No último Ibope, a despeito dos gargalos no poder de compra, é nos serviços públicos de segurança, educação e saúde onde a percepção negativa é maior.

Antônio David




A mais recente pesquisa Ibope de intenção de voto para presidente, divulgada no dia 22 de julho, apresenta dados novos em relação à pesquisa Datafolha publicada alguns dias atrás.

Não é o caso de observar à exaustão os resultados sobre intenção de voto, sobretudo porque a pesquisa Datafolha trabalhou com amostra significativamente maior. Porém, o Ibope fez uma série de perguntas aos entrevistados sobre as condições de vida, que ajudam a iluminar o atual quadro eleitoral. Vale a pena comentá-las.

O Ibope perguntou aos entrevistados: "Para cada área, por favor diga se na sua vida, ou na vida de pessoas que o(a) sr(a) conhece, de uma maneira geral, a situação melhorou muito, melhorou um pouco, ficou igual, piorou um pouco ou piorou muito nos últimos dois anos". Vejamos:


Tanto para estes dados como para os dados que vêm a seguir, convém discriminar as diferenças por faixa etária, região, faixa de renda etc. Os leitores podem fazê-lo por conta própria neste endereço.

Meu interesse aqui é mostrar que, a despeito dos gargalos no poder de compra – onde houve piora para 30%, percentual não insignificante –, é nos serviços públicos de segurança, educação e, sobretudo, saúde onde a percepção negativa é significativamente maior.

Também em relação ao emprego, a situação de relativa divisão esconde um dado preocupante: entre os mais pobres, com renda familiar até 1 salário minimo, houve piora para 43% dos entrevistados, sendo que 26% afirmam que “piorou muito”.

Esse dado confirma o que vem sendo alertado por pesquisadores no ramo: apesar do nível de ocupação permanecer alto, a qualidade do emprego ainda é baixa. Antes satisfeitos com o simples fato de ter um emprego, é possível que parte cada vez maior dos trabalhadores – sobretudo os mais jovens, cujo nível de escolarização é maior – começam agora a manifestar insatisfação diante da dificuldade em progredir profissionalmente.

O Ibope perguntou ainda sobre a situação econômica do país e do próprio entrevistado, em relação ao atual momento e ao futuro:


É importante notar que, enquanto a percepção dos entrevistados a respeito da situação econômica do país é dividida, de tal sorte que ai prepondera o “regular”, a coisa muda de figura quando se trata de avaliar a própria situação: quase a totalidade dos entrevistados considera sua situação pessoal como regular ou boa e a maioria tem a expectativa de que fique melhor.

Esses dados não deixam dúvida de que a percepção dos eleitores envolve certa tensão entre, de um lado, a própria situação econômica, que é em linhas gerais percebida como favorável e, de outro lado, a percepção – desencadeada em junho de 2013 – acerca da situação econômica do país. É no terreno dessa tensão que o pleito de outubro será definido.

Demandas que vêm de baixo – Mas convém indagar: por que o clima de ceticismo e pessimismo de junho do ano passado perpetuou-se até os dias atuais se a percepção dos eleitores quanto à própria situação econômica é majoritariamente favorável? Por que enquanto a percepção da própria situação econômica orbita entre ótima e regular, é mais dividida e menos optimista a percepção sobre a situação do país?

Penso que essa diferença tem duas fontes.

Por um lado, o pessimismo diante da situação do país é em parte repercussão da luta ideológica travada na imprensa contra o governo, de longe predominantemente pessimista quanto ao futuro – em particular no tocante à inflação – e favorável à oposição ao governo, sobretudo ao candidato do PSDB.

É sintomático que, face à pergunta “quais destas fontes de informação são as três principais que o(a) sr(a) leva em conta para decidir o seu voto?”, 55% dos entrevistados da pesquisa Ibope apontam “notícias na TV”. E entre os mais pobres, o rádio chega a ter 26%. É notório que a mídia pegou carona nos protestos de junho para intensificar a crítica oposicionista ao governo. Desde então, o eleitor tem sido bombardeado diariamente com notícias negativas – quase sempre enviesadas – sobre a economia.

Por outro lado, seria um equívoco atribuir o pessimismo apenas a mentiras e exageros da oposição e da imprensa. Os dados permitem dizer que essa diferença deve-se também à experiência de vida das pessoas. Refiro-me em particular ao sentimento dos eleitores em face da qualidade do emprego e da situação dos serviços públicos, principalmente nas grandes cidades.

Esse sentimento sempre existiu, mas estava adormecido. Antes do governo Lula, as preocupações centrais eram outras. Conseguir um emprego com carteira assinada, ter acesso ao universo do consumo, estudar e qualificar-se profissionalmente. Durante os últimos dez anos, na medida em que essas preocupações foram sendo preenchidas, ainda que de maneira precária e incompleta, outras preocupações ganharam força, sem que, contudo, tivessem uma resposta satisfatória do governo.

Assim, outras preocupações foram acumulando-se e formando uma demanda que, no entanto, ficou represada. Os protestos de junho não significam outra coisa senão o estouro do dique. Antes estacionadas, em junho novas demandas vieram com toda força. Exatamente por serem novas e não terem sido prioridade, a despeito de avanços obtidos também nessas áreas, fizeram despencar a aprovação do governo e a popularidade da presidenta. Hoje, é possível dizer: parte dos eleitores está mais exigente. Quer mais – mas não mais do mesmo.

O ponto é que, se a percepção de que a inflação está “fora de controle” não tem base real, sendo muito mais um eco da propaganda oposicionista ao governo – muito embora o preço dos alugueis nas grandes cidades tenha disparado, todavia apenas isso não é suficiente para explicar o pessimismo generalizado face à inflação –, já a percepção negativa da qualidade dos serviços públicos e dos empregos não só tem total lastro na realidade como vai na exata contramão da pauta que oposição e mídia querem impor como o centro do debate. São demandas que efetivamente vêm de baixo.

Impasse – Nesses termos, a percepção da parcela do eleitorado que constituiu a base eleitoral de Lula e agora constitui a base de Dilma – os trabalhadores mais pobres, com renda familiar até 5 salários mínimos – parece estar tensionada entre, de um lado, elementos que os motivam a procurar saídas conservadoras – por exemplo, o medo da inflação – e, de outro, demandas que exigem, se não a radicalização política, ao menos um programa econômica mais avançado por parte do governo. Ao menos para esta parcela do eleitorado, mais do mesmo não é mais suficiente.

Cada vez mais encurralada entre pressões antagônicas, Dilma terá de dar resposta para ambas.





Carta Maior

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