O editorial do jornal O Globo deste domingo é uma síntese magnífica de como pensa o núcleo conservador brasileiro, que pode ser definido em três adjetivos: mesquinho, mesquinho, mesquinho.
O atual mecanismo encontrado pelo governo, centrais e sindicatos para elevar o salário mínimo em linha com a média do crescimento do PIB dos últimos dois anos foi uma das medidas mais progressistas e eficazes em décadas.
Muitas vezes um governo adota uma medida progressista, mas sem eficácia. Ou seja, a intenção é boa, mas não dá certo, e o fracasso às vezes gera um retrocesso, ficando o trabalhador em pior situação do que antes.
O grande desafio da política é encontrar soluções que beneficiem o trabalhador e que sejam, ao mesmo tempo, sustentáveis ao longo do tempo.
A oposição do Globo ao mecanismo que possibilitou o aumento real do salário mínimo demonstra a sua indiferença para com a questão social e humana. Para uma família que tem uma fortuna de quase R$ 60 bilhões, como tem os Marinho, realmente é difícil se comover com 50 reais a mais ou a menos no salário de um chefe de família.
Entretanto, é muito bom que o Globo abra o jogo e revele seus dentes afiados. É bom para não esquecermos que enquanto a gente reclama que o governo faz pouco, que é tímido, que poderia ousar políticas sociais mais avançadas, há setores poderosos, e o Globo é ao mesmo tempo porta-voz e líder desses setores, que lutam pelo retrocesso.
O mecanismo atual de ajuste do salário mínimo tem a vantagem de ter acabado com o desgastante jogo de pressão entre governo, empresas e centrais sindicais. Agora ambos podem se dedicar a outras pautas, mais complexas, envolvendo questões tributárias, incentivos, crédito e investimentos em tecnologia.
A regra acertada é que o salário mínimo aumentará se o PIB tiver crescido. Ficará parado se o PIB estaganar. É simples, objetivo, racional. É uma das poucas coisas que tem dado 100% certo nos últimos anos, e para o bem do trabalhador, que viu sua renda aumentar em paralelo com o declínio no desemprego.
O golpe de 64 foi aplicado, entre outras razões, porque havia uma grande pressão política para o aumento do salário mínimo. E João Goulart estava do lado daqueles que desejavam ampliar o poder aquisitivo do trabalhador. Aliás, o que os conservadores chamavam de “comunismo” na década de 60, era, entre outras coisas, defender o aumento do salário mínimo. O Globo da época, assim como o de hoje, também era contra isso. O Globo era tão contra aumentar o salário mínimo, mas tão contra, que usou isso como uma das justificativas para derrubar um presidente legitimamente eleito pelo sufrágio universal.
Só que o cartucho do golpe militar já foi gasto, e o Brasil hoje é bastante alerta, diria até mesmo paranóico (saudavelmente paranoico), quando à possibilidade de outro tipo de golpe, de maneira que os conservadores atuais terão de continuar engolindo por um bom tempo (espera-se que eternamente) a ascenção gradual e constante do valor dos salários pagos aos trabalhadores brasileiros.
TIJOLAÇO
Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;