesse imprimido U$ 2 trilhões para injetar na economia. Inicialmente, em 2007 e 2008, o resgate do setor financeiro e o estímulo de U$ 787 bilhões foram financiados com a venda de papéis do governo. Mas aquela rodada inicial de ajuda ao setor financeiro já tinha custado U$ 1 trilhão — cerca de U$ 544 bilhões em empréstimos aos bancos norte-americanos, U$ 118 bilhões ao Bear Stearns e [seguradora] AIG e U$ 333 bilhões à agência de financiamento de papéis comerciais. Então o Banco Central começou sua política de ‘quantitative easing’ em novembro de 2008. Naturalmente, QE é um eufemismo para criação de dinheiro do nada: a ‘quantidade’ se refere ao dinheiro em existência, o ‘easing’ significa criar mais — ‘facilitar’ as condições de liquidez.

A primeira rodada, QE1, foi usada principalmente para dar alívio aos bancos e outras instituições que estavam carregadas de papéis podres do mercado imobiliário. O programa foi ampliado em março de 2009, de U$ 600 bilhões para mais de U$ 1,75 trilhão, para durar até março de 2010. Assim que acabou, a economia dos Estados Unidos entrou numa fase ruim no verão de 2010. Em agosto de 2010 Bernanke já estava falando em outra rodada, a QE2, que foi anunciada formalmente em novembro, para continuar até junho de 2011. Daquela vez o Banco Central imprimiu U$ 600 bilhões, que usou para comprar de volta papéis do governo, financiando assim o déficit do orçamento. Com algumas diferenças, o mesmo caminho foi seguido pelo Banco Central Europeu e pelo Banco da Inglaterra, mas em escala menor.

Dada a natureza do debate sobre o déficit de orçamento dos Estados Unidos, é importante enfatizar qual seria a alternativa se o governo não tivesse se envolvido. O crédito total teria começa a se contrair em 2008, quando o setor privado não teria mais condições de pagar os juros de sua dívida e o tipo de espiral dívida-deflação descrita por Irving Fisher teria acontecido. A economia dos Estados Unidos teria mergulhado em uma nova Grande Depressão e, com ela, o resto do mundo.

[...]

Desde 2011, eu diria que os custos do QE se tornaram maiores que os benefícios, que tem dado retorno cada vez menor. O ‘quantitative easing’ criou inflação no preço dos alimentos, o que é muito danoso para 2 bilhões de pessoas que vivem com menos de 2 dólares por dia. Li que os preços globais dos alimentos subiram 60% durante QE2 e este foi um dos fatores que levaram à Primavera Árabe. O aumento nos preços do petróleo foi muito negativa para a economia dos Estados Unidos; a queda do consumo nos Estados Unidos em 2011 se deveu ao aumento nos preços da comida e do petróleo. Voltamos à velha teoria sobre a quantidade de dinheiro em circulação: se você aumentar a quantidade de dinheiro, os preços sobem. Até agora, isso teve pequeno impacto no preço das manufaturas, por causa do grande efeito deflacionário da globalização e a redução de 95% no custo marginal do trabalho que ela representou.

Então, não vemos inflação nos produtos industrializados. Mas os preços dos alimentos aumentaram em todo lugar. Se o preço em dólar dos alimentos sobe — se o preço do arroz em dólar sobe — o preço do arroz aumenta em todo o mundo; caso contrário, o produto seria vendido no mercado dolarizado. Se o preço do arroz nos Estados Unidos aumenta, também aumenta na Tailândia. E quando o Banco Central dos Estados Unidos imprime dinheiro, o preço da comida sobe. Esta é a grande desvantagem, o grande problema real do QE — caso contrário, seria uma coisa boa: imprima dinheiro, faça o preço das ações subir na bolsa e todo mundo ficará rico e feliz. Mas existe também este impacto, de criar inflação no preço dos alimentos.

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