O gol de Luís Fabiano provoca uma ironia às nossas estruturas disciplinares, dentre as quais a mídia se destaca. A câmera enxerga a irregularidade, esbraveja sua existência, mas (ainda?) não intervém diretamente na decisão do árbitro.
Roberto Efrem Filho
O golaço marcado por Luís Fabiano – com auxílio de seu pertinente braço e de um não suficientemente discreto juiz – no jogo da seleção brasileira contra a seleção da Costa do Marfim, diz muito mais acerca do mundo em que vivemos do que supõe a vã filosofia de Galvão Bueno, o qual, diga-se de passagem, insiste em não se calar. Afinal, segundo que estratégias um ponto flagrantemente ilegal, conforme denunciado pelas lentes que tudo sabem e tudo vêem, sobrevive e gera efeitos a despeito do citado flagrante? Poder-se-ia afirmar que preferimos recepcionar a infração e infringir, assim, a regra, a descartar a beleza da jogada e a “vitória do Brasil”? O mesmo se aplicaria ao gol, igualmente denunciado pelas câmeras, marcado por Tevez, jogador da seleção argentina, em condição de impedimento, no jogo contra a seleção mexicana? E àquele outro marcado pela seleção inglesa contra a alemã (sim, porque que a bola entrou, entrou!) e não contado pelo árbitro? Em última instância: chegará o momento em que as câmeras desautorizarão o juiz de modo a substituí-lo e impedir que faltas desse nível se multipliquem? Seria isso, por sinal, desejável?
Walter Benjamin foi um dos mais relevantes e corajosos intelectuais que o século XX concedeu à história da humanidade. Marxista e judeu, Benjamin faleceu sob a perseguição do nazismo alemão, outra – ainda que de espécie diametralmente diversa - contribuição histórica deixada pelo tortuoso século passado. Antes de sua morte, contudo, e embora sem as formalidades características da intelectualidade acadêmica tradicional, Benjamim produziu uma obra singular, riquíssima, arrisco dizer, de leitura fundamental para qualquer sujeito que se pretenda à edificação da crítica. O mais interessante da obra em questão encontra-se na capacidade de Benjamin de alcançar as sutilezas dos processos de dominação decorrentes e constituintes do estágio do modo de produção capitalista que ele conheceu.
Benjamin estudou a boêmia, os folhetins, o bulevar, o lampião a gás, Baudelaire, os jogos, as prostitutas, o acidente de trânsito, o teatro épico, o surrealismo, livros infantis, brinquedos e brincadeiras, enfim, temáticas que soavam um tanto estranhas à sisudez das esquerdas de seu tempo, tão legitimamente atormentadas pelos prenúncios do holocausto. Foi percorrendo analiticamente os detalhes, as astúcias culturais daquela sociedade, que Benjamin descreveu características imprescindíveis à reprodução do capitalismo. Isto de maneira especial num ensaio, talvez o seu mais famoso texto, intitulado “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. Neste trabalho, há uma memorável passagem em que Benjamin debate a relação do ator de cinema com o aparelho, a câmera filmadora que o assiste a atuar.
Diferentemente do ator de teatro, quem atua diante de um público, o ator de cinema, tal qual o operário da fábrica, atua perante uma máquina que o aliena de sua humanidade. Dá-se, entretanto – e aqui está um excelente exemplo dos argutos insights de Walter Benjamin –, que o ator, na sala escura do cinema, supera a máquina, vinga-se dela, faz com ela o que nenhum trabalhador poderia fazer, nas palavras do autor, “coloca esse aparelho a serviço do próprio triunfo”. Era então a essa vingança que as classes trabalhadoras procuravam assistir lotando as salas de cinema nas décadas de 1920 e 1930. Talvez seja uma vingança irmanada a essa a que Luís Fabiano empreendeu.
Por certo, com a ampliação da intervenção tecnológica, corremos o risco de permitir que o futebol seja ressignificado pelo Big Brother, que o juiz – quem humanamente nem tudo enxerga – seja trocado pela eficiente máquina, que os jogadores, por fim, sejam completamente disciplinados. Disso resultaria inegável segurança no cumprimento das regras, mas não sem que o futebol se transformasse num chatíssimo simulacro de um jogo de videogame. Em meio a esse processo, o gol de Luís Fabiano provoca uma ironia às nossas estruturas disciplinares, dentre as quais a mídia se destaca. A câmera enxerga a irregularidade, esbraveja sua existência, mas (ainda?) não intervém diretamente na decisão do árbitro. Nós, repletos de contradições, vibramos porque um homem levou por duas vezes uma bola ao alto, livrando-se de três ou quatro jogadores opositores, e – sim, com a ajudinha de um oportuno braço e de certa cegueira do juiz – fez-nos felizes, afinal, era “GOL DO BRASIL!”.
Walter Benjamin foi um dos mais relevantes e corajosos intelectuais que o século XX concedeu à história da humanidade. Marxista e judeu, Benjamin faleceu sob a perseguição do nazismo alemão, outra – ainda que de espécie diametralmente diversa - contribuição histórica deixada pelo tortuoso século passado. Antes de sua morte, contudo, e embora sem as formalidades características da intelectualidade acadêmica tradicional, Benjamim produziu uma obra singular, riquíssima, arrisco dizer, de leitura fundamental para qualquer sujeito que se pretenda à edificação da crítica. O mais interessante da obra em questão encontra-se na capacidade de Benjamin de alcançar as sutilezas dos processos de dominação decorrentes e constituintes do estágio do modo de produção capitalista que ele conheceu.
Benjamin estudou a boêmia, os folhetins, o bulevar, o lampião a gás, Baudelaire, os jogos, as prostitutas, o acidente de trânsito, o teatro épico, o surrealismo, livros infantis, brinquedos e brincadeiras, enfim, temáticas que soavam um tanto estranhas à sisudez das esquerdas de seu tempo, tão legitimamente atormentadas pelos prenúncios do holocausto. Foi percorrendo analiticamente os detalhes, as astúcias culturais daquela sociedade, que Benjamin descreveu características imprescindíveis à reprodução do capitalismo. Isto de maneira especial num ensaio, talvez o seu mais famoso texto, intitulado “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. Neste trabalho, há uma memorável passagem em que Benjamin debate a relação do ator de cinema com o aparelho, a câmera filmadora que o assiste a atuar.
Diferentemente do ator de teatro, quem atua diante de um público, o ator de cinema, tal qual o operário da fábrica, atua perante uma máquina que o aliena de sua humanidade. Dá-se, entretanto – e aqui está um excelente exemplo dos argutos insights de Walter Benjamin –, que o ator, na sala escura do cinema, supera a máquina, vinga-se dela, faz com ela o que nenhum trabalhador poderia fazer, nas palavras do autor, “coloca esse aparelho a serviço do próprio triunfo”. Era então a essa vingança que as classes trabalhadoras procuravam assistir lotando as salas de cinema nas décadas de 1920 e 1930. Talvez seja uma vingança irmanada a essa a que Luís Fabiano empreendeu.
Por certo, com a ampliação da intervenção tecnológica, corremos o risco de permitir que o futebol seja ressignificado pelo Big Brother, que o juiz – quem humanamente nem tudo enxerga – seja trocado pela eficiente máquina, que os jogadores, por fim, sejam completamente disciplinados. Disso resultaria inegável segurança no cumprimento das regras, mas não sem que o futebol se transformasse num chatíssimo simulacro de um jogo de videogame. Em meio a esse processo, o gol de Luís Fabiano provoca uma ironia às nossas estruturas disciplinares, dentre as quais a mídia se destaca. A câmera enxerga a irregularidade, esbraveja sua existência, mas (ainda?) não intervém diretamente na decisão do árbitro. Nós, repletos de contradições, vibramos porque um homem levou por duas vezes uma bola ao alto, livrando-se de três ou quatro jogadores opositores, e – sim, com a ajudinha de um oportuno braço e de certa cegueira do juiz – fez-nos felizes, afinal, era “GOL DO BRASIL!”.
Roberto Efrem Filho é mestre em direito pela UFPE e docente do Departamento de Ciências Jurídicas da UFPB.

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