Eles se esforçam para assegurar aos tunisianos que não está em curso uma revolução islâmica. Eles não querem a presidência. Prometem acompanhar outros grupos na democracia que substitua o Estado policial deixado pelo ex-presidente Zine al Abdine Ben Ali.
O principal grupo islâmico da Tunísia, o Ennahda, pode não ter tido nenhuma participação na revolução que derrubou Ben Ali, após 23 anos no poder, mas qualquer dúvida sobre a influência do Ennahda foi dissipada com a volta ao país de seu líder, Rachid Ghannouchi.
Milhares de pessoas se aglomeraram no aeroporto de Túnis para ver Ghannouchi, ofuscando qualquer outra recepção oferecida a ex-exilados, e alarmando tunisianos que desejam manter o Islã separado do Estado nesta ex-colônia francesa, acostumada nas últimas décadas a um secularismo imposto pelo governo.
"A Tunísia não irá mudar para se adaptar aos islamistas e às suas ideias. Os islamistas devem se adaptar à Tunísia moderna", disse Neji Bghouri, presidente do sindicato dos jornalistas.
"Há uma tendência no Ennahda que começou a se ajustar a essa realidade, mas há os que são mais extremistas. Essa é uma questão de grande sensibilidade entre a elite política da Tunísia."
Apesar da repressão que levou milhares de seus membros à prisão e ao exílio a partir da década de 1990, os seguidores do Ennahda já parecem estar mais organizados do que qualquer outro grupo político.
Na recepção a Ghannouchi, jovens voluntários do grupo organizavam com cortesia a multidão, enquanto a segurança do aeroporto era praticamente invisível. Todos pareciam se conhecer, e usavam bonés brancos para se identificar.
Isso não é pouca coisa para um grupo que passou duas décadas proscrito, num país onde as mulheres eram proibidas de estudar e trabalhar se usassem véu na cabeça, e onde os homens eram abordados pela polícia se fizessem orações publicamente.
"O Ennahda ajustou sua narrativa para se adequar ao momento, e o momento é de autorrestrição", disse Larbi Sadiki, conferencista tunisiano na Universidade Exeter. "Eles sofrerão mais escrutínio que os outros, porque durante muito tempo 'Tunísia' e 'islamista' não podiam ser ditos juntos."
Exemplo iraniano
O Ennahda tem tido o cuidado de não assumir um papel visível demais, temendo ser acusado de estar transformando uma revolta popular em uma revolução islâmica, como aconteceu em 1979 no Irã.
O Ennahda tem tido o cuidado de não assumir um papel visível demais, temendo ser acusado de estar transformando uma revolta popular em uma revolução islâmica, como aconteceu em 1979 no Irã.
Por isso Ghannouchi não voltou imediatamente, e não irá se candidatar a nada. O grupo pretende disputar a eleição parlamentar, mas não a presidencial. No entanto, caso forme uma bancada substancial, o grupo ganhará influência na escolha do governo.
"Eles tentarão ter de 35 a 40 por cento dos votos, para mostrar que têm legitimidade, nada além. O que é preciso observar é o que eles fazem no nível da sociedade, grupos cívicos, ONGs", disse Sadiki, que há muito tempo estuda o Ennahda e estava no avião que trouxe Ghannouchi do exílio em Londres.
Ninguém se esqueceu da eleição de 1989, quando o Ennahda foi autorizado a participar. Ele obteve uma votação respeitável, alarmando Ben Ali, que então proibiu o grupo e perseguiu seus membros.
O Ennnahda pode parecer igualmente alarmante para os grupos laicos de oposição, que conquistaram menos de 3% dos votos em 1989, e certamente temem ser trucidados de modo semelhante pelos candidatos islâmicos desta vez.
O único rival do Ennahda em termos de número de filiados e organização é a central sindical UGTT, que chegou a participar efemeramente do governo provisório após a queda de Ben Ali. A central tinha ligação com a ditadura, mas acabou aderindo à revolta e está reconstruindo sua imagem.
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