Por Roberto Bitencourt da Silva

Muitos aspectos negativos são mencionados a respeito da disseminação do uso das redes sociais. Chamam demasiadamente a atenção expressões deselegantes e preconceituosas de comunicação, que se encontram a léguas de distância de um ideal habermasiano da deliberação pública, racional e argumentativa, eventualmente (a ser) transposto para o ambiente em redes.

As recorrentes manifestações de ódio e intolerância em rede derivam de fato elementar: a técnica é fruto da cultura e apropriada pelas aspirações, os esquemas de percepção, os interesses e os costumes dos sujeitos individuais e das classes sociais. Desse modo, em elevada medida, a cultura antecipa e molda a apropriação da técnica.
Entretanto, um fenômeno que se tem desenvolvido de maneira silenciosa, a cada dia mais comum, é bastante positivo do ponto de vista democrático. Trata-se da proliferação de informações e saberes oferecidos voluntária e involuntariamente, pela conexão de uma miríade de afetos, subjetividades e vetores de informação e conhecimento. Guarda tal fenômeno saliente potencial de enriquecimento cultural das coletividades.

Em meio às acirradas e recentes polêmicas em torno da ampla cobertura jornalística dos grandes meios, sobre os horrendos atentados em Paris, muitos usuários das redes sociais reclama(va)m, no Brasil, das escassas e limitadas notícias sobre a tragédia social e ecológica ocorrida em Minas Gerais.

Nesse sentido, deixando de lado potenciais julgamentos de valor acerca da controvérsia, em que, não raro, se procura(va) medir a dor em função da geografia, um fato é inegável e saliente nestes últimos dias: refiro-me à dilatação da capacidade das pessoas em rede identificarem os problemas e mecanismos de funcionamento das corporações da mídia.

Não seria exagero afirmar que, até uns cinco anos atrás, determinados perfis de crítica e observação sobre as mídias massivas e comerciais ficavam restritos aos profissionais e aos estudiosos dos fenômenos da comunicação.

É exemplar o candente caso da controvérsia que se produziu entre as tragédias de Minas e Paris. O que dá para se perceber é um aguçamento da percepção das pessoas, a respeito de questões que, há bem pouco tempo, ficavam circunscritas aos especialistas: pauta, enquadramento noticioso, seletividade e sensacionalismo, condicionamento publicitário etc.

Os internautas que não integram o campo jornalístico, nem são estudiosos da comunicação enquanto objeto de pesquisa e trabalho, não estão mobilizando, muito menos precisam usar aquelas categorias conceituais, em suas críticas e ponderações.

O mais rico – e realmente decisivo, sob o ângulo da democratização da nossa sociedade –, é a dilatação da capacidade coletiva de enxergar as realidades às quais os aludidos conceitos pretendem esclarecer. Ainda em processo, difícil mensurar e fazer projeções, inclusive tendo por foco implicações políticas. Em todo caso, fenômeno estimulado pela popularização no uso das redes de comunicação mais horizontalizadas e colaborativas.

A ampliação da capacidade de crítica sobre um problema vital ao interesse público, como o é o sistema de comunicações, que repercute diretamente no direito à expressão e na tomada de decisões coletivas, convenhamos, isso é muitíssimo alvissareiro.

Roberto Bitencourt da Silva – doutor em História (UFF), professor da FAETERJ-Rio/FAETEC e da SME-Rio.

Publicado no Diário Liberdade.

GGN

Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads