por Paulo Moreira Leite

Marina Silva é candidata típica de uma campanha na qual o conservadorismo não ousa mostrar a própria face

Não vamos nos enganar: a mesma elite econômica que fez o possível para sustentar Aécio Neves até aqui prepara seu embarque na campanha de Marina Silva. É uma questão que se resolve na próxima pesquisa.

É constrangedor mas é verdade.

Os editoriais de jornal, o tom de crítica leve, as advertências e conselhos dirigidos a Marina traduzem um movimento de quem prepara o terreno para fazer uma virada mudança em suas opções políticas e negocia cada passo.
O esvaziamento notório de Aécio, quinze dias depois da morte de Eduardo Campos, ajuda a revelar o caráter superficial dos compromissos políticos de seus aliados de véspera. Sua campanha nunca se apoiou num pacto político em profundidade mas numa aliança puramente instrumental, de quem contrata um serviço e define uma tarefa.
A razão de fundo para esse esvaziamento é conhecida. Depois de 1994, quando o Plano Real derrubou a inflação, o PSDB tem sido incapaz de dar respostas aos problemas da grande maioria dos brasileiros. Apesar da oposição a Lula em 2002, do massacre da AP 470 em 2006, do apoio aberto e assumido dos grandes meios de comunicação em 2010 e em 2014, seus candidatos não conseguem falar para as grandes parcelas do povo.

O que se assiste, agora, é uma repetição do que se viu em outras campanhas. A diferença é que a aparição de Marina Silva abriu uma nova chance para se tentar dar conta da prioridade absoluta em 2014. Vamos deixar claro, é vencer Dilma. Sem isso, o candidato do PSDB não tem serventia. Não estamos falando de ideias, de um projeto de país, de luta ideológica e tantas palavras nobres que se costuma citar para maldizer a política brasileira. É poder e poder.

Depois de passar os últimos anos tratando Marina Silva como uma concorrente despreparada, dogmática, candidata a transformar o exercício da presidência num desastre permanente, aquilo que nossos sociólogos chamam de elite porque o termo “burguesia” ou “ classe dominante” fica pesado demais num discurso liberal, é obrigada a engolir o que disse. A pergunta que interessa é saber quem está melhor preparado para interromper 12 anos de governos Lula-Dilma.
A vantagem comparativa de Marina sobre Aécio é a falta absoluta de compromissos reais. Cabe tudo em sua caravana.
Através dela, a política brasileira regride em direção a Jânio Quadros. É a candidata que condena a “velha política” mas não consegue explicar-se sobre um simples avião de campanha. Mantém com o PSB relações típicas de um partido de aluguel – que usará enquanto lhe for conveniente — mas agora mostra-se como o “novo.”

Existe coisa mais antiga do que “socialista” que não acredita em “socialismo” e não sai de perto de banqueiro?
Lembram-se de Fernando Collor, o caçador de marajás que promoveu um furacão sem partido, apoiado pela turma dos negócios & do poder porque era o melhor para vencer o Brizula, apelido do condomínio Brizola-Lula?

Para empregar uma linguagem típica de seus aliados, o universo de Marina é o populismo que não tem referências claras, cresce nas emoções e na confusão política. Por isso se fala em governar com FHC e Lula.

Isso sempre acontece quando o conservadorismo disputa uma eleição na qual não pode mostrar a própria face.


Paulo Moreira Leite

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