O presidente Jair Bolsonaro — Foto: Evaristo Sá/AFP

Publicado na RBA

Uma rápida busca na internet dá a dimensão de uma das principais ações agora do governo de Jair Bolsonaro (PSL): recuar. Na manhã desta terça-feira (8) foram 110 mil resultados no Google, utilizando-se a expressão “Bolsonaro recua“. Termos correlatos, como “desiste” ou “volta atrás” trazem resultados ainda maiores.

Para ficar somente nos anúncios após a posse, há uma semana, o presidente eleito, com base em informações muitas delas inverídicas, já voltou atrás e alternou opiniões em ideias como manter uma base militar dos EUA em terras brasileiras; em relação à cobrança de impostos; sobre a responsabilidade de demarcação das terras indígenas; a respeito da revisão da demarcação da Terra Indígena Serra Raposa do Sol.

“Antes de defender uma bozoideia, espere 24h. Poupa o esforço de defender o recuo”, ironizou o ex-candidato a presidente Fernando Haddad, que disputou o segundo turno com Bolsonaro sem poder ter debatido com ele. Durante a campanha eleitoral de 2018, o candidato petista à presidência da República teve de lidar com um adversário que se recusou a participar dos debates na TV, onde suas falas pudessem ser questionadas ou projetos do que pretenderia fazer com o país tivesse de ser apresentados.

Temas fundamentais como o fechamento de ministérios, as fake news, a retirada de direitos jamais puderam ser confrontadas entre os candidatos.

Para Haddad, afirmações e recuos de Bolsonaro não são “cortina de fumaça” para desviar a atenção de outras medidas impopulares, como a possibilidade de extinção da Justiça do Trabalho. “É puro despreparo, vasto desconhecimento”, afirma.

O cientista político Rudá Ricci concorda com Haddad e afirma que o governo tem divisões e desorientações em sua própria base. “O Bolsonaro tem diferentes forças estruturadas dentro do governo. Uma é o nacionalismo dos militares. Eles estão tendo cuidado, mas toda hora soltam uma ou outra crítica, como por exemplo contra a venda da Petrobras”, afirma.

“O outro centro é o Paulo Guedes (ministro da Economia) e o empresariado que tem uma visão ultraliberal e continuam batendo na tecla dos anos 1990. A terceira força são os evangélicos que casam um pouco, em alguns itens, com a questão neoliberal (pela teologia da prosperidade), mas outras vezes casam com os militares”, completa.

Até mesmo a ex-ministra do Meio Ambiente que concorreu à presidência pela Rede, Marina Silva, ironizou os recuos de Bolsonaro ao apelar por mais respeito à pauta ambiental. “O governo Bolsonaro, reconhecido por sucessivos recuos, poderia rever sua visão atrasada na agenda socioambiental e que prejudica os interesses do país. Recuou em manter o Ministério do Meio Ambiente, mas na prática o desmonta para matá-lo por inanição”, disse.

O ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão afirma, entretanto, em texto divulgado ontem na redes sociais, que “o buraco é mais embaixo” e vê o fato de o governo estar ocupado por gente “incapaz, vaidosa e despreparada” como parte de uma estratégia de dominação.

“Tacham-se os melhores quadros de ‘marxistas’ e sobram os ingênuos, “useful idiots”, para levar a máquina pública a seu descalabro. Depois, vêm os salvadores do FMI, do Banco Mundial e do Federal Reserve, para cuidar da massa falida”, afirma Aragão. “De bobo não tem nada quem está por detrás desse plano. Bobos somos nós que só olhamos para as aparências, achando que o capitão da reserva manda alguma coisa. Bobos são os que acham que foi a ‘corrupissaum dos petralhas’ a causa dessa indignidade porque nossa nação vai fatalmente passar.”


DCM

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