A questão não se resume mais às excentricidades do homem, mas ao significado do que está acontecendo no próprio âmago do império.
| Yale - manifestantes pró-palestina - Foto de Adrian Martinez Sanchez - The New York Times - Reprodução |
por Heba Ayyad
Quando o indivíduo se sobrepõe ao Estado, o humor à instituição e a improvisação à estratégia, o império não se encontra no auge de seu poder, como imagina, mas em um dos limiares de sua grande confusão. Os Estados Unidos não eram apenas um arsenal militar formidável, nem meramente uma economia capaz de absorver mercados e redesenhar mapas de influência, mas também uma imagem cuidadosamente construída de uma nação cujo segredo mais profundo de poder residia, dizia-se, em suas instituições: em sua capacidade de refrear os caprichos dos indivíduos, controlar a tomada de decisões e impedir que a paixão se transformasse em destino global.
Essa era a grande narrativa estadunidense: um presidente pode chegar e outro pode partir, mas o Estado permanece mais profundo do que o ocupante da Casa Branca, mais duradouro do que os caprichos do momento e mais capaz de transformar o poder em ordem, e não em caos.
No entanto, o que o mundo vê hoje em Washington mina completamente essa imagem. Não estamos apenas diante de um presidente barulhento, narcisista e exibicionista, mas de um cenário que revela, com rara crueldade, que o Estado que por tanto tempo se apresentou como o ápice do institucionalismo, às vezes, age como se fosse governado pelo ritmo dos caprichos pessoais, e não pela lógica das instituições.
Um presidente acorda de manhã, toma seu café e publica uma mensagem que inflama os mercados, a política e as alianças; algumas horas depois, envia outro sinal que contradiz o primeiro ou o esvazia de significado, como se o mundo inteiro tivesse se tornado refém entre a paixão da manhã e os caprichos da noite.
Aqui, a questão não se resume mais às excentricidades do homem, mas ao significado do que está acontecendo no próprio âmago do império. Em sua essência, a questão não é meramente um problema de comunicação desenfreada, mas uma exposição política e histórica de uma nação em que o indivíduo começou a rivalizar com a instituição, a improvisação com o planejamento e o clamor com a serenidade que, por muito tempo, foi alardeada como um dos segredos da supremacia estadunidense.
Quando isso ocorre em um país comum, trata-se de uma crise de governança; mas, quando ocorre na potência que ainda detém a mais ampla rede de influência militar, financeira e política do mundo, transforma-se em uma questão global, capaz de afetar o destino de povos e continentes inteiros.
A cena, na realidade, transcende a política e beira o absurdo. Mas esse absurdo não está inscrito nos textos de Beckett, Genet ou Adamov, nem mesmo nas imaginações de Tawfiq al-Hakim sobre um mundo em que a lógica se perdeu. Pelo contrário: está inscrito diretamente nos mapas mundiais. É um absurdo que emana do centro do império, e não de sua periferia; um absurdo que confunde não apenas o cenário interno estadunidense, mas também aliados, adversários, mercados e campos de batalha, simultaneamente.
Quando a maior potência mundial atinge esse nível de contradição diária entre seus pronunciamentos e seus opostos, entre ameaças e retratações, não estamos apenas testemunhando uma confusão política, mas uma fragmentação da própria imagem do centro.
Uma parte fundamental do prestígio dos Estados Unidos residia no fato de que suas decisões, mesmo em seus momentos mais brutais, pareciam emanar de um aparato estatal, e não do capricho de um indivíduo. O mundo lidava com Washington não como uma entidade justa ou moral, mas como uma potência cujas regras eram compreensíveis e, no mínimo, previsíveis.
Hoje, uma das mudanças mais perigosas é que essa previsibilidade está se erodindo, e a imagem de “um Estado que sabe o que quer” está dando lugar a outra: a de um Estado que possui poder excessivo, mas que, gradualmente, perde a disciplina e o significado desse poder.
Aqui reside a essência do dilema imperial. Os impérios não iniciam seu declínio apenas quando são derrotados militarmente ou vencidos por seus adversários; esse declínio também começa quando deixam de se governar com a mesma inteligência que forjou sua glória. Começa quando as demonstrações de poder substituem seu uso eficaz, quando o ruído suplanta a coerência e quando a distância entre o Estado e o indivíduo se erode a ponto de as decisões estratégicas se assemelharem a reações impulsivas ou respostas caprichosas.
É precisamente nesse ponto que a arrogância imperial deixa de ser uma marca de domínio e se transforma em sinal de disfunção.
Os Estados Unidos continuam sendo, sem dúvida, uma potência formidável. Ninguém em sã consciência pode negar seu peso militar, financeiro ou tecnológico, nem a profundidade de suas redes de alianças. Mas a questão aqui não é negar o poder, e sim compreender a natureza do momento. Um império pode ser muito poderoso e, ainda assim, entrar em uma fase de declínio.
Talvez a tragédia dos grandes impérios seja que eles continuam a agir como se seu auge de glória ainda estivesse presente justamente no momento em que começam a perder seu equilíbrio interno. É isso que torna o cenário estadunidense atual tão significativo: Washington tenta agir como a única superpotência incontestável em um momento em que as fissuras se multiplicam em seu núcleo e a distinção entre política de Estado e impulsividade presidencial se torna cada vez mais tênue. Dessa perspectiva, falar sobre a erosão da unipolaridade não é apenas um desejo ideológico dos adversários de Washington, mas uma leitura ditada pela própria realidade. O mundo não vive mais um momento puramente estadunidense como aquele que se seguiu ao colapso da União Soviética. A China está em ascensão, a Rússia luta para definir sua posição, as potências regionais ampliam sua margem de manobra, e os aliados tradicionais dos Estados Unidos se tornam menos convictos e mais preocupados com as oscilações das decisões estadunidense.
A multipolaridade ainda não se estabilizou, mas o que parece certo é que a era do excepcionalismo estadunidense confiante chegou ao fim.
O que é ainda mais perigoso é que essa transformação não decorre apenas da ascensão de outros atores, mas também da própria turbulência interna dos Estados Unidos. Quando o centro do poder vacila, o mundo não precisa assistir à queda de um império para perceber que uma era inteira está chegando ao fim. Basta que um império perca a capacidade de convencer os outros de que ainda é capaz de autocontrole para que estes comecem a reavaliar suas posições e para que seu prestígio decaia antes mesmo que seus instrumentos de poder se enfraqueçam.
O poder não se sustenta apenas em armas, mas também em imagem, confiança, previsibilidade e capacidade de produzir sentido. Todos esses elementos estão sendo corroídos no âmago do cenário estadunidense.
Provavelmente, não estamos testemunhando o fim da hegemonia estadunidense, mas, sim, o fim de sua antiga imagem: a de uma nação que, por décadas, pareceu maior do que os caprichos de seus presidentes e mais capaz de conter o extremismo dentro de uma rede coesa de instituições. Agora, porém, o que se revela gradualmente é que a própria instituição já não está imune a convulsões, e que o império que por tanto tempo alegou ser governado por mentes ponderadas agora está ameaçado de ser comandado por nervos à flor da pele.
É precisamente aqui que o momento adquire seu significado histórico. Quando o indivíduo se sobrepõe ao Estado, o capricho à instituição e a improvisação à estratégia, o império não está no auge de seu poder, como imagina, mas, sim, em um dos limiares de sua maior desordem.
Este é o momento em que o excesso de poder se torna uma máscara que oculta uma crise mais profunda, e o clamor se transforma em uma tentativa desesperada de adiar o reconhecimento de que o mundo está mudando e de que o centro que por tanto tempo ditou seu ritmo já não pode mais monopolizar a definição desse ritmo. Esta, portanto, não é meramente uma crise presidencial. É uma crise de modelo, de um Estado que construiu grande parte de seu projeto hegemônico sobre uma imagem de institucionalismo, disciplina e liderança, apenas para se ver, em um momento histórico crucial, refém de um presidente que escreve o mundo na forma de uma publicação digital, deixando aliados, adversários e mercados lidarem, cada um à sua maneira, com o significado do próximo sinal.
E é assim que começam as grandes transformações: não apenas quando os adversários batem às portas do império, mas quando o próprio império, em seu âmago, começa a ouvir as vozes crescentes da dissidência vindas de dentro.
Heba Ayyad – Jornalista internacional. Escritora Palestina Brasileira.
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Publicado originalmente por: GGN
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