A França socialista tornou-se submissa parceira dos EUA na questão síria.
O que diria o velho De Gaulle ao ver a França, governada pelos socialistas, se ter colocado na humilhante posição de bombardear a Síria se o Congresso americano assim decidir ? Mesmo se 64% da população francesa se declara contra qualquer tipo de ataque, seja o pretensamente cirúrgico, ou francamente destrutivo como acabaram sendo os ataques contra a Líbia.



Não tenho nenhuma simpatia pelo ditador Assad, nessa Síria onde o poder político é transmitido de pai para filho. Muito menos pelos grupos rebeldes importados de diversos países, composto em grande parte de jovens treinados no Afeganistão, islamitas seguidores da Al Qaida.

Uma rápida análise nos leva à seguinte conclusão – já está ruim e poderá ficar pior, porque os islamitas da Al Qaida e outros fundamentalistas significam o fim de uma série de avanços da humanidade em termos de direitos humanos e o retorno das mulheres à cozinha, à situação de objeto com o fim de todas as conquistas, inclusive no vestir.

Nesse caso do “pode ficar ainda pior”, a melhor solução é a de se deixar a ONU encontrar uma saída. A própria Suíça, que sempre foi neutra, saiu da sua tradição, se pronunciando por uma solução diplomática e oferecendo Genebra para um encontro entre as partes beligerantes.

Alguns dirão que isso não vai levar a nada, pois existem países irredutíveis por trás da guerra-civil na Síria : Rússia, China e Irã a favor de Assad; Estados Unidos, Inglaterra, França e Arábia Saudita contra Assad.

Seria, então, o caso de se jogar bombas na Síria, provocando a morte de centenas ou milhares de civis, sabendo-se que provavelmente isso em nada ajudará a acabar com o conflito ?

Ao contrário, depois da guerra contra o Iraque, causadora de uma mudança total no equilíbrio de forças no Oriente Médio, destruindo um país laico e favorecendo os xiitas iranianos, uma guerra contra a Síria poderá detonar reações inesperadas e equivaler à abertura de outra Caixa de Pandora, cujas consequências são imprevisíveis mesmo para a Europa.

Nestes últimos dias, entrou um novo fator nos ataques à Síria, até então considerados como inevitáveis – o Parlamento inglês desmoralizou o “guerreiro” David Cameron desautorizando-o de jogar bombas na Síria, depois dos resultados desastrosos dos ataques à Líbia de Kadhafi, em parceria com a França de Sarkozy.

O Parlamento inglês nada mais fez que espelhar o sentimento da população inglesa, cansada da submissão do trabalhista Tony Blair ao chefe de guerra George Bush, e agora de uma nova parceria Cameron-Obama. Ou seja, de repente o povo pôde dar sua opinião através de seus representantes. E o povo, em qualquer parte do mundo, não quer guerras, insufladas na maioria das vezes pelas indústrias armamentistas, que precisam rodar e modernizar o estoque de armas dos países clientes.

Cameron foi desmascarado e engoliu seus discursos de mais mortes para vingar mortes. Sumiu de cena, mas sua derrota obrigou Obama a rever sua estratégia – se a Inglaterra tem de ouvir o Parlamento para declarar ações de guerra, por que os Estados Unidos dariam carta branca ao seu presidente? E Obama foi obrigado a modificar seu discurso, já não querendo arcar sozinho com os assassinatos de civis sírios. Democratas e republicanos decidirão por maioria se os Estados Unidos continuam sua missão de policiais do planeta.

E isso criou uma situação grotesca para não se dizer ridícula envolvendo o presidente socialista François Hollande da França. Na França a Constituição não exige aprovação parlamentar no caso de ataques bélicos à Síria, porém o discurso guerreiro do presidente Hollande não pode ser levado à prática de maneira isolada e solitária. Hollande tinha certeza de poder fazer uma parceria européia com a Inglaterra.

Ora, com a Inglaterra descartada pelo Parlamento criou-se uma situação nunca imaginável na época de De Gaulle – a França só atacará a Síria se assim decidir o Congresso americano. Uma parceria quase tão absurda quanto é o apoio de Obama aos rebeldes “sírios”, na verdade contingentes de combatentes islamitas da Al Qaeda, que partem dos países europeus e dos países vizinhos da Rússia para engrossar as fileiras de combatentes treinados pelos talibans no Afganistão.

Para os evangelistas, adventistas e testemunhas de Jeová tudo parece indicar estar próxima a profetizada Batalha do Armagedon no Apocalipse, a última das batalhas, o fim do mundo que conhecemos. Não será, mas poderá provocar convulsões inesperadas dentro da própria Europa e, sem dúvida, estaremos perto de uma guerra mundial, caso Rússia e China tomem as dores de Assad. E para os franceses e europeus socialistas e de esquerda uma enorme decepção com o governo francês de François Hollande (foto).

Longe está a posição de independência da França, com seu ministro das relações exteriores Dominique de Villepin, se opondo no Conselho de Segurança da ONU ao ataque de Bush ao Iraque. Paradoxo, o presidente era Jacques Chirac, golista, mas de direita. E onde está hoje a França socialista ?
(Publicado originalmente no site Direto da Redação)

Rui Martins – jornalista, escritor, líder emigrante, correspondente em Genebra.



Jornal Correio do Brasil

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