do BLOG DO MIRO


Reproduzo artigo de Domenico Losurdo, publicado no sítio Voltaire:

Transmitido ao vivo através das principias redes de televisão do mundo, o discurso pronunciado pelo presidente do Comitê do Nobel, Thoebjoern Jangland, durante a entrega do Prêmio Nobel da Paz a Liu Xiabo, é um verdadeiro manifesto de guerra.




Seu conceito fundamental é tão claro como grosseiro e maniqueísta: “As democracias [capitalista] não fazem guerra entre si e nunca farão. Portanto, para que a causa da paz triunfe uma vez por todas é preciso fazer propaganda da democracia em escala planetária”.

Quem fala assim está ignorando a história. Ignora, por exemplo, a guerra entre Grã-Bretanha e Estados Unidos, 1812-1815, dois países “democráticos” que formam parte da “pragmática” e “pacífica” estirpe anglo-saxônica. Aquela guerra alcançou tal grau de fúria que Thomas Jefferson chegou a comparar o governo de Londres com o “satanás” e declarou, inclusive, que a Grã-Bretanha e Estados Unidos estavam travando uma “guerra eterna” e que ela somente acabaria com o “extermínio” de uma das partes.

Ao identificar a causa da paz com a da democracia capitalista, o presidente do Comitê do Nobel embeleza a história do colonialismo. Nela o que se vê é que muitos países “democráticos” promovem o expansionismo recorrendo à guerra – à mais brutal forma de violência e, inclusive, à prática com caráter genocida.

Não se trata apenas do passado. Através de seu discurso, o presidente do Comitê legitimou a “posteriori” a primeira guerra do Golfo, a guerra contra a Iugoslávia e a II guerra do Golfo, desencadeada pelas potencias “democratas” em nome da “democracia”.

O maior obstáculo à propaganda universal da democracia é representado hoje pela China, que constitui ao mesmo tempo o foco mais perigoso da guerra. Lutar por todos os meios para uma “mudança de regime” em Pequim representa uma nobre empreitada a serviço da paz. Esta é a mensagem transmitida ao mundo inteiro em Oslo, precisamente no momento em que toda uma frota de guerra estadunidense está “treinando” a pouca distância das costas chinesas.

Um ilustre filósofo ocidental e “democrata”, John Stuart Mill, defendeu em sua época as guerras do ópio desencadeadas contra a China como uma contribuição à causa da liberdade, incluindo a liberdade do “comprador” à frente “do produtor ou do vendedor”.

Esta é a nefasta tradição colonialista seguida pelos senhores da guerra em Oslo. O manifesto do presidente do Comitê da Paz deve soar como um toque de alarme aos ouvidos dos verdadeiros defensores da paz.

* Domenico Losurdo é filósofo, historiador e professor da Universidade de Urbino (Itália).

* Tradução de Sandra Luiz Alves.

Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads