Kiko Nogueira
Escravos
Ao fazer uma denúncia, ou algo que o valha, num desfile, a Ellus chamou atenção nacionalmente para um problema importante — num dos maiores tiros no pé em toda a história do marketing.
Na São Paulo Fashion Week, foi lido um manifesto cabeça-oca chamado “Desabafo”. Se a intenção era provar o estereótipo de que a indústria da moda é forrada de pessoas superficiais, iletradas e magras, o objetivo foi plenamente alcançado.
Um trecho:
“Brasil = ineficiência, improdutividade. Isso faz com que fiquemos isolados do mundo, acarretando esse atraso todo em relação ao mundo moderno.
É claro que os maiores responsáveis são os políticos e os governos antiquados, cartoriais, quase medievais, que com suas ideias atrasadas de protecionismo acabam por gerar atrofia.
Precisamos desburocratizar, simplificar para motivar, avançar, abrir, internacionalizar, se não, cada vez mais, ficaremos isolados nas geleiras do Polo Sul.”
(“Geleiras do Pólo Sul??”)
Não demorou e descobriu-se que a Ellus está sendo processada por uso de trabalho escravo. É espantoso que quem tenha escrito um texto falando sobre o quanto somos vagabundos não tenha levado isso em conta (quem assina é a entidade difusa “time Ellus”).
Mas o debate trouxe à tona casos envolvendo outras marcas como M.Officer, Marisa, Pernambucanas, C&A, Collins e Gregory (além da Zara, já um clássico). Recentemente, o Ministério Público do Trabalho de São Paulo teve a ideia de criar um polo têxtil de trabalhadores imigrantes financiado por empresas do setor. Ficaria na região de Itaquaquecetuba ou Carapicuíba e seria mantido com o dinheiro da aplicação das multas às empresas.
“Quem cumpre rigorosamente a lei tem muito interesse em combater aquele que agride a legislação. Então, nós vamos lançar um programa envolvendo as 70 grandes marcas que estão no topo da cadeia produtiva no setor de costura, com o objetivo de isolar economicamente aqueles que exploram o trabalho escravo”, disse o procurador Luiz Fabre, do MPT, ao Terra.
E o Senado aprovou nesta semana, por unanimidade, a PEC do Trabalho Escravo, que determina a expropriação de imóveis urbanos e rurais onde seja constatada exploração de trabalho escravo ou de gente em situação análoga à escravidão.
O texto vai à promulgação pelo Congresso. Ficou 15 anos em tramitação. Sem o apoio inestimável da Ellus e de sua tática de bater a carteira e gritar “pega ladrão”, demoraria muito mais tempo.
A nova versão da camiseta
Sobre o AutorDiretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
Diário do Centro do Mundo

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