Londres – A “relação especial” que os britânicos alardeiam ter com os Estados Unidos por seus laços históricos e linguísticos é particularmente “special” para a agência britânica de espionagem eletrônica, a GCHQ. Em um novo capítulo desta novela que devemos a Edward Snowden, o jornal britânico The Guardian revela que a GCHQ recebeu nos últimos três anos cerca de 160 milhões de dólares de financiamento de sua homóloga estadunidense, a Agência Nacional de Segurança (NSA).
Segundo comentários do próprio Snowden ao jornal, as duas organizações são responsáveis pelo desenvolvimento de novas tecnologias para a interceptação massiva do tráfego pela internet. “Isso não é um problema dos Estados Unidos unicamente. Eles são os piores”, destacou Snowden referindo-se ao GCHQ. Em junho, Snowden revelou a existência do programa “Prism” da NSA para acessar milhões de e-mails e chats ao vivo e do programa “Tempora”, do GCHQ, para o acesso à fibra ótica pela qual circulam as conversações telefônicas e as comunicações pela internet.
Em 2009, os britânicos receberam cerca de 30 milhões de dólares de seus sócios estadunidenses; um ano mais tarde receberam cerca de 50 milhões, incluindo uns 24 para o deslocamento de uma parte da operação britânica para um novo local, Bude, no norte da Cornuália, que se encarrega de interceptar a comunicação de internet transatlântica. O último dado é do período fiscal 2011-2012 no qual a NSA aportou cerca de 54 milhões para sua contraparte britânica. “O financiamento para o projeto de Bude foi essencial para proteger nosso orçamento”, reconhece o documento.
Este orçamento anual, equivalente a 1,6 bilhões de dólares, é uma fonte de contínua ansiedade para o GCHQ. “O governo de sua majestade espera que justifiquemos o dinheiro que investe em nós anualmente”, assinala o documento. Uma ansiedade por momentos maior é mostrada em relação a seus sócios da NSA. Um documento de 2010 reconhece que os Estados Unidos se referiram a uma “série de temas necessários para cumprir com os requisitos mínimos da NSA” e admite que o GCHQ ainda “não satisfaz todos esses requisitos”.
A era da internet deu um papel muito mais importante à espionagem eletrônica que, nos últimos cinco anos, teve um aumento de 7.000% no volume informativo com seu acesso a e-mails, telefonemas e conversações de Skype. Este volume se reflete em dinheiro vivo e crescente poder entre as organizações de inteligência britânicas. O GCHQ recebe mais da metade dos cerca de 2,5 bilhões de dólares que o governo britânico destina à espionagem e tem oficiais de ligação no MI6 (espionagem externa), MI5 (espionagem interna) e SOCA (Agência de Luta contra o Crime Organizado), assim como no gabinete de governo, que denomina de seus “clientes” em claro legado linguístico da ideologia do mercado. Segundo o Guardian, o “cliente” que aparece com mais frequência nos documentos é a NSA.
Os documentos mostram que o GCHQ faz alarde quando fornece informação valiosa aos Estados Unidos como a que enviou a NSA durante a investigação do plano de atentados com carros-bomba na Times Square, em Nova York, em 2010. O pior temor dos britânicos é que “diminua a percepção estadunidense da importância de nossa ação conjunta e que isso reduza seu investimento no Reino Unido”.
Quanto ao principal inimigo, os documentos recriam a linguagem da Guerra Fria com algumas modificações, colocando a China como inimigo principal e a Rússia como o segundo vilão do filme. “A China tem um cyber-programa capaz de atacar todo o espectro de objetivos governamentais, militares e comerciais. A espionagem industrial chinesa é a ameaça mais importante para a tecnologia estadunidense”, assinala o documento.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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