A partir do Golpe de Estado de 2009, em Honduras, ninguém poderia se dizer surpreso com os acontecimentos que se planejaram para a América Latina e Caribenha por parte do império norte-americano, as transnacionais e as oligarquias vira-latas. Alguns intelectuais e políticos da esquerda cometeram um erro desgraçado, denominar esses golpes de estado tal qual os denominou o cientista político, filósofo y escritor ianque Gene Sharp. Esse indivíduo chamou de ‘golpe brando’ aos processos de desestabilização que acabam por derrocar um governo. Essa assimilação cretina baixou o perfil do que aconteceu ao heroico povo hondurenho, e pior, como conceito normatizou o ponto de vista sobre o que viria a acontecer depois. Talvez a pequena burguesia intelectual e a burocracia de gabinetes não consiga entender que um golpe não é brando porque apenas não apresenta o formato dos golpes da época da Guerra Fria.

O assassinato da líder ambientalista e indígena lenka, Berta Cáceres, fuzilada na frente dos seus filhos, dentro da sua casa, demonstrou quão brandos são esses golpes e quanto são capazes de durar. A linguagem errada e sim, branda demais, se tornou permissiva e o avassalamento à soberania dos nossos países se veio incrementando. A ofensiva da direita, a consolidação cotidiana do fascismo não parou e não dá sinais de parar. Como afirmou o ex-ministro e economista argentino, Axel Kicillof, em parte isto acontece porque perdemos a guerra comunicacional. E seguimos perdendo, e seguimos usando a linguagem do dominador, e seguimos respondendo dentro dos limites que ele nos determina. Insistimos com ‘golpes brandos’ e outras bobagens semelhantes.

A derrota nessa guerra comunicacional com a qual colaborou nossa ignorância, petulância, falta de criatividade (criatividade que nos pedia Simón Rodríguez), faz com que o pouco o muito conquistado com os governos progressistas se esvaia pelo ralo dos lugares comuns, as generalizações, as simplificações e a imoderação narrativa quando queremos devolver tenisticamente o discurso da direita rançosa. A nossa bola vai sempre para fora da quadra. Essa derrota comunicacional penaliza e penalizará os mais pobres, os que conseguiram alguma melhoria desde o início do século XX. Esses, os primeiros a ficar desempregados, a serem terceirizados como mercadoria, a serem presos, torturados e mortos. Os excluídos que conseguiram respirar sobre a enchente neoliberal e que a inoperância dos governos frente ao novo míssil midiático que não souberam desativar, acabará por excluir de novo e de forma mais terminal.

Boa parte da juventude inoculada pela mídia canalha da burguesia não conheceu o que é uma ditadura no poder. Não sabe o que é o PODER REAL governando. Não fizemos o suficiente (só Argentina o fez) nesta festa interminável da democracia progressista, para que compreendesse o que é sair às ruas sem retorno assegurado. O que é dar um abraço a um amigo sem saber que é o último. Para essa juventude, ainda bem, a vida cívica sempre transcorreu em democracia. Imperfeita, representativa, mínima, mas, democracia. Não fizemos o suficiente porque nenhum governo, nenhum, acabou totalmente com as concessões de rádio, TV e controle do papel para imprensa nas mãos dos monopólios da mentira. Nenhum governo acabou com a arma e a tecnologia mais contundente e barata para alienar, distorcer, mentir, e governar, que comandam as velhas oligarquias. Os governos tiveram medo da ladainha contra “censura e a falta de liberdade de expressão”. Liberdade de expressão dos bancos, das petroleiras, dos laboratórios, de todo quanto conglomerado sem-vergonha assola o Planeta. Então, optaram esses governos progressistas por alienar a verdade para os povos, para aqueles que os tinham escolhido. Alguns criaram vias de comunicação tão complexas e assimétricas em comparação com o poder da mídia convencional, que é impossível que o povo pobre se possa defender depois de mais de um século de inoculação cultural e torne essas ferramentas revolucionárias. Os governos não entenderam ou não quiseram entender o papel da querida Rádio Rebelde.

Sem dúvida que há outras armas nos planos de Washington e as oligarquias apátridas além da comunicação. Ela não é a única arma, porém hoje a mais contundente. Passando pelo golpe contra Manuel Zelaya, sete anos apois o povo caraquenho resgatar o Comandante Chávez com sua inédita e imensa mobilização até o Palácio Miraflores, descendo dos morros de Caracas; pela grosseria do ‘golpe institucional’ (outra alcunha infeliz) contra Fernando Lugo no Paraguai, pelas tentativas das elites santacruzenhas na Bolívia a mando de um narcotraficante croata, e pela tentativa dos setores da polícia contra Rafael Correa, não houve descanso nas tentativas golpistas orquestradas pelos Estados Unidos. Houve também a tática da mentira deslavada, do clima tenso constante antes de uma eleição nacional e chegou o ‘golpe midiático’, mais uma definição simplória para uma forma de golpe, e a vitória ‘democrática’ de Macri se consumou na Argentina. Vão 90 dias violência e perseguição aos movimentos sociais, os povos originários, desvalorização da moeda, demissões em massa. América Latina passou por isso tudo, e agora o terremoto planejado se lança sobre o Brasil, sobre o quinto território do mundo, sobre a principal potência da América Latina. E continuamos errando, continuamos simplificando e olhando para o umbigo e desde o umbigo. Seguimos sem apreciar o que se acumulou em favor do imperialismo e da direita oligárquica desde o Golpe de Estado em Honduras.

Simplificar isto a um quadro quase eleitoralista, a uma peleja de dois contendores, petistas e tucanos, direita ou esquerda, é tão absurdo como não ter olhado para Nossa Pátria Grande. É ter os olhos tortos pelo interesse pontual, menor, é ter perdido a trilha da luta internacional da Classe Trabalhadora contra o inimigo comum, o Capital. Querer oportunizar-se disto com discursos de esquerda radical beira à traição ao povo trabalhador. Não é momento de vantagens, é momento de mobilização porque bem além de Lula, Dilma e o PT o que está caindo é Nossa América Latina e Caribenha. Cai essa Pátria Grande que sim olha para o Brasil, enquanto o Brasil olha para seu umbigo. Se Brasil cai através de um golpe do tipo que for (violento em definitivo, porque a história recente e antiga nos ensina que todo golpe é violência em si, e que mata, esfomeia, reduz, desaparece e condena os pobres da Terra), a sorte da América Latina para as próximas décadas será a destruição, o saqueio, tudo o que já acontece, apenas que de forma mais brutal e irrecuperável, com o é o corpo dos desaparecidos.

Lula com seus méritos e erros é um símbolo da classe operária, atingir Lula é atingir de rebote a classe operária, sim. Não interessa que para algum de nós seja um pelego, ou qualquer outra coisa, importa que para o trabalhador é um justo símbolo da nossa classe. Defender Lula é defender amplos setores da classe operária e trabalhadora brasileira. Porém, reduzir o que acontece no Brasil à perseguição a Lula, à tentativa de impeachment da presidente Dilma, é no mínimo dar um chute em toda a história de resistência da América Latina e seu sentido. É como queimar toda a obra de Marx, de Mariátegui, de Recabarren, como enterrar vivo o Comandante Fidel já que o império não pode. É pensar que pode haver uma Luta de Classes só para o Brasil e que o Brasil não forma parte da América Latina, sendo um país continente determinante para todos seus vizinhos e irmãos. A tentativa de desestabilizar o Brasil é a tentativa de derrotar definitivamente os processos progressistas que emergiram após o Comandante Hugo Chávez. A tentativa de desestabilizar o Brasil é parte da guerra de conquista dos países poderosos sobre os povos originários. A tentativa de estremecer o Brasil é parte do extermínio planejado aos pobres, os negros, as mulheres, os excluídos do mercado de consumo capitalista. É a guerra de destruição contra os pobres do Brasil, da América Latina, de tantos povos que olham o Brasil com a esperança de trabalho, energia, tecnologia, alimentação e tudo o que, definitivamente, este país estremecido pode entregar pela força nas mãos do capitalismo estrangeiro e local.

Não são Lula nem o PT o que está a risco, é a esperança de milhões de latino-americanos e de milhões de excluídos na Terra. Lula pode ser ainda, o estopim de uma retomada da conquista do que perdemos nas guerras midiáticas, nos golpes brutais que o império nos dá desde 2009. Lula tem a linguagem para isso, tem a narrativa, a história pessoal dos latino-americanos excluídos. Mas, não depende dele, depende das ruas e de dirigentes lúcidos que olhem para além das fronteiras nacionais e escolham, se sonham com serem heróis ou vilões continentais. Mais ainda, que tenham claro que não é por eles que temos que marchar.

Raúl Fitipaldi
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