Passarinho e Temer: tudo a ver

Gosto de uma sentença de Sêneca. “Quando penso em certas coisas que falei, sinto inveja dos mudos.”

Temer deveria sentir inveja dos analfabetos depois de escrever, no Twitter, que Jarbas Passarinho, morto neste final de semana aos 96 anos, foi um “grande brasileiro”.

Temer recebeu uma enxurrada — e merecidíssima — de vaias dos internautas.

Foi uma situação parecida com o elogio de Bolsonaro ao torturador Ustra na infame sessão da Câmara em que corruptos abraçados à bandeira deram seguimento ao golpe.

Passarinho foi um dos sustentáculos da ditadura. Foi posto no governo do Pará logo depois do golpe de 64 pelo general Castelo Branco.

Foi um dos participantes da reunião da qual resultaria, em 1968, o AI-5 — uma medida que tornou ainda mais sangrenta a ditadura militar. Ele era ministro do Trabalho de Costa e Silva, então. O Congresso foi fechado com o AI-5, e só reaberto quase um ano depois. Durante seus dez anos de vigência, o governo poderia cassar livremente parlamentares e suspender por dez anos os direitos políticos de qualquer cidadão.

“Às favas, senhor presidente, todos os escrúpulos de consciência”, disse Passarinho a Costa e Silva na reunião.

Como ministro do Trabalho, Passarinho afastou mais de 100 líderes sindicais.

Este é o “grande homem”.

Aos 75 anos, Temer sabe perfeitamente quem foi Passarinho. Fazer seu elogio público é mais um ato de insensatez e inépcia.

Involuntariamente, Temer conectou o golpe de 1964 ao de 2016, e ligou Passarinho a si próprio. O melhor comentário no Twitter foi exatamente este: “Às favas com os escrúpulos de consciência: é bem a cara deste governo interino.”

Clap, clap, clap. De pé.

DCM

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