por Ana Paula Lima*

Os ataques a Lula e sua comitiva durante a viagem pelo Sul do Brasil mostram a urgência de se combater o ódio e o rancor



Ricardo Stuckert/Fotos Públicas Lula em São Leopoldo (RS)


A filósofa Hannah Arendt dizia que o mal se manifesta onde encontra espaço institucional e se banaliza com o vazio do pensamento.

A história comprova que o espaço institucional propício para as manifestações maléficas tem origem nos períodos de exceção, geralmente a partir de golpes institucionais praticados à revelia do respaldo do povo.

Quanto ao vazio do pensamento, este tende a ser preenchido por aqueles que creem na superfluidade e manipulam narrativas valendo-se de falácias, aleivosias e imagens distorcidas da realidade ou até mesmo de ações para constranger o pensamento divergente e se, possível eliminá-lo.

Trata-se de conjuntura perigosa porque, como disse o Ladislau Dowbor, “o próximo fanatismo político não usará bigode nem bota, nem gritará heil, usará terno, gravata e multimídia”.

Contudo, por outro lado, o que tem prevalecido é a tendência de se buscar a harmonia, a paz, o entendimento de que é positivo admitir o pensamento diferente e a divergência, sem perder a dignidade, valorizando o que temos em comum, a condição humana.

Foi esse o espírito da nossa Constituição Cidadã. Erigida como autêntico monumento à democracia, ferida de morte que fora com a ditadura de 1964, pretendia gravar na história da Pátria e nas mentes do povo uma clara mensagem: golpe e ditadura nunca mais.

De fato, destinada a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, a Constituição de 1988 afirmou ser livre a manifestação do pensamento e o direito de ir e vir, entre tantos outros testemunhos de fé na paz e na harmonia.

Nessa mesma dimensão estão a gratidão e o reconhecimento, características naturais, normais dos seres humanos, atributos que, como um bálsamo, tranquilizam a alma e trazem a serenidade e estimulam o engajamento na construção de um mundo melhor.

Com essa visão evoluída, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou há dez anos, por unanimidade, a partir de proposição do então deputado estadual Jailson Lima da Silva, a concessão de título de cidadão honorário ao ex-presidente Lula, em reconhecimento à sua expressiva contribuição para o desenvolvimento da nossa terra e da nossa gente.

Contemplada pela presidência dessa Casa Legislativa com a missão de entregar essa honraria a Lula, o fiz com grande satisfação no último dia 24 em Florianópolis, na passagem da Caravana da Paz. Evidentemente, em função dos tempos estranhos que vivemos, ocorreram manifestações pontuais e mesquinhas, contrárias não somente à mencionada honraria, mas à passagem da caravana, comandada pelo espírito indomável do ex-presidente.

Nada conseguiu deslustrar a entrega da justa homenagem. Tudo o que ocorreu pode ser debitado à incompreensão e ao vazio do pensamento de algumas mentes, conforme mencionei no início deste artigo. Nada deixou de merecer a resposta maravilhosa e promotora da harmonia do nosso ex-presidente, que mesmo quando tentaram tolher-lhe os movimentos, cassar o seu direito de ir e vir, mesmo quando tentaram impedi-lo de falar com o povo, de forma destemida, protegido pelo amor da nossa gente, foi e voltou, falou e foi ouvido e de novo consagrou-se como a maior liderança popular dos nossos tempos.

Sabiamente a multidão que prestigiou e aplaudiu a passagem da Caravana por Santa Catarina demonstrou que somos amigos da paz, mas que impediria qualquer possibilidade de um retorno aos porões da violência, ao recôndito do mal.

Não houve revide, a serenidade dos justos prevaleceu e Santa Catarina demonstrou estar ciente de que os conflitos e diferenças podem ser resolvidos de maneira pacífica. Demonstrou estar preparada para o momento culminante da democracia, a eleição de 2018.

Entretanto, foi muito grave o que aconteceu com a Caravana da Paz, uma jornada fundamentada no discurso político, pacífica e ordeira. Não podemos desconhecer que aconteceram vários atentados: pedras, chicotes e até tiros foram disparados por milícias armadas. Não podemos assistir à violência inertes. Atores políticos, do Judiciário, da educação, a cidadania consciente, enfim todos e todas temos de fazer cessar a agressividade, o rancor e o ódio, sob pena de vermos a campanha eleitoral de 2018 se transformar em episódio sangrento a macular a história.

Os atentados não foram somente contra o Lula ou integrantes da comitiva. Gente que estava lá a trabalho, como os motoristas dos ônibus, sem qualquer vínculo com o movimento, outros que estavam ali cumprindo tarefa, foram atingidos, amedrontados, ofendidos. Os atentados não foram contra a Caravana da Paz, contra a mensagem política que a jornada levou, foram contra a democracia, contra direitos fundamentais da vida e da liberdade.

Contra o Estado Democrático de Direito. E porque a democracia é um coral de muitas vozes, temos de fazer nossas vozes se juntarem às manifestações de repúdio aos atentados como a dos “Juristas pela Democracia”, integrantes da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD.

A ABJD veio a público para externar grave preocupação com a escalada da violência ligada ao cometimento de “crimes de ódio” durante a passagem da chamada Caravana da Paz pelos estados do Sul do País.

É urgente que cobremos o cumprimento da Constituição Federal, no artigo 5º, que afirma: “a lei punirá quaisquer discriminações atentatórias a direitos e liberdades fundamentais”. Cabe ainda acrescentar o ensinamento deixado pelo ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, quando da passagem de Lula pelo Rio Grande do Sul. Disse ele: "Eu não sou viciado em viver olhando para trás, porque a vida é sempre o futuro e todos os dias amanhece".

De fato, como um novo amanhecer com augúrios positivos se avizinha, vale lembrar Hamletde Shakespeare: “De modo algum desdenhemos o augúrio... Se for este o momento, não está para vir. Se não está para vir, é este o momento, há de vir todavia – estar pronto é tudo.” E nós estamos prontos, ansiosos pelo renascer da democracia, aptos para restabelecer o Estado Democrático de Direito. Se a vida é uma dádiva, a liberdade é uma conquista.

* “Sócia” desde 2017

CartaCapital

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