Economista André Lara Resende
Caro leitor, como temos escrito sobre a eficácia dos instrumentos monetários utilizados pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, a abordagem feita por Lara Resende, a partir de conceitos teóricos, é de grande relevância para entender as dificuldades de retomada do crescimento do Brasil.
“A possibilidade de que a taxa de juros excessivamente alta possa estar por trás tanto do estrangulamento fiscal como da estagnação da produtividade e da queda do investimento nunca foi levada a sério pela condução da política monetária”, afirma. Para ele “ a opinião dominante é que, como não há alternativa, pouco importa se os juros altos devem ou não ser responsabilizados pelo estrangulamento fiscal e pelo baixo crescimento. Os juros estão altos porque os investidores exigem taxas altas para financiar uma dívida alta de um governo altamente deficitário.”
A prática de apertos monetários feitos no Brasil nos últimos anos na tentativa de controlar a inflação contribui para elevar o estoque da dívida e com isso reduzir a capacidade de investimento público que poderiam estimular a economia, coisa que estamos vivendo hoje.
Fachada do Banco Central. Foto Orlando Brito
Hoje cerca de 25% da dívida do Tesouro e financiada através de operações compromissadas que são reservas bancárias tomadas do mercado no curtíssimo prazo pelo Banco Central, com lastros do Tesouro Nacional.
“Se o Banco Central tivesse permissão para pagar juros sobre as reservas bancárias, as operações compromissadas seriam substituídas por reservas voluntarias do sistema bancário. Como o BC não precisa mais ter títulos do Tesouro para lastrear as operações compromissadas, a dívida do tesouro seria reduzida na mesma proporção”, diz.
A dívida atual do Tesouro, que equivalente a 75% do Produto Interno Bruto (PIB), cairiam para cerca de 50% com a substituições das Letras Financeiras do Tesouro (FLTs), indexadas à taxa Selic. É verdade quer nada de substantivo mudaria uma vez que a dívida pública consolidada do Tesouro e do Banco Central continuaria a mesma. “O exercício serve para demonstrar quão arbitrário são as definições da dívida pública. Por isso mesmo, podem ser manipuladas, para assustar ou tranquilizar, de acordo com o interesse do freguês”, afirma Resende.
E acrescenta:
(*) “A teoria econômica nada tem a dizer sobre a existência de um limite para a dívida pública, seja emitida em forma de moeda do Banco Central , seja em forma de títulos do Tesouro Nacional, mas a evidência empírica, sobretudo depois de 2008, não deixa dúvida de que, sem este limite existir, é altamente dependente das condições objetivas da economia e das expectativas. O que a experiência histórica demonstra e mais uma vez confirmada na crise de 2008, é que iliquidez, sobretudo quando provocada pela súbita contração de crédito diante de uma reversão de expectativas, é profundamente desorganizadora para a economia.
(*) O excesso de liquidez pode levar a bolhas de preços de ativos e a crise quando a confiança se reverte. Tanto a insuficiência quando a o excesso de liquidez são resultantes de fatores institucionais e psicológicos do mercado financeiro, não do preço da liquidação primária, das reservas bancárias, determinado pela taxa básica de juros. Essa constatação, algo que só se tornou evidente após a crise financeira de 2008, é o que levou ao desenvolvimento de novas formas de regulamentação e de atuação dos Bancos centrais.
(*) A taxa básica de juros é instrumento incapaz de controlar a liquidez da economia, mas determina toda a estrutura de custo da dívida pública. A taxa de juros deve ser fixada com o objetivo de reduzir o custo da dívida pública. Outras medidas institucionais e regulatórias devem ser tomadas para balizar as expectativas e evitar que a liquidez criada pelo sistema financeiro provoque bolhas especulativas.
Os Divergentes


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