Estou escandalizado é com o escândalo que armaram em torno do livro 'POR UMA VIDA MELHOR' de Heloisa Ramos da coleção 'Viver, aprender'.
Finalmente tive acesso ao livro, que me foi dado por Cláudio Mendonça- Presidente da Fundação de Educação de Niterói. Antes havia lido entrevistas em que a autora tentava explicar seu livro, aos que não a queriam entender. Li também uma série de impropérios injustos e gracinhas fáceis em torno da obra.Vi gente alarmada dizendo que o mundo tinha acabado por causa dessa obra maligna. Enfim, apocalipse now.
Fico me indagando de onde é que saiu essa onda de interpretações equivocadas sobre o livro.Fico pensando nessa expressão esquisita que a imprensa tanto usa 'repercutir a notícia'. Parece até que a imprensa é 'oral' e não 'escrita'.Fica repercutindo boatos, o 'ouvir dizer'. Isto bate num problema crônico agravado pela modernidade: a cultura auricular ( o ouvir dizer).E dá-lhe boato, que vira calúnia. Vocês se lembram daquela ária -'La Calunia'- da ópera 'Barbeiro de Sevilha' de Rossini? A calúnia começa como uma brisa e acaba virando tempestade.
Nesse caso, 'tempestade em copo d'água'.
Em síntese: a autora não está fazendo nenhuma apologia do erro, está mostrando o que qualquer linguista sabe: a diferença entre a linguagem escrita e a falada. E fez ( com uma equipe) um livro muito interessante para os alunos do EJA ( Educação de Jovens e Adultos). É' bom que as pessoas se informem também sobre o que é o EJA: cursos para o pessoal que entra tardia (e constrangidamente) em contato com a cultura formal.
No livro tem textos de Italo Calvino e Juó Bananére, Rubem Braga e Melville, Daniel Defoe e Adoniran Barbosa. E abrindo o leque, refere-se tanto a Goya quanto a artistas contemporâneos. Enfim, um painel da cultura, uma aula de semiologia. Ali, por exemplo, o inglês é ensinado a partir do que está escrito nas camisetas e na publicidade. E ensina a esses 40 milhões que saíram da faixa da pobreza a utilizarem o computador.
Mas disto ninguém falou...
Fico pensando em algo que digo num dos textos de LER O MUNDO ( que chega às livrarias essa semana). As pessoas das comunidades carentes, às vezes, usam camisetas e nem sabem o que está escrito nelas. Pois bem, muita gente sofisticada se debruça sobre as letras dos jornais e não consegue desentranhar o significado dos fatos.
O assunto é mais amplo. Há que analisar a esquizofrenia da cultura contemporânea. Digo algo sobre isto no OBSERVATORIO DA IMPRENSA ( do combativo Alberto Dines) que foi ao ar na 3a.feira na TV Brasil( antiga TVE).
Affonso Romano de Sant’anna
Affonso Romano de Sant’anna


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