
Franklin Martins defende um marco regulatório para a mídia no Brasil
Segundo Martins, que participou no fim de semana de um painel do evento Conexões Globais, na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, a mudança no quadro de desperdício de dinheiro público e no apoio direto à concentração da mídia, no Brasil, depende agora da própria presidenta Dilma, e de mais ninguém.
– Isso precisa da liderança do governo, porque trata-se de concessões públicas. O governo tem que liderar esse debate. Acredito que em algum momento isso acontecerá – disse a jornalistas durante uma pequena coletiva de imprensa, minutos antes de falar ao público.
Ao concluir sua participação no governo, junto com o presidente Lula, Martins deixou como legado à substituta, ministra Helena Chagas, um projeto de marco regulatório praticamente finalizado. O processo foi encaminhado ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo e este, em recente entrevista, avisou aos interessados que não pretende, ainda neste mandato, levar adiante a questão. Do outro lado, organizados no Movimento pela Democratização da Comunicação, os diários independentes em meio impresso e digital, as revistas editadas em papel e online, as centenas de rádios e TVs comunitárias distribuídas por todo o território nacional, os jornalistas e produtores independentes de notícias e demais excluídos das negociações realizadas pelo Grupo de Mídia da Presidência da República não poupam críticas ao Palácio do Planalto. E fica cada vez mais evidente o retrocesso nas políticas públicas para a área em relação ao governo Lula – que realizou a primeira Conferência Nacional de Comunicação. Confrontado com estas questões, Martins optou por não criticar frontalmente o atual governo.
– Ninguém vai arrancar de mim uma palavra contra o atual governo. O governo Lula deixou uma contribuição. Não era um projeto pronto, mas tinha 95% das questões equacionadas. Lula e eu achávamos que é um tema relevantíssimo para a democracia e para a economia brasileira. Espero que o governo vá encaminhar essa questão – disse ao jornalista Samir Oliveira, do sítio Sul21, na internet.
Leia, agora, a íntegra da entrevista:
Ao ser perguntado se estava feliz com a política de comunicação do atual governo, o ex-ministro limitou-se a dizer que está feliz “com o governo”. E acrescentou que possui uma relação de amizade com a presidente Dilma Rousseff, com quem, segundo ele, conversa todos os meses. “Os adversários do governo querem estabelecer o tempo todo algum tipo de divisão entre o que foi o outro governo e o que é este. Converso todo mês com a presidente. Todo mês ela me chama e a gente conversa. Quando eu tenho críticas, faço a ela, não farei de público porque tenho um lado”, explicou.
Na conversa com jornalistas em Porto Alegre, o ex-ministro da Comunicação Social Franklin Martins observou que todas as áreas do serviço público delegadas à iniciativa privada são regidas por um arcabouço legal e regulatório, menos as telecomunicações. “Todos os serviços explorados em regime de concessão pública no Brasil têm um marco regulatório, menos a radiodifusão, porque ela se recusa a discutir e acusa qualquer tentativa séria de estabelecer algum tipo de regulação como atentado à liberdade de imprensa. É um discurso que não cola mais”, criticou.
Ele entende que é “absolutamente indispensável” que o país aprove um marco regulatório para o setor. “É preciso haver mais pluralidade nas telecomunicações. Não temos leis, vivemos em um cipoal de gambiarras, nosso código geral de telecomunicações tem 51 anos”, apontou. Franklin Martins disse que o espectro eletromagnético é público e precisa ser repartido de acordo com regras bastante claras.
– O Brasil é um dos poucos países importantes do mundo que não tem um marco regulatório para telecomunicações, que são concessões públicas. O espectro eletromagnético pertence ao Estado, é público, escasso, finito e tem que ter regras para ele ser repartido – defendeu.
Questionado sobre o avanço que outros países da América do Sul têm obtido nesta área – como Argentina, Uruguai, Venezuela, Equador e Bolívia, que possuem uma ley de médios –, o ex-ministro disse que o Brasil sempre foi “mais lento”.
– Nós custamos muito a formar maiorias. Isso sempre valeu na nossa história. Não somos um potro fogoso que galopa, dá meia volta, relincha e dá coices como os argentinos. Somos um elefante. Temos sempre três pés no chão e levantamos apenas um de cada vez – comparou.
Após a entrevista – antes de se dirigir à palestra –, Franklin conversou brevemente com o governador Tarso Genro (PT), que estava na Casa de Cultura Mário Quintana. O petista havia participado de um painel sobre o futuro dos estados democráticos na era da informação.