Sul 21

Dilma está sob forte pressão do sistema financeiro, apontam economistas

Presidente enfrenta setor financeiro de forma mais intensa que Lula, 
apontam analistas | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Samir Oliveira
O setor financeiro aguarda com ansiedade o desfecho da reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central que teve início nesta terça-feira (16) e se encerra na quarta-feira (17). O encontro ocorre num contexto em que a inflação ultrassou em 0,9% a meta do governo, o que pode resultar em uma elevação da taxa básica de juros do país – a taxa Selic.

A inflação acumulada ao ano chegou a 6,59%, acima do máximo de 6,5% estipulado pelo governo federal. A taxa Selic atualmente está em 7,25%, menor patamar da história recente do país.

Esse panorama divide opiniões de economistas e especialistas no assunto e coloca em discussão a tática do Palácio do Planalto para combater a inflação e a política governamental no que diz respeito aos juros no país. Há quem diga que a única saída para que a inflação seja contida é o aumento da taxa de juros. Mas há economistas que criticam essa alternativa e defendem um enfrentamento mais intenso do governo federal com o setor financeiro do país.

Alguns analistas observam que a presidente Dilma Rousseff (PT) intensificou a disputa com os bancos privados, que não teria sido uma prioridade do governo Lula, e citam como exemplo a redução gradual da taxa Selic e a pressão para que os bancos privados acompanhassem o movimento dos bancos públicos e reduzissem suas taxas de juros.

No início do governo Dilma, a taxa Selic estava em 10,75%. Após algumas elevações, o índice começou a cair a partir de agosto de 2011. Em 2012, todas as reuniões do Copom conduziram à decisão de se cortar os juros. Em janeiro do ano passado, a taxa Selic estava em 10,50% e, após sucessivos cortes, chegou a 7,25% em novembro.

Agora, com a alta da inflação, motivada pela quebra de safras de alimentos e grãos e pelo aumento da demanda por bens e serviços, especialistas acreditam que o Copom deve optar pelo aumento dos juros como forma de barrar o processo inflacionário – revertendo, nesse caso, a sucessiva linha de cortes que vinham sendo efetuados.

Economistas se dividem em opiniões sobre combate à inflação

Para o professor de Economia da UFRGS Flávio Flingespan o aumento da taxa de juros só é eficiente no combate à inflação gerada pelo aumento da demanda no consumo. Ele aponta que a tática não soluciona totalmente o problema no país.

“Os economistas conservadores não dizem, mas sabem que o aumento dos juros não é eficaz para combater a inflação gerada pela oferta (caso dos alimentos) ou herdada por contratos indexados”, explica.

Reunião do Copom termina nesta quarta-feira (17) e pode decidir 
por aumento dos juros | Foto: Elza Fiúza/ABr

Flingespan acredita que o Copom irá elevar a taxa Selic. “Não há a menor dúvida de que o juro irá subir. Se não for nessa reunião do Copom, será na próxima. Mas somente aumentar o juro não resolve a situação atual da inflação brasileira. Alguns analistas ignoram isso e fazem apostas absurdas. Já vi grandes bancos desejando que os juros chegassem a 9% até o final deste ano”, critica.

Para Luiz Faria, economista da Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul (FEE-RS), o Brasil ainda não se recuperou dos traumas gerados com a superinflação da década de 1980 e dá importância excessiva ao tema num momento em que os índices não representam nenhum perigo. “A meta foi ultrapassada em 0,9% e já querem que o governo recrudesça. O que está puxando a inflação para cima são coisas que não são afetadas pela taxa de juros, como a frustração das lavouras e o setor de serviços”, avalia.

O economista acredita que o país precisa superar o excesso de rigor com o tratamento da inflação, diminuindo ainda mais os juros e deixando de repassar recursos ao sistema financeiro. “Argentina e Venezuela têm inflações mais altas que o Brasil e crescem muito mais. Em compensação na Europa a inflação é baixíssima, mas o desemprego está em 20% em alguns países e o crescimento é zero ou negativo. O Brasil dá importância excessiva à inflação, virou um trauma. Isso não é mais problema em nenhum lugar do mundo”, compara.

O professor de Economia da UFRGS Marcelo Portugal entende que “a situação está meio que saindo do controle” e que é preciso “aplicar o remédio usual”, que é o aumento da taxa Selic. “É necessário combater a inflação. O aumento de juros é positivo, é melhor do que deixar a inflação subir e sair do controle, corroendo a renda das pessoas e atrapalhando as vendas”, opina.

Para Gustavo de Moraes, professor de Economia da PUCRS, o governo está em uma situação desconfortável, pois se vê obrigado a elevar os juros mesmo contra vontade. “Mesmo após várias desonerações de impostos, a inflação chega próxima do teto. Isso ocorre num momento em que o crescimento econômico não é dos mais fortes e há dificuldade em se obter superávit. Elevar os juros é uma provável opção, não se pode pensar em outra trajetória até o final do ano”, estima.

Aumento de juros beneficia setor financeiro e eleva repasses à dívida pública

Acumulada em R$ 1,95 trilhão, a dívida pública consome boa parte do orçamento do governo federal e está intimamente ligada à taxa de juros do país – já que boa parte do que se paga é juro. Economistas apontam que a elevação da taxa Selic beneficia o setor financeiro e retira do governo verbas que poderiam ser investidas em setores importantes para o crescimento do país.

Banco Central precisa sair do domínio de bancos privados, diz 
economista da FEE-RS | Foto: BCB/Divulgação

“Quem perde com o aumento dos juros é o governo, que é o grande pagador de juros da economia, através de títulos públicos colocados no mercado. Esses títulos são o lastro das grandes aplicações financeiras no país. Quem paga o rendimento do dinheiro aplicado nos bancos é o governo, através dos títulos públicos”, explica o professor da UFRGS Flávio Flingespan.

Por outro lado, ele aponta que os bancos são os grandes beneficiados com a alta dos juros. “Repassam esse aumento para as taxas de suas linhas de crédito. Os bancos dizem que não defendem o aumento dos juros em benefício próprio, mas é algo muito bom para eles”, comenta.

Para o economista da FEE-RS Luiz Faria, “Dilma está sob tremenda pressão do lobby financeiro para aumentar a taxa de juros a pretexto de que a inflação está alta”. O economista, que também é professor da UFRGS, acredita que as pressões são políticas e não se sustentam no argumento da alta da inflação.

“O setor financeiro está muito mal acostumado, entra década e sai década e o Brasil continua sendo campeão mundial em juros. Estão furiosos, essa pressão é puramente política. A inflação não tem nada a ver com isso, mas dá um excelente pretexto, por ter passado um pouco da meta”, critica.

Luiz Faria observa que houve uma mudança expressiva na condução da política monetária do governo Lula para o governo Dilma. “Lula segurou o Ricardo Meireles na presidência do Banco Central e Dilma colocou no comando um funcionário de carreira que não tem compromisso com o sistema financeiro. Há décadas que o Banco Central está nas mãos do sistema financeiro, que indica sua diretoria. É o regulador sendo capturado pelo regulado”, lamenta o economista.
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