"Por falar nisso, que fim levou Queiroz? Evaporou?"
Por Ricardo Kotscho, em seu Balaio do Kotscho - Quarenta e oito horas depois, tudo Ă© mistĂ©rio e silĂȘncio sobre a morte do miliciano Adriano NĂłbrega, domingo, no interior da Bahia.
Foi queima de arquivo? Houve confronto? HĂĄ fotos do corpo? Quem o protegeu na sua fuga? Que segredos guardavam seus 13 celulares? Onde serĂĄ o enterro?
A famĂlia presidencial limitou-se a soltar uma nota do seu advogado, negando qualquer relação com o falecido, que o entĂŁo deputado Jair Bolsonaro jĂĄ defendeu da tribuna da CĂąmara.
Pelo segundo dia seguido, Jair Bolsonaro simplesmente negou-se a falar com os jornalistas sobre o acontecido.
Preferiu exaltar Donald Trump aos seus seguidores na porta do Alvorada. O que Trump teria a ver com isso?
VĂĄrias vezes homenageado pelos Bolsonaros, o ex-capitĂŁo do Bope da PM era o chefe do EscritĂłrio do Crime de Rio das Ostras, acusado de vĂĄrios crimes e investigado por sua participação no esquema de “rachadinhas” no gabinete do entĂŁo deputado estadual FlĂĄvio Bolsonaro, na AssemblĂ©ia Legislativa do Rio, onde trabalhavam a mĂŁe e a ex-mulher de Nobrega, sob o comando do ex-PM FabrĂcio Queiroz.
Foragido hĂĄ mais de um ano, o miliciano tambĂ©m era prĂłximo dos dois ex-PMs acusados do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, que saĂram do condomĂnio Vivendas da Barra para cometer o bĂĄrbaro crime.
Impressionante como a Policia Militar do Rio fornece mĂŁo de obra para as milĂcias, que hoje dominam boa parte do Rio de Janeiro e estĂŁo infiltradas nos trĂȘs poderes.
A Ășnica manifestação do governo atĂ© agora veio do sempre prestativo procurador geral Augusto Aras, que voltou a pedir a federalização das investigaçÔes, como o ministro da Justiça Sergio Moro jĂĄ havia feito no ano passado.
Sem mais delongas, querem colocar o caso nas mĂŁos da PolĂcia Federal subordinada a Moro, que acaba de livrar a cara de FlĂĄvio Bolsonaro em vĂĄrios crimes de que era acusado no Rio.
NĂŁo parece tudo muito estranho?
Por onde andam aqueles repórteres investigativos tão empenhados em vazar as investigaçÔes da Lava Jato sobre Lula e o PT?
Por que serĂĄ que nenhum deles se interessou atĂ© agora em saber o que aconteceu na Bahia, desde o primeiro cerco Ă mansĂŁo onde Nobrega estava escondido, na Costa do SauĂpe, antes de fugir para o interior?
NĂŁo seria o caso de ir a Rio das Ostras para apurar as ligaçÔes de NĂłbrega com o crime organizado e a polĂtica, ouvir seus comparsas, mergulhar neste submundo que estendeu seus tentĂĄculos atĂ© BrasĂlia, como se viu no premonitĂłrio final do filme “Tropa de Elite 2”?
Que fim levaram as investigaçÔes sobre as dezenas de funcionĂĄrios recrutados pelo esquema de Queiroz para alimentar o esquema das “rachadinhas”?
Por falar nisso, que fim levou FabrĂcio Queiroz? Evaporou?
A quantas andam as investigaçÔes sobre os mandantes da execução de Marielle, dois anos após a prisão dos autores dos disparos?
Pautas nĂŁo faltam, mas ninguĂ©m parece interessado em juntar as pontas desse imbroglio federal assolado por fantasmas e coincidĂȘncias que levam sempre aos mesmos personagens.
Se algum repĂłrter ousa tocar no assunto diante do presidente, no cercadinho do Alvorada, ele solta os cachorros em cima dos jornalistas, xinga a mĂŁe, dĂĄ uma banana, e vira as costas.
AtĂ© quando assistiremos a este espetĂĄculo deprimente de humilhaçÔes e subserviĂȘncia?
Daqui a pouco, ninguĂ©m fala mais no assunto, e voltaremos a tratar sĂł das “reformas” reivindicadas pelo mercado, enquanto as maiores aberraçÔes e evidĂȘncias de maracutaias logo sĂŁo “normalizadas”.
Com tantas famĂlias desabrigadas pelas enchentes e 11 milhĂ”es sem emprego, este ano a Quarta-Feira de Cinzas parece ter chegado antes do Carnaval.
Vida que segue.

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