do BRASIL DE FATO
Vários analistas afirmam sentir-se decepcionados com esta segunda entrega de material secreto
Katia Monteagudo
Prensa Latina
Wikileaks ainda é notícia de primeira página, apesar de pouca análise começar a questionar o tratamento seletivo dos cinco principais jornais escolhidos por Julian Assange e sua equipe para difundir os 250 mil arquivos filtrados.
As opiniões sobre as intenções do site e o valor das revelações continuam polarizando-se, e diversos meios – os alternativos entre os primeiros – têm começado a dissecar o tratamento do que até agora pôde-se ler dos famosos documentos.
Estas avaliações veem com desconfiança o pacto confidencial do WikiLeaks com The New York Times, El País, Le Monde, Der Spiegel e The Guardian, entre os mais influentes do planeta, os quais durante meses acumularam o acervo de segredos e antes de tornar as informações públicas advertiram ao Departamento de Estado que o fariam dentro de certas normas “éticas” acordadas.
Este acordo significa, ao contrário do que tem feito Wikileaks, uma censura prévia deste grupo de jornais ocidentais, instruído pelo que os analistas definem como "a disciplina informativa estabelecida por Washington".
Mais suspeitoso, porque ainda – exceto as equipes de jornalistas e editores previamente escolhidos -, ninguém tem tido acesso à base de dados original do meio milhão extraído.
De seu Twitter, WikiLeaks só remete às páginas desses periódicos. O site permanece ainda bloqueado e, recentemente, a empresa Amazon o expulsou de seus servidores. Além disso, aumenta a perseguição a Julian Assange pelo mundo. Alan Rusbridger, editor-chefe do The Guardian, em um fórum interativo com seus leitores admitiu que estão omitindo parte do material para não vulnerabilizar a certas fontes de informação. “Não creio que seria correto subir cada documento sem redação”.
Bill Keller, Jill Abramson e Andrew Lehren, mais importantes editores no The New Ypork Times, igualmente afirmaram que a transparência não é um bem absoluto. “A liberdade de imprensa também inclui a liberdade de não publicar, e essa é uma liberdade que exercemos com certa regularidade”, esclareceram ante questionamentos pelo tratamento seletivo aos cabos colhidos da mesma rede de informação do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
Para Pascual Serrano, reconhecido jornalista espanhol e analista dos meios de comunicação, o menos relevante neste debate global é se é correta ou não a distribuição livre de informação secreta. “Em minha opinião, trata-se de uma simplificação, e o modus operandi do próprio Wikileaks tem demostrado que o assinto é mais complexo”, especifica em um comentário publicado no portal alternativo Rebelión.
Serrano assegura que é absoluta a conivência entre o site fundado por Julian Assange e o que denomina como o cartel dos cinco. “Não sei se a origem do WikiLeaks era limpa e honesta, o que parece claro é que está se convertendo em um sujeito domesticado”, afirma.
Vários analistas afirmam sentir-se decepcionados com esta segunda entrega de material secreto, e há até quem advirta que uma mão oculta poderia estar movendo os fios do que literalmente denominam como o novo reality show dos grandes meios.
Estes têm promovido suas coberturas como um verdadeiro “festim” de segredos, o sonho do historiador, o pesadelo do diplomata, as confidências de amigos, aliados e rivais. Tudo um “banquete com numerosos pratos conseguidos da história atual”, como disse o diário El País, ao revelar parte das informações.
Em seguida vem a imediata explicação de que “este material consiste, em sua maior parte, em informes políticos de nível médio e alto enviados de todo o mundo, além das instruções de Washington”.
“É importante recordar que não representam segredos das máximas categorias: NODIS (acesso exclusivo para o presidente, o secretário de Estado, o chefe de missão), ROGER, EXDIS, DOCKLAMP (mensagens secretas entre os conselheiros de Defesa e o Serviço de Inteligência da Defesa)”, continua explicando El País.
Enquanto isso, no transcorrer da semana vão passando por debaixo da mesa outros acontecimentos de transcendência como a Cúpula do Clima em Cancún, as tensões das duas Coreias, a impopularidade do presidente Barack Obama e o pacote de medidas internas adotadas por seu governo para amenizar a crise econômica que ainda não passou. Em recente entrevista para o canal televisivo CNN em espanhol, o subdiretor do diário El País reconheceu o aumento das vendas de seu periódico desde que começaram a publicar a seleção do meio milhão de cabos que lhe foram entregues.
Inclusive, em relação ao tema Cuba, este diário, assim como o resto dos jornais escolhidos, não divulgou nenhum dos dois mil e 80 cabos enviados ao Departamento de Estado estadunidense pelo Escritório de Interesses de Havana, e que estão na base de dados do WikiLeaks.
Segundo um editorial do site Cubadebate, o diário espanhol só tem publicado uma linha de um desses despachos, diluída entre referências a Cuba, tiradas de outros informes das embaixadas estadunidenses em Caracas e Bogotá.
Vem de um relatório datado de 27 de fevereiro de 2009, assinado por Jonathan Farrar, diretor do Escritório de Interesses dos Estados Unidos, que "reconhece a eficácia da polícia (cubana) perseguindo "terroristas”, ou como ele chama “dissidentes". "Qual é o milagre de que um despacho quase bajulador para Cuba do Chefe da SINA é traduzido ao contrário? Por que aqueles que repetem a versão do El País não se preocupam em ler a fonte original? Por que quando se trata de Cuba certa imprensa nem sequer apela a um mínimo de bom senso?", argumenta o referido editorial do portal cubano.
O tema do Irã é outro dos assuntos que também é questionado por um analista, depois da dissecação do “festim” de segredos prometido. É reconhecido que o Wikileaks poderá ser um caso genuíno de jornalismo de investigação corajosa, mas que, por sua vez, está sendo utilizado pelo mesmo poder de colocar nas mãos do público informações que causem ou criem um determinado estado de opinião pública.
Assim se refere Moisés López, autor do recente artigo publicado no Rebelión, intitulado: “Um 'descobrimento' mediado ou um 'descobrimento' controlado?”. Para o analista, não é de todo uma coincidência que os meios escolhidos deram destaque também na venda de tecnologia de mísseis balísticos da Coreia para o Irã, membros do chamado "eixo do mal", de acordo com a política exterior estadunidense. "A quem beneficia saber que o rei Abdullah da Arábia Saudita aconselhou os estadunidenses a 'cortar o pescoço da cobra ', e advertiu que 'se o Irã conseguir desenvolver armas nucleares, todo o mundo fará o mesmo na região?" “Não se está colocando mais lenha na fogueira, com esta informação, na divisão (conhecida) entre os países do mundo islâmico, ante o caso de uma futura ação contra o Irã?", observa o artigo.
O reconhecido cientista político e acadêmico estadunidense Noam Chomsky, entrevistado sobre o tema, acredita é que uma forma de manipulação muito grave que as manchetes dos diários digam que "os estados árabes estão aterrorizados pelo Irã e querem que os Estados Unidos façam algo a respeito".
A essas declarações acrescenta-se que estas afirmações se contradizem com a pesquisa do Brookings Institute, publicada no mês passado, mas sem publicidade nos Estados Unidos. O estudo mostrou que 80% dos entrevistados asseguraram ver os Estados Unidos e Isral como a verdadeira ameaça do mundo árabe.
Para Chomsky, as pessoas não importam aos diplomatas, assim como que ao Departamento de Estado, e aparentemente aos meios, também não. “Tudo isto reflete um profundo desprezo pela democracia”.
Tradução: Michelle Amaral
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