Presidente da Câmara estaria sendo incentivado por atores políticos importantes, de dentro e de fora do governo, a comandar a transição do país. "Já há um clima de conspiração dentro do próprio governo", diz o cientista político Ricardo Caldas
por Eduardo Maretti, da RBA![]() |
| WILSON DIAS/AGÊNCIA BRASIL Presidente da Câmara, Rodrigo Maia “é a chave do processo” político e não tem escondido seu desagrado com Michel Temer |
Há hoje em Brasília duas correntes sobre o destino da segunda denúncia de Janot na Câmara. Segundo o cientista político Ricardo Caldas, professor da Universidade de Brasília (UnB), a corrente majoritária acredita que a votação será mais fácil para Temer do que a anterior. Em 2 de agosto, os deputados rejeitaram a denúncia por 263 votos a 227. Para essa corrente, os questionamentos sobre a credibilidade das deleções envolvendo a JBS tornaram a denúncia mais frágil.
“Pessoalmente, estou na corrente minoritária. Não aposto em questão de provas. A questão é política. A base de Temer está encolhendo e ele está em rota de colisão com Rodrigo Maia”, avalia Caldas. Para ele, o presidente da Câmara é “a pessoa mais importante nesse momento a acompanhar e é a chave do processo”.
Nos bastidores, Rodrigo Maia (DEM-RJ) estaria sendo incentivado por atores políticos importantes e influentes, de dentro e de fora do governo, no sentido de que ele mesmo deveria ser o presidente e, portanto, estar no comando da atual transição do país. “Nessa segunda visão, à qual eu me filio, a gente já tem um clima de conspiração dentro do próprio governo. Se essa visão minoritária prevalecer, Maia vai começar a minar o presidente Temer. A primeira percepção disso se daria na votação em que se decide a questão”, avalia Caldas.
De acordo com o professor, dependendo de como a relatoria e a votação se organizarem, e como o DEM vai se posicionar, a ameaça a Temer é muito maior do que ele mesmo supõe.
Esta semana, houve um notório recrudescimento na agressividade de Rodrigo Maia em direção ao Palácio do Planalto. O motivo, mais uma vez, foi a disputa por parlamentares que devem desembarcar do PSB e que Temer tem se esforçado para levar ao PSDB sem nenhuma discrição.
Como resposta, o presidente da Câmara não mediu palavras. “Se é assim que eles querem tratar um aliado, eu não sei o que é adversário. Quero que isso fique registrado, para que depois, quando a bancada do Democratas, em alguma votação, tenha uma posição divergente da que o governo espera, que ele entenda que há uma revolta grande na nossa bancada”, disparou Maia. Ele avisou: “Não virou rebelião ainda, mas é uma revolta muito grande”.
“A gente tem que ver se a briga dele com Temer é verdadeira ou é teatro. Mas essa é a única briga que importa nesse momento em Brasília”, diz o professor da UnB. “Cabe a Maia não só liderar o partido, porque ele virou de fato o líder do DEM, mas também aceitar ou não um possível pedido de impeachment contra Temer. Os pedidos estão todos na mão dele, e ele aceita quando quiser. É um xadrez, e qualquer pessoa que disser que a votação está garantida para um lado ou outro está mentindo.”
PSDB
Mas, fora Maia, principal peça no tabuleiro hoje, há ainda outros fatores que podem ser decisivos. Um deles é o PSDB, totalmente dividido: os caciques a favor de manter o apoio a Temer e a base “em plena rebelião na Câmara”, segundo Caldas. Entre os deputados tucanos, a tendência é contra Temer. “Se juntar essa ala do PSDB, mais o DEM, vai ficar difícil o PMDB sozinho sustentar o presidente”, diz o analista.
Para ele, a divisão do PSDB não é um teatro em que as duas posições se sustentam estrategicamente. “Os grupos no PSDB estão muito divididos e os interesses muito à flor da pele.” Os grupos mais antigos, como do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que quer ser presidente, estão pensando em 2018 e não têm interesse em brigar com o PMDB, do qual vão precisar como aliado.
Mas líderes mais jovens, como o prefeito de São Paulo, João Doria, e deputados que o acompanham, pensam que é momento de “uma faxina”. “Para esses, o apoio a Temer está prejudicando inclusive o Alckmin, porque já surgiram denúncias contra o governador e vão surgir outras.” Mas Alckmin está tentando segurar essa ala por sua candidatura à presidência, enquanto o senador José Serra (SP) se mantém pela manutenção da aliança e o senador Tasso Jereissati (CE) é independente e contra, mas é questionado por suas posições baseadas na opinião pessoal. “Isso provoca ressentimentos tanto no pessoal do Aécio, que perdeu espaço, quanto do Alckmin, que não se sente representado”, observa Caldas.
A oposição precisa de 342 votos, número que sabe não possuir. “Ela só teria esses votos se se aliasse com o racha da base governista. Leia-se: PSDB, DEM e até mesmo PMDB, no caso, alguns grupinhos insatisfeitos com a condução do partido, como o deputado Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), e outros menos influentes, minoritários no partido”, aponta o cientista político.
De olho em 2018
Para terminar as variáveis, há ainda os interesses eleitorais dos deputados, que estão de olho em 2018 e podem se arriscar a um suicídio político com o apoio a Temer, cuja popularidade é literalmente próxima de zero. “Uma coisa é votar uma vez a favor de Temer, outra é votar o tempo todo. A segunda denúncia não vai ser um passeio como Temer está pensando. Talvez ele não caia, mas o número de votos dele certamente vai cair”, diz Caldas.
Os problemas de Temer não terminariam mesmo se vencer a votação da segunda denúncia. Depois, Rodrigo Maia pode resolver aceitar um pedido de impeachment.
A seu favor, Temer conta com a proximidade do final do ano e da falta de grandes mobilizações populares que seriam decisivas para derrubá-lo. “É difícil começar um movimento social no Brasil de novembro para dezembro, época do Natal”, lembra o professor da UnB.
Rede Brasil Atual

Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;