Ao participar de ato pela paz promovido por coletivo judaico, ex-presidente citou esforços de seu governo por acordos no Oriente Médio. Ele disse estar "solto", mas não livre
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
PAULO PINTO/FOTOS PÚBLICAS Em encontro com comunidade judaica, Lula reafirmou que não trocaria a liberdade pela dignidade. Ele também relativizou sua liberdade: "Eu não estou livre, estou solto".
Ao mesmo tempo em que lamentou o posicionamento do governo norte-americano após um acordo intermediado pelo Brasil com o Irã na questão do enriquecimento de urânio, Lula criticou a cobertura dada pela imprensa brasileira às negociações naquele momento. “Eles nunca tiveram interesse de contar 5% do que aconteceu”, afirmou. Dois anos depois, um novo acordo foi anunciado, “bem pior do que nós fizemos”. Para ele, isso se deve a uma preocupação de evitar o protagonismo internacional do Brasil.
O ex-chanceler Celso Amorim afirmou, pouco antes, que um verdadeiro diplomata é o que mostra capacidade “de se colocar no lugar do outro”. “E a paz só é obtida dessa maneira. A paz nunca é imposta. É conquistada, por concessões recíprocas”, acrescentou. Outros ex-ministros estavam presentes, como o também ex-candidato Fernando Haddad e Paulo Vannuchi, além da presidenta do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), além de Clara Ant e Paulo Okamotto, do Instituto Lula.
No início do ato, realizado na sede do Sindicato dos Químicos de São Paulo, na região central da capital, o músico e professor Jean Goldenbaum falou sobre a formação do coletivo Judias e Judeus com Lula e leu carta dirigida ao ex-presidente, “porque o vemos antes de tudo como um democrata”. O texto faz referência à “luta contra o extremismo e a intolerância que hoje ameaçam todas as minorias do país”.
“Eu não estou livre, estou solto”
Goldenbaum destacou ainda a “batalha contra a destrutiva extrema-direita brasileira”. Ele observou que a iniciativa de ontem não tinha a pretensão de falar em nome de toda a comunidade judaica, até porque muitos apoiam o atual governo, mas acrescentou que “o número de judeus e judias que estão na resistência também é grande”. A carta termina desejando shalom (paz, em hebraico) ao ex-presidente. Lucas, neto do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura em 1975, participou da homenagem a Lula.O número de participantes superou com folga a capacidade do auditório, que é de 290 pessoas. Foram lidos poemas e textos de autores como o português José Saramago, o italiano Primo Levi, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, e do escritor israelense Amós Oz, um militante da paz, de quem Celso Amorim se tornou amigo. O chanceler citou observação do escritor, que definiu o conflito entre Israel e Palestina como “uma trágica luta entre duas vítimas da Europa”. Também houve cantoria – Goldenbaum, por exemplo, interpretou Lamento Sertanejo, de Gilberto Gil e Dominguinhos.
Em discurso de 41 minutos, encerrado às 22h05, Lula não fez referências ao governo, com exceção do ministro da Justiça (“Tenho certeza de que o Moro não dorme de consciência tranquila, que eles tomam tarja preta para dormir”), nem a conversas sobre possíveis alianças eleitorais. Reforçou que sua afirmação de que não trocaria a liberdade pela dignidade não era uma “bravata” e relativizou sua liberdade: “Eu não estou livre, estou solto”. Ele voltou a agradecer aos militantes que permaneceram na vigília em Curitiba, durante sua prisão, e disse que leu muito e se esforçou “para não me deixar consumir pelo ódio”.
O ex-presidente disse que Moro “dá sinais” de que pretende ser indicado ao Supremo Tribunal Federal, depois de “mentir” ao Congresso, à imprensa e à sociedade. Lamentou que Haddad não tenha sido eleito em 2018, mas emendou: “Tamos de boa. Porque nós amamos a liberdade, nós amamos a cultura, nós amamos a paz, e é por isso que vamos continuar lutando. A história vai nos fazer justiça neste país”.
Rede Brasil atual

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