No ano passado, a Paraíso do Tuiuti causou um forte e profundo impacto, com um desfile altamente politizado e com grande fidelidade histórica, abordando a escravidão moderna, sua relação com o golpe de estado e a manipulação da classe média, em favor de objetivos de domínio social. O desfile acabou por influenciar fortemente as escolas do acesso, o chamado Grupo A, do Rio de Janeiro que, em maioria, abordaram temas de resistência cultural, racial e social. O próprio desfile da Mangueira é resultado do forte impacto do desfile da Tuiuti do ano passado, 2018.

A vitória da estação primeira, em si, começou com uma luta interna muito forte, entre patrocinadores, dívidas da escola e o desejo da comunidade que contrariou a política da administração da escola. No cabo de guerra, a comunidade abraçou o samba progressista e, de quebra, o desfile e a produção completa. A união em torno de um tema tão caro à identidade da comunidade, não poderia deixar de ser politizado. Índios, negros e pobres, são a síntese do morro, a síntese de um país massacrado que celebrou a vitória de sua identidade.

Essa identificação primeira, fruto de uma jornada temática iniciada pela Tuiuti em 2018, também influenciou o Salgueiro que, ao cantar Xangô, mostrou a resistência cultural e religiosa, contra o que se estabeleceu no país. Trata-se de gritar contra um governo que se faz com armas na mão e uma bíblia repressora em baixo do braço.

A Mangueira, como todos sabem, é a escola madrinha da Paraíso do Tuiuti. Um morro é a contra-face do outro, o Tuiuti virado para São Cristóvão e a Mangueira virada para Vila Isabel. Dessa vez, a escola afilhada influenciou a madrinha e abriu caminho para a sua vitória no ano seguinte. Tudo, portanto, parece indicar uma tendência de temas mais profundos, politizados e bem pesquisados pelas escolas de samba, nos enredos dos próximos anos. Oxalá, seja verdade.

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