Toda a economia mundial encontra-se em sério risco de recaída, confirmando o autêntico suicídio económico dos planos de austeridade. Planos que têm potenciado as vulnerabilidades em matéria de saúde como ocorre hoje com o flagelo do ébola, que já atingiu Espanha. 

Artigo de Marco Antonio Moreno, publicado no El Blog Salmón.



A queda da produção industrial da Alemanha em 4% e das vendas a retalhe em agosto é um claro sinal da debilidade económica europeia. O desempenho de agosto é o pior desde princípios de 2009, quando a economia mundial ainda estava abalada pelo colapso do Lehman Brothers. Embora as empresas alemãs advirtam que esta cifra tem um caráter sazonal resultante das férias, a verdade é que o segundo trimestre foi bastante mais débil que o primeiro, pondo seriamente em causa a recuperação económica da Europa. Os dados mostram um declínio paulatino e persistente, confirmado pelas sucessivas revisões em baixa do FMI e do Banco Mundial. Ambas as instituições voltaram a reduzir os seus prognósticos de crescimento para 2014 e 2015 em 0,4 pontos percentuais desde a sua estimativa de abril.

Segundo o FMI, não há perspetivas de um relançamento no curto prazo dado que os "défices da procura nas economias avançadas, juntamente com a erosão da produção potencial, poderiam conduzir à debilidade económica mundial durante um período de cinco anos". Isto significa que, de acordo ao FMI, a economia mundial pode permanecer estagnada até 2020: todas as taxas de crescimento estão a ser revistas em baixa e o agravamento das projeções terá sem dúvida um impacto na confiança, na procura e no crescimento.

Estas débeis projeções de crescimento não fazem mais do que potenciar o risco de recessão na Europa e aumentar as probabilidades de uma deflação em toda a linha. Se considerarmos que as perspetivas económicas da Ásia, lideradas pela China, reduziram-se arrastando no seu declínio os países emergentes, toda a economia mundial encontra-se em sério risco de recaída confirmando o autêntico suicídio económico dos planos de austeridade. Planos que têm potenciado as vulnerabilidades em matéria de saúde como ocorre hoje com o flagelo do ébola que já atingiu Espanha.

Assim como as políticas dos bancos centrais semearam todas as sementes da próxima crise com a expansão das borbulhas especulativas, assim também se desmantelou todo o sistema de proteção social e hoje os países estão bem mais desprotegidos do que nos anos da quebra do Lehman Brothers. Os perigos da volatilidade e o temido impacto do aumento das taxas de juros pode significar um golpe ainda mais prejudicial para a recuperação económica. Os bancos centrais ficaram sem instrumentos para controlar a crise e cada novo passo pode mergulhar ainda mais a economia no pântano.

A recuperação económica tem sido dececionante e tem potenciado todos os riscos do sistema financeiro. O consumo e o investimento encontram-se nos níveis mais baixos enquanto a especulação vive dias de euforia. Os excessos do sector financeiro e "a maldição da banca na sombra", como reconheceu o próprio FMI, têm levado a economia ao seu novo desastre. Não só não existiu uma recuperação sólida, como as políticas adotadas nos últimos seis anos têm criado as condições perfeitas para uma nova grande crise financeira.



Artigo publicado no El Blog Salmón

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