A polarização não é mais entre esquerda-direita, entre lulistas-bolsonaristas. É entre democracia e anarquia, civilização e barbárie. 

 
Luis Nassif

Foto de Ricardo Stuckert/PR
Foto de Ricardo Stuckert/PR

 

Há um quadro complexo pela frente. A permanência da Selic em níveis elevados criou uma situação insustentável de endividamento de famílias e de empresas. No caso das famílias, o problema foi agravado pela epidemia de bets e pelas armadilhas do crédito fácil.

A guerra do Irã vai piorar a situação. De um lado, provocando aumento nos preços dos combustíveis e dos alimentos. De outro, pressionando o Copom a manter a Selic nos patamares atuais.

Ou seja, o segundo semestre, em pleno processo eleitoral, será difícil. Ainda mais com a mídia difundindo a imagem do “Flávio” amor e paz, e não acordando para os riscos flagrantes para a democracia brasileira, embutidos em sua candidatura.

É tão irracional esse exercício prematuro de antilulismo, que abre espaço para conjecturas. O que a mídia pretende? Viabilizar uma terceira via, como o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite? E quando Lula e Flávio-Paz-e-Amor forem para o 2º turno, como ficará a posição da mídia?

A polarização não é mais entre esquerda-direita, entre lulistas-bolsonaristas. É entre democracia e anarquia, civilização e barbárie. Ou alguém minimamente racional tem alguma dúvida sobre o que será o Brasil, em caso de vitória de Flávio Bolsonaro?

Ontem, nos Estados Unidos, Flávio desenvolveu um discurso plenamente alinhado com o Maga, o mais ostensivo discurso entreguista da história. Houve um pedido explícito de atenção internacional ao Brasil, menções a monitoramento externo e pressão diplomática e de entrega de terras raras, sem nenhuma contrapartida. Aliás, o mesmo fez Ronaldo Caiado, o inacreditável governador de Goiás, oferecendo as terras raras do Estado — atribuição que não cabe a nenhum governador estadual.

O discurso foi totalmente ajustado ao ambiente da CPAC, com aproximação com o trumpismo, defesa de valores da “civilização ocidental” e retórica anti-esquerda global. Um ponto indicativo do seu discurso de campanha foi apresentar o Brasil como parceiro estratégico dos EUA e potencial fornecedor de recursos e oportunidades. Em versões do discurso, chegou a dizer que o Brasil pode ser “solução” para a América. Assim como a última campanha de Milei, este será um mote de campanha: se Lula for eleito, EUA serão uma ameaça; com Flávio, serão uma oportunidade.

Seja qual for a retórica, o fato insofismável é que, antes do Maga, Flávio é um representante autêntico das milícias cariocas. Mantinha relações diretas com Adriano da Nóbrega, o chefe do escritório do crime. O Supremo Tribunal Federal já o livrou do crime das rachadinhas. Mas há uma montanha de indícios de lavagem de dinheiro que jamais mereceram a atenção da Procuradoria Geral da República.

É esse o nível de presidente que a Globo quer, que o Estadão aceita, que a Folha promove? O antilulismo tornou-se uma epidemia mortal, que ainda vai promover a destruição do país.

Por sua vez, para enfrentar essa frente complexa, cuja formação atual é de igrejas-Faria Lima-mídia-organizações criminosas que pululam em torno do bolsonarismo, Lula não pode se valer apenas do anti-bolsonarismo.

Tem que apresentar uma marca, não para o terceiro governo, que está no fim, mas para um eventual quarto governo. Uma promessa de futuro melhor, um plano de metas, um projeto de país. Precisa devolver o otimismo que marcou o país no final do seu segundo governo, quase similar ao de JK.

É hora de começar a desenhar o futuro, para não soçobrarmos como civilização e como nação.


 Publicado originalmente por: jornalggn.com.br

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