A ascensão reacionária e conservadora de seitas neopentecostais, combinada à dominância de militares no atual governo, identificam sério risco de um novo período ditatorial no país
Por Marcio Pochmann | para a RBA![]() |
| Em nova manifestação, no domingo (19) seguidores de Bolsonaro pedem intervenção militar e demonstram ignorância sobre ditaduras arquivo pessoal/twitter |
O poder militar e a igreja, as duas principais instituições historicamente consolidadas no país, voltaram a influenciar decisivamente a política nacional. O descrédito no sistema político vigente, operado de forma fragmentada e com cada vez menor expressividade e correspondência às necessidades e aspirações do eleitorado, tem contribuído para isso.
O esvaziamento partidário reflete o quanto as agremiações políticas brasileiras encontram-se ultrapassadas, com decrescente capacidade de formar governos operosos e estáveis. A existência de 33 partidos oficialmente reconhecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral, que informa ainda haver mais outros 77 em formação, inclusive a legenda patrocinada pelo presidente Bolsonaro (Aliança pelo Brasil), indica o quanto as legendas partidárias encontram-se deslocadas das mudanças atuais na sociedade.
Embora existentes desde o início do século 19, os partidos monarquistas foram destituídos com o nascimento da República, em 1889. Na sequência, a Revolução de 1930 sepultou os partidos da República Velha (1889-1930), cujo reaparecimento de novas agremiações partidárias somente ocorreu entre 1945 e 1964, quando o golpe civil-militar de 31 de março desativou novamente as legendas até então existentes.
Durante o período ditatorial (1964-1985), somente dois partidos puderam existir: a Arena, de apoio ao autoritarismo, e o MDB, que representava a oposição consentida. Antes mesmo da transição para democracia, em 1985, o sistema multipartidário estava novamente instituído, permitindo a proliferação de partidos até os dias de hoje.
Com apenas dois partidos (PMDB e PFL), o governo Sarney (1985-1990) continha a maioria no Congresso Nacional. Nos anos de 1990, os governos de FHC (1995-2002) constituíram a maioria no Congresso Nacional com cinco partidos, ao passo que nos governos Lula, a quantidade de partidos necessária para alcançar a maioria congressual simplesmente dobrou.
Diante da antecipada transição para a sociedade de serviços, com a difusão das novas tecnologias de informação e comunicação, a perspectiva de estabilidade associada ao poder militar e as igrejas contamina mentes e corações tanto no andar de cima como na base da pirâmide social.
Também não é para menos, no país que já acumula seis anos de ausência do crescimento econômico sustentado, cuja população tem sido exposta à contínua degradação na qualidade de vida e nas condições de trabalho e renda.
A chegada da covid-19 parece acentuar ainda mais a instabilidade no presente, imagina o que poderá acontecer ainda mais em relação ao futuro. Mesmo que seculares, igreja e poder militar mudam de papel diante das transformações socioeconômicas.
Na sociedade agrária vigente até a década de 1930, o poder militar atuava como participante oposto ao atraso, radicalizando nas mudanças que instalaram as novidades tanto no fim da escravidão e da monarquia como na transição para a sociedade urbana e industrial. Pela formação da sociedade de massas urbanas, o avanço da modernidade tornou o militar o guardião do status quo, cada vez mais conservador e reacionário a mudanças.
Com a presença onde em geral o governo não chega, a Igreja tem exercido significativa influência política. Embora a Igreja Católica tenha detido a hegemonia sobre o conjunto da população agrária (1500-1930) e industrial (1930-1980), ela tem registrado acelerado enfraquecimento frente ao atual avanço para a sociedade de serviços.
A ascensão do pentecostalismo inaugura outra forma de influência – reacionária e conservadora – das igrejas na política nacional. Se combinada ainda à dominância de militares no governo Bolsonaro, identifica-se o risco de novo retorno à tradição não democrática.
Rede Brasil Atual

Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;