Estudo publicado em Roma resgata lutas esquecidas pela soberania digital no continente. Vão do Chile de Allende ao Peru de Alvarado (com participação ativa de Darcy Ribeiro). Incluem o software livre brasileiro. Inspiram e encorajam, em tempos de pasmaceira

Imagem: Sala de comando do Projeto Cyberyn, que o presidente chileno Salvador Allende concebeu e começou a executar. Como outras iniciativas latinoamericanas, teve participação do inglês Stafford Beer.

Por Fabricio Solagna, no OPlanoB

Mesmo que a historiografia tecnológica convencional costume situar o epicentro da inovação no Norte, relegando o Sul Global ao papel de mero espectador ou consumidor, sabe-se que existem vários exemplos alternativos e de resistência abaixo da linha do Equador.

Um deles foi o Projeto Cybersyn, uma audaciosa rede de gestão cibernética do Chile no governo de Salvador Allende. Ainda que tenha sido abortado após o golpe militar de 11 de setembro de 1973, esse esforço não foi único, nem isolado. Foi apenas o capítulo mais célebre de uma vasta odisseia na América Latina. Entre as décadas de 1960 e 1990, o britânico Stafford Beer, pai da cibernética organizacional, percorreu a América Latina auxiliando empresas e governos a implementar projetos variados, desde consultorias industriais até iniciativas para promover a democracia participativa.

Estas experiências mostram como a região sempre apostou em tecnologias alternativas com objetivo de emancipação e soberania, ainda que tenha sido constantemente cercadas pela instabilidade institucional.

José-Carlos Mariátegui, pesquisador da Universidade Luiss Guido Carli, em Roma (e homônimo do grande pensador marxista peruano) aborda um pouco dessa história por meio de um artigo publicado na revista científica Systemic Practice and Action Research. O trabalho “Beyond Project Cybersyn” rompe com o reducionismo histórico e investiga a trajetória dos projetos de Beer no continente latinoamericano. Mariátegui fundamentou sua pesquisa em documentos inéditos da Coleção Stafford Beer na Universidade Liverpool John Moores (SBCLJM) e no Arquivo Darcy e Berta Ribeiro da Universidade de Brasília, além de algumas entrevistas com figuras-chave e outros arquivos públicos.

A trajetória de Stafford Beer

Depois de Beer fundar uma empresa de consultoria, a SIGMA (Science in General Management Ltd.), ele desembarcou no Chile em 1963 para trabalhar. Foi quando estabeleceu contato com o jovem engenheiro Fernando Flores, que mais tarde resultaria no projeto Cybersyn para Allende. Essa experiência foi abordada por trabalhos de Eden Medina (Cybernetic Revolutionaries: Technology and Politics in Allende’s Chile, de 2011) e, mais recentemente, pelo podcast de Evgeny Morozov, The Santiago Boys. O que Mariátegui se propôs foi ir além da experiência chilena e rastrear os outros passos de Beer no continente latino-americano.

Muito conhecido por criar um modelo matemático específico, o Viable System Model (VSM), Beer continuou ativo em diversos países da América Latina até 1990. Aplicou os conhecimentos da cibernética, ciência ainda em ascensão, para o desenvolvimento de organizações, empresas e governos. Como um método, o VSM é uma espécie de receita teórica com passos e recomendações. Porém, na América Latina, ele teve a oportunidade de colocar essas ideias em prática e, por isso, viu sua teoria ser adaptada a diferentes contextos. Com isso, também foi possível observar seus limites conjunturais.

Peru: o socialismo cibernético de Darcy Ribeiro

Em 1972, paralelamente à experiência no Chile, foi fundado o Centro de Estudos de Participação Popular (CENTRO) no Peru. A ideia era criar uma “utopia viável”, com participação popular direta, sob o governo de Velasco Alvarado. À frente da iniciativa estavam o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro e o matemático argentino Oscar Varsavsky.

A colaboração de Beer e Darcy Ribeiro foi perene, e a troca entre mensagens e cartas continuou por um longo período, segundo a investigação Mariátegui: “Eles compartilhavam uma filosofia humanista que transparece nos arquivos em forma de desenhos e anotações conjuntas, revelando uma profunda conexão pessoal”.

A ideia do CENTRO não era automatizar o trabalho, mas abolir as estruturas assimétricas de poder. O computador seria como um motor lógico e não somente um repositório de dados. A ideia era criar uma “infraestrutura de feedback” que permitisse ao povo decidir seu futuro de forma soberana, longe dos modos de produção ocidentais. O projeto foi interrompido pelo golpe peruano de 1975.

Uruguai Cibernético: URUCIB desafiava a fórmula pronta do Norte

Durante a presidência de Julio María Sanguinetti (1985-1990), o Uruguai tornou-se palco do URUCIB (Uruguai Cibernético). O sistema utilizava um software chamado Cyberfilter para monitorar variáveis microeconômicas e detectar instabilidades incipientes antes de se tornarem crises.

Beer colaborou com o projeto mas, assim como em outras situações, duvidava que o software pudesse ser desenvolvido localmente. Os engenheiros uruguaios, liderados por Víctor Ganón, não só provaram o contrário como criaram o primeiro software exportado pelo país. O sistema foi adotado pela Argentina, Nicarágua e outros países.

No cenário uruguaio, isso impulsionou a formação tecnológica e o estudo da ciência da computação. Contudo, o fim do projeto revelou o risco de perda da soberania tecnológica: com a mudança de governo e a pressão por softwares padronizados de corporações globais, o sistema local foi abandonado em favor de soluções genéricas que ignoravam a complexidade única da governança nacional.

Colômbia: a experiência mais duradoura

A experiência mais longeva ocorreu na Colômbia (1993-2002), sob a liderança da engenheira Ângela Espinosa. O modelo organizacional criado por Beer, o Modelo de Sistema Viável, foi aplicado para redesenhar a Controladoria Geral e o sistema escolar nacional. O projeto Synergia foi um sucesso que sobreviveu aos governos de César Gaviria e Ernesto Samper.

Em uma conferência em Cartagena, Beer proferiu uma frase que se tornou o mantra do projeto: “A corrupção é um produto do sistema; a corrupção não é uma entidade em si… Se o sistema é corrupto, é porque foi desenhado para ser corrupto. Então, vamos redesenhá-lo.”

Ao contrário dos modelos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a abordagem colombiana focou na autonomia local e na participação de pais e alunos, provando que era possível descentralizar o poder em vez de concentrá-lo. O sistema foi desenhado para que pais e alunos tivessem agência real, transformando a educação em um processo de participação, e não apenas de entrega de métricas.

México e Venezuela: onde não houve sucesso

Nem toda semente prosperou. No México, entre 1982 e 1983, Beer desenhou um projeto para alterar a logística de transporte e entrega de alimentos, evitando desperdícios, mas esbarrou na burocracia estatal e resistências à mudanças.

Na Venezuela, em 1989, o projeto Cybervenez (Venezuela Cibernética) colapsou diante da crise institucional no país chamada de Caracazo. A ideia era criar uma sala municiada com dados em tempo real para tomadas de decisão, parecida com a Opsroom do Cybersyn e utilizar o software uruguaio Cyberfilter.

Cibernética e Neoliberalismo

Há um paradoxo expresso na análise de Mariátegui: as ferramentas de Beer, concebidas para a autonomia e o feedback democrático, foram por vezes apropriadas pelas elites neoliberais dos anos 1990.

Houve uma assimilação perversa: em vez de usar a cibernética para maximizar a liberdade, tecnocratas a utilizaram para garantir a eficiência do mercado e a privatização, reduzindo realidades sociais complexas a métricas frias. Onde Beer via possibilidade de participação, o neoliberalismo possibilitava apenas otimização de custos.

Um futurismo latino-americano

A trajetória de Stafford Beer na América Latina prova que a região foi protagonista de uma inovação global que desafia a dicotomia centro-periferia. O modelo criado por ele não era um simples conjunto de diagramas, mas uma linguagem para imaginar uma sociedade mais equitativa e participativa.

O legado dessa odisseia reside na visão compartilhada por Beer e Darcy Ribeiro: a de que a tecnologia digital, longe de ser necessariamente um instrumento de controle autoritário, pode (e deve) ser o sistema nervoso de uma democracia vibrante.

Capitalismo de vigilância no Sul Global

A reflexão de Mariátegui se enquadra no eixo de pesquisa que OplanoB classifica como “capitalismo de vigilância a partir Sul Global”. Essa perspectiva direciona o olhar para as as resistências, as assimetrias de poder e as iniciativas que surgem no Sul Global para desestabilizar as relações com o Norte.

Nas décadas em que Beer percorreu a América Latina, o capitalismo de vigilância ainda não existia. Entretanto, pode-se pensar como os desenvolvimentos aplicados dos mesmos princípios da cibernética podem resultados bastante diferentes.

O estudo de caso pode ajudar a imaginar o quanto o design dos sistemas que regem nossa vida atual pode ser utilizado ou para expandir nossa liberdade ou para nos confinar em uma nova e eficiente forma de controle tecnocrático, seja ele político ou de mercado.

A experiência de projetos inspirados nos modelos de Stafford Beer nos é útil para pensar outros momentos de protagonismo de tecnologias alternativas na AL. É o caso do uso do software livre entre o final dos anos 1990 e o início deste século como política pública por governos brasileiros.

Ainda que de forma incipiente, a adoção de softwares alternativos levou a uma disputa declarada entre a indústria e setores do mercado em relação aos anseios dos governos (estaduais e federal) em adotar soluções de código aberto para modernizar a máquina pública.

Grandes corporações atuaram publicamente e também no lobby. Houve uma influência em todo o continente para que as mesmas iniciativas fossem barradas. Em 2002, no Peru, houve uma proposta de lei para facilitar a adoção de software livre na administração pública, o que rendeu uma carta aberta da Microsoft ao seu proponente. No Brasil, foi criado inclusive um conceito de software público, o “Software Público Brasileiro” que juntava regramentos jurídicos, ajustados à administração pública, com um software de disponibilização de soluções criadas pelo governo para adoção por outras instâncias.

Essas iniciativas tiveram avanços e retrocessos ao longo dos anos, mas marcaram uma época e uma geração, assim com a geração de Beer for marcada pelos seus experimentos.

O trabalho de Mariátegui se encaixa no eixo de pesquisa do OplanoB que é classificado como “Capitalismo de Vigiância a partir do Sul Global”, que considera as iniciativas de resistências e as formas alternativas que visam desestabilizar as relações de poder e colonialidade. É claro que o período em que se refere a pesquisa não está em jogo um capitalismo de vigilância tal qual como se apresenta atualmente, entretanto, pode-se considerar que as bases sobre como a cibernética foi interpretada, tratada e instaurada desde então influenciaram para o arranjo de poder atual.

Para ler o artigo: https://doi.org/10.1007/s11213-025-09717-2

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 Publicado originalmente por: OUTRAS PALAVRAS

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