“Haddad não representa mais apenas o PT e sua coligação”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)


Há momentos decisivos na vida das pessoas e dos países, momentos que dividem marcadamente a história em antes e depois, sem direito a voltar atrás. Nestas situações não se pode errar, as consequências da escolha que se fizer são para sempre. A eleição presidencial que abriu seu segundo turno neste domingo entre Haddad e Bolsonaro evidencia que a sociedade brasileira está diante de um momento como este.

Bolsonaro faz questão de se apresentar como representante de uma proposta conservadora e de direita, nos costumes, nas relações sociais e na economia, mas na verdade se coloca assim para não ter que assumir sua verdadeira face de extrema direita, impopular, cuja marca maior é a intolerância com as diferenças e as minorias. Do outro lado tínhamos até o primeiro turno Haddad e Ciro como os candidatos com maior chance de avançar para o segundo turno. Agora temos Haddad, que não representa mais apenas o PT e sua coligação, mas todas as forças que se disponham a combater a guinada definitiva do Brasil à intolerância. Muito antes de discutir as propostas nas diversas áreas, economia, políticas sociais, etc., a sociedade brasileira está diante do momento mais decisivo de sua vida, a escolha entre os valores da civilização e da convivência pacífica, por um lado, e a pregação da violência e da exclusão por outro.

Se isto é verdade e o momento é realmente muito grave, não é hora de discutir detalhes. É hora de unir esforços através da mais ampla negociação possível, dialogando com todas as forças democráticas do País, sem nenhum preconceito, sejam elas de esquerda, de centro ou de direita. O recorte não é mais dentro do espectro político, é entre civilização e seu oposto. Há que se conversar com todos, escancarando esta diferença e exigindo que cada cidadão e cada instituição assuma sua responsabilidade histórica. Isto inclui dialogar e construir acordos com os poderes Legislativo e Judiciário, com as organizações de classe e até com a grande imprensa, que tantas vezes não cumpriu seu papel com a requerida responsabilidade e equidistância. Todos sabem o quanto têm a perder.

É claro que a construção de acordos entre forças tão diferentes exige ceder em vários pontos. E é aí que se exige a grandeza e a responsabilidade do PT e da sua coligação. Se neste momento delicado Haddad não é mais apenas o seu representante, mas o representante dos valores maiores da nossa civilização, há que se abrir mão de vários pontos programáticos para efetivamente construir consensos mínimos capazes de reorganizar a sociedade brasileira de acordo com princípios democráticos, solidários e inclusivos. A discussão sobre pontos específicos de uma pauta econômica para o novo governo passa a ser apenas um detalhe diante do que está em jogo; isto pode ser feito num próximo momento.

(*) Professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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Sul 21

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