A elegância de quem desanca a estupidez torna mais cortante o fio da verdade.

Fernando Barros e Silva, (ex-Folha e hoje na Piauí) disseca hoje em artigo para a edição eletrônica da revista, a fúria de Merval Pereira contra Fernando Haddad, Lula e o PT.

Não fica pedra sobre pedra.

Transcrevo a parte final do texto, na íntegra aqui:

“As pesquisas eleitorais deixaram o colunista de O Globo de bigodes eriçados. Ontem, dia 20, ele publicou no jornal um artigo chamado “Um país congelado”. A imagem servia para introduzir a ideia de que estamos revivendo, quase trinta anos depois, a disputa entre Collor e Lula. Não é uma analogia propriamente ruim, mas também não nos leva muito longe. “Essa história já conhecemos, e termina mal”, escreve o imortal (sim, ele é membro da Academia Brasileira de Letras). A história, na verdade, terminou bem, porque o impeachment de Collor, em 1992, foi um marco do fortalecimento da democracia então incipiente no país. Justamente o contrário do que representou a destituição de Dilma Rousseff em 2016. Há mais uma diferença. Em 1989, o Grupo Globo apoiou Fernando Collor, sem muita preocupação de disfarçar isso. A Globo hoje não irá apoiar Bolsonaro (nem Haddad, obviamente). Algo, então, melhorou no país, não é mesmo?

Sigamos. “O Lula de 2018 está mais próximo do de 1989 do que daquele de 2002”, diz Merval. O leitor fica curioso diante de afirmação tão peremptória. O PT estaria tramando na surdina uma reforma agrária de feições bolivarianas? Estaria tentado a dar calotes nos credores do governo? A romper com os contratos? A transformar o Brasil num imenso Museu Nacional? A explicação mervalina vem algumas linhas adiante. Transcrevo o parágrafo na íntegra:

“O PT de Lula só quer saber de pacificação circunstancialmente, por pragmatismo eleitoral. Eleito, Haddad fará um governo na linha petista ditada por Lula, radical e antidemocrática. O PT de 2002 na verdade nunca existiu, era só uma fachada para o grupo político chegar ao poder e atravessar os primeiros anos sem turbulência.”

O que pensar dessas linhas tão criativas? Teria sido a coluna hackeada pelo general Hamilton Mourão? O autor desses disparates – chamemos as coisas pelo nome – é frequentemente apontado por colegas da imprensa como uma espécie de porta-voz dos patrões. Não acredito nisso. João Roberto Marinho transmite a sensação de ser uma pessoa sensata. Duvido que ele pense que o PT de 2002 na verdade nunca existiu.

Mais adiante, Merval volta a desabafar:

“Eleição estranha, com dois candidatos de campos antidemocráticos, e liderando com os índices de rejeição maiores do que as intenções de voto. Depois do mensalão e do petrolão, e da tentativa permanente de desacreditar, aqui e no exterior, nosso sistema judicial, fica muito difícil imaginar que o PT possa ser considerado um participante do campo democrático legítimo, da mesma forma como é difícil avaliar assim Bolsonaro, por seus atos e pelo que sugerem seus principais assessores.”

Recapitulando: na cabeça do imortal, o PT de 2002 não existiu, era só fachada, e o partido não pertence ao campo democrático legítimo. Lula e Bolsonaro se equivalem.

Não consigo evitar certo constrangimento diante da sensação de estar tomando o meu tempo e o tempo do leitor com um texto de opinião bastante medíocre, cujo autor oscila entre acessos apopléticos de indignação e reiterados engasgos de raciocínio. Por outro lado, não há como deixar de reconhecer que Merval Pereira é um bom termômetro da febre que acomete o país. Ele é o sintoma de algo que o ultrapassa. Ele é a prova viva e involuntária de que a democracia brasileira corre, sim, riscos de ir pelo ralo.”

TIJOLAÇO

Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads