Defesa da intervenção militar é, também, um sinal de que o golpe parlamentar esgotou-se. Resta saber quem dará resposta à frustração e raiva da maioria
Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite | Imagem: Rubem Grilo
O fantasma da intervenção militar esvoaçou sobre o Brasil esta semana. O general Martins Mourão, da ativa, prometeu na sexta-feira passada “derrubar este troço todo”, se o Congresso e o Judiciário não retirarem de cena “esses elementos envolvidos em todos os ilícitos”. Seus superiores – o comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas e o ministro da Defesa, Raul Jungmann – recusaram-se a puni-lo. Em São Paulo, a Rota, tropa mais brutal da PM, fez exercícios de repressão política, simulando uso de munição real, em plena Avenida Paulista. Uma nova sondagem pré-eleições presidenciais mostrou Jair Bolsonaro consolidado em segundo lugar, abaixo apenas de Lula e à frente de todos os conservadores tradicionais. Como tem sido comum há meses, muitos, entre a esquerda, reforçaram sua convicção fatalista de que “o pior está por vir” e de que “não haverá 2018”.
Os motivos para alarme são reais: os grupos de direita estão claramente testando limites, para ver até onde podem chegar. Mas o derrotismo, como de costume, expressa não apenas um estado melancólico. Revela também uma incapacidade de ver a conjuntura – ou seja, o conjunto dos elementos que compõem o cenário político.
O fator mais óbvio, que muitos preferem não enxergar, é: se a direita militarista se alvoroça, é principalmente porque o golpe parlamentar de 2016 fracassou. Milhões de pessoas que encheram as ruas, há um ano e meio, estão perplexas e frustradas. Um sonho pueril, segundo o qual bastaria sanear o país dos “petralhas” para convocar de novo a felicidade, despedaçou-se. Há desemprego e gente morando e pedindo em cada esquina. Os negócios da classe média naufragam, as dívidas bancárias espreitam. A Rede Globo, que almeja ser o eleitor maior nas eleições do ano que vem, afastou-se há meses de Temer – que agora terá de lidar com um novo processo. A casta política entende-se apenas quando se trata de aprovar as missões encomendadas pelo grande poder econômico. O fracasso da contra-reforma política revela: não há nenhum projeto comum de futuro. A quadrilha já não se entende. São todos contra todos, na disputa pelo butim do golpe.
Provavelmente porque a população desiludida não encontra, à esquerda, nada que dialogue com seu desamparo. Tente encontrar, no discurso de pré-candidatos como Lula e Ciro Gomes, alguma resposta à agenda de horrores que assombra a Brasil. Os serviços públicos estão sendo devastados. O Pré-Sal pode ser entregue às petroleiras internacionais. O governo ameaça devastar até os santuários da Amazônia. Lula caravaneia pelo Nordeste, seu reduto eleitoral, onde encontra-se com o povo pobre mas evita posicionar-se sobre tudo o que aflige a maioria. Ciro tenta construir um discurso ambíguo de “competência”– no qual caberiam, ele mesmo assegura, personagens como Kassab. Ambos evitam o essencial: como lidarão, se eleitos, com a herança maldita do golpe? Terão coragem de convocar a sociedade para revogar, via referendos, medidas como o congelamento dos gastos sociais por vinte anos, a doação da riqueza petrolífera e o ataque aos direitos indígenas e quilombolas?
Em certas condições, dizem a política e a psicanálise, destruir pode ser uma força positiva. A cólera contra o opressor foi o impulso que construiu as revoluções dos três séculos passados e que moldou, em oposição a um mundo limitado por Deus eu pelos senhores, a ideia de que somos responsáveis por nosso futuro social.
Mas o que a esquerda institucional oferece hoje a quem nutre, com razão, ódio à desigualdade, aos falsos “representantes”, vendidos ao poder econômico, ou aos privilégios? Um discurso surdo e insensível, em defesa de uma democracia que já não existe? O ataque cego à Operação Lava Jato? O delírio de que um dia todas as ondas moralistas cessarão, graças a um acordo por cima? A aposta em que, por uma espécie de milagre laico, Lula ou Ciro poderão ser candidatos, vencerão e nos reconduzirão a um passado virtuoso?
Este estranho sebastianismo, pós-moderno e bizarro, só conduz à paralisia. É graças a ele, a seu saudosismo melancólico e impotente, que se despreza a cólera das maiorias; que se defende a volta de um lulismo conciliatório com as elites – portanto fora de tempo e de lugar; que se abre espaço ao general Mourão e a seu parceiro Bolsonaro.
Claro que há alternativa. Significa impedir que a ultradireita aproprie-se do discurso anti-establishment. Implica uma autocrítica não retórica nem passadista – mas prática e voltada para frente.
Dificimente os partidos sustentarão este projeto. Eles estão capturados demais por uma lógica que os convida a mergulhar nas instituições e no poder sobre. A questão é: aqueles que enxergamos esta debilidade nos atreveremos a ir adiante? Seremos capazes, por exemplo, de propor os referendos revogatórios e de criar um movimento que leve os candidatos à esquerda a defendê-los?
Ou nos limitaremos, em meio à crise, a criticar aqueles que, como sabemos, não darão um passo adiante?
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