Sin Permiso - [Noam Chomsky, Tradução de Diário Liberdade] 24 de Abril de 2011. O levantamento democrático no mundo árabe tem sido um espetacular exercício de coragem, dedicação e compromisso com as forças populares que tem coincidido fortuitamente com uma notável rebelião de dezenas de milhares de pessoas a favor do povo trabalhador e da democracia em Madison, Wisconsin, e outras cidades dos EUA. Tem que ser dito, no entanto, que se as trajetórias das revoltas no Cairo e em Madison estavam com sentido opostos: enquanto no Cairo se encaminhavam conquistas de direitos elementares que foram negados pela ditadura, em Madison apontavam para a defesa de direitos que haviam sido conquistados com longas e duras lutas que agora estão em perigo.
Um ou outro caso fazem parte de um microcosmo de tendências atuais na social global que seguem uma variedade de cursos. Não há dúvida: terão consequências de longo alcance. Tanto que agora mesmo está acontecendo no decadente coração industrial do país mais rico e poderoso da história humana, como o que o presidente Dwight Eisenhower chamou de ''a área estrategicamente mais importante do mundo'', ''uma estupenda fonte de poder estratégico'' e ''provavelmente o maior prêmio econômico do mundo no campo do investimento estrangeiro'', em palavras ditas no Departamento de Estado nos anos 1940, um prêmio que os EUA trataram de reverter como exclusivo, para si próprios e para seus aliados, na incipiente Nova Ordem Mundial da época.
Sobre as modificações que ocorreram após isso, pode-se razoavelmente supor que as pessoas políticas que lidam com decisões, basicamente mantêm sua adesão ao julgamento do influente assessor do presidente Franklin Delano Roosevelt, A.A. Berle. Para ele, esse controle das incomparáveis reservas energéticas do Oriente Próximo trariam consigo ''um controle substancial do mundo''. E, analogicamente, e por contraste, que a perda desse controle ameaçaria o projeto de dominação global claramente articulado durante a II Guerra Mundial e mantido de forma persistente mesmo com as decisivas modificações experimentadas pelo mundo desde então.
A partir da explosão da Guerra em 1939, Washington antecipou que essa questão traria aos EUA uma posição de supremacia. Funcionários de alto nível do Departamento de Estado e especialistas em política exterior se reuniram repetidamente durante a Guerra a fim de planejar o mundo pós-guerra. Fizeram o perfil de uma ''Grande Área'' que os EUA dominariam, e que incluía o Hemisfério Ocidental, o Extremo Oriente e o antigo Império Britânico, com seus recursos energéticos do Oriente Próximo. Quando a Rússia começou a desmantelar os exércitos nazistas, logo depois da batalha de Estalinegrado, os objetivos da Grande Área começaram a estender-se até abarcar a maior zona possível da Eurásia, e ao menos seu núcleo econômico na Europa Ocidental. Dentro da Grande Área, os EUA manteriam um ''poder indiscutível'', com ''supremacia militar e econômica'', enquanto que se segurariam de ''limitar o exercício da soberania'' dos estados capazes de interferir nos propósitos globais dos EUA. Os planos circunstanciais do tempo de guerra não tardaram a ser colocados em prática.
Sempre se reconheceu que a Europa poderia optar por um curso independente. A OTAN foi concebida em parte para contrariar a ameaça dessa independência. Não bem se dissolveu em 1989, o pretexto oficial que havia dado lugar à OTAN, a mesma se expandiu até o leste, em flagrante violação das promessas verbais feitas ao dirigente soviético Gorbachov. Desde então, se converteu numa força de intervenção manejadas pelos EUA. O grande raio de ação que assumiu o pretexto foi expressado pelo secretário geral da OTAN, Jaap de Hoop Scheffer, ao informar em uma conferência da organização que ''as tropas da OTAN têm que vigiar os oleodutos que transportam petróleo e gás em direção ao Ocidente'', e mais em geral, proteger as rotas navais utilizadas pelos cargueiros e outras ''infraestruturas cruciais'' do sistema energético.
As doutrinas da Grande Área dão licença para a intervenção militar arbitrária. Isso ficou patentemente firmado sob a administração Clinton, que proclamou o direito dos EUA em servir-se da força militar para garantir o ''acesso irrestrito as mercados-chave, fornecimentos de energias e recursos estratégicos'', e manteve ''implantadas desde a Europa e Ásia, enormes forças militares'', ''com a finalidade de moldar opiniões das pessoas sobre nós'' e de ''moldar os acontecimentos que afetam as probabilidades da nossa segurança.''
Idênticos princípios regeram a invasão do Iraque. Na medida que se foi mostrando evidente a incapacidade dos EUA para impor sua vontade nesse país, os objetivos reais da invasão não puderam seguir camuflando-se atrás de uma retórica deslumbrante. Em novembro de 2007, a Casa Branca emitiu uma Declaração de Princípios exigindo que as forças dos EUA se mantivessem indefinitivamente no Iraque e deixando um elo de sorte desse país ao privilégio dos investidores norte-americanos. Dois meses depois, o presidente Bush informava ao Congresso de que vetaria a legislação que pudesse colocar limites ao permanente estacionamento das Forças Armadas dos EUA no Iraque ou ''ao controle, por parte dos EUA, dos recursos petrolíferos desse país'': algumas exigências que os EUA tiveram que abandonar, visto a resistência dos iraquianos.
Em Tunes e Egito, as recentes manifestações populares ganharam imponentes batalhas, mas, como informava o Carnegie Endowment, mesmo que os nomes tenham mudado, os regimes permanecem: '' uma modificação nas elites dominantes e no sistema de dominação é ainda uma meta distante.'' O relatório analisa os obstáculos internos que estão no caminho da democracia, mas ignora os exteriores, que, como sempre, são significativos.
Os EUA e seus aliados ocidentais estão decididos a fazer tudo o que possam para prevenir uma autêntica democracia no mundo árabe. Para entender por que, basta espreitar as pesquisas de opinião realizadas no mundo árabe pelas agências norte-americanas. Mesmo que seus resultados não tenham sido publicizados, nem por isso deixaram de ser conhecidos por estrategistas dos EUA. As pesquisas revelam que a maioria esmagadora dos árabes veem os EUA e Israel como as maiores ameaças ao que enfrentam: 90% dos egípcios pensam assim, e em conjunto com a região, 75% dos pesquisados. Alguns árabes veem como ameaça o Irã: 10% deles. A oposição à política dos EUA é tão forte, que uma maioria acredita que a segurança melhoraria se Irã tivesse disponível armamento nuclear (isso acreditam, por exemplo, 80% dos egípcios). Outros quadros de opinião comprovam resultados semelhantes. Se a opinião pública pudesse influenciar nas decisões, os EUA não só não poderiam controlar a região, como seriam expulsos dela, junto com todos seus aliados, o que minaria os princípios fundamentais da dominação global.
A mão invisível do poder
O apoio à democracia é essencial aos ideólogos e aos propagandistas do sistema. No mundo real, a repulsa da democracia pela elite é norma. São esmagadoras as provas de que a democracia somente é apoiada enquanto possa contribuir aos objetivos sociais e econômicos, uma conclusão a que relutantemente chegam os acadêmicos mais sérios.
O despreço da elite pela democracia se revelou espetacularmente na reação às divulgações do WikiLeaks. As que maior atenção receberam, com comentários que beiraram à euforia, foram as revelações em que estavam informados o apoio dos árabes à posição dos EUA em relação ao Irã. A referência, claro, era a de ditadores árabes. As atitudes da opinião público nem sequer receberam menção. O princípio reator foi claramente baseado pelo especialista do Carnegie Endowment para Oriente Próximo, Marwan Muasher, um ex-alto funcionário do estado da Jordânia: ''Nada vai mal, tudo está sob controle''. Em resumo: se os ditadores nos apoiam, porque nos preocuparíamos?
A doutrina Muasher é racional e venerável. Para reduzirmos a um só caso pertinente hoje em dia, em um debate ocorrido em 1958, o presidente Eisenhower manifestou sua preocupação pela ''campanha de ódio'' contra nós livrada no mundo árabe, não pelos governos, mas pelas populações. O Conselho Nacional de Segurança (NSC, siglas em inglês), explicou que no mundo árabe se tinha a percepção de que os EUA apoiavam os ditadores árabes e bloqueavam a democracia e o desenvolvimento para se assegurar do controle dos recursos da região. Além disso, essa percepção é basicamente correta, concluía o NSC, e isso é o que temos que fazer. Estudos realizados pelo Pentágono logo depois do 11 de setembro de 2001 confirmaram que o mesmo vale para hoje.
É normal que os vencedores joguem a história no lixo, enquanto as vítimas levam a história em consideração. Algumas breves observações sobre esse importante assunto podem ser úteis. Não é a primeira vez que o Egito e os EUA enfrentam problemas similares e se movem em direções opostas. Isso já ocorreu também no começo do século XIX.
Os historiadores econômicos afirmam que o Egito estava bem situado para empreender um rápido crescimento econômico ao mesmo tempo que os EUA. Ambos países tinham uma rica agricultura, incluindo o algodão, combustível da primeira revolução industrial: mas, diferente do Egito, os EUA tinham que desenvolver a produção de algodão e uma força de trabalho diante a conquista, o extermínio e a escravidão, com consequências que estão evidentes ainda hoje nas reservas para sobreviventes e nas cadeias que têm proliferado rapidamente desde os tempos de Reagan para albergar a população que a desindustrialização neoliberal fez sombra.
Uma diferença fundamental foi que os EUA conseguiram sua independência, o que deu liberdade para ignorar as prescrições da teoria econômica, divulgadas na época por Adam Smith em termos parecidos aos que agora indicam para as sociedades em desenvolvimento. Smith dizia para as colônias emancipadas produzirem matérias-primas para exportação e importar, em troca, manufaturas britânica, e, desde cedo, a não monopolizar bens cruciais, especialmente o algodão. Qualquer outra questão, advertiu Smith, “longe de acelerar, atrasaria em muito o incremento do valor de sua produção anual, e longe de promover, obstruiria o progresso do seu país até uma riqueza e uma grande reais.”
Conseguida a independência, as colônias foram livres para ignorar este conselho e empreender, em troca o curso seguido pela Inglaterra, o curso, isso é, de um estado independente capaz de promover publicamente seu próprio desenvolvimento com elevadas tarifas pensadas para proteção de sua indústria perante às importações britânicas – na época, os têxteis, logo, o aço e outros produtos – e para colocar em obra muitos outros mecanismos aceleradores do desenvolvimento industrial. A República independente buscou se fazer também com o monopólio do algodão, com a finalidade de ''colocar todas as outras nações a nossos pés'', sinalizando o inimigo britânico, como não se privaram de declarar os presidentes jacksonianos ao conquistar o Texas e a metade do México.
No possível caminho análogo do Egito se atravessou a potência britânica. Lord Palmerston declarou que ''nenhuma ideia de equidade pode ser obstáculo no que concerne o interesses tão grandes e supremos'' como os britânicos no seu afã de preservar sua hegemonia econômica e política. Declarou isso expressando, rapidamente, seu ''ódio'' pelo o ''bárbaro ignorante'' de Mohammed Ali, que se adiantou a propor um caminho independente, e implantando a frota e o poder financeiro britânicos para colocar fim à luta do Egito pela independência e pelo desenvolvimento econômico.
Logo após a II Guerra Mundial, quando os EUA passaram a Grã-Bretanha em relação à hegemonia global, Washington adotou a mesma posição, deixando claro que os EUA não proporcionariam a menor ajuda ao Egito, a menos que ele acatara as normas de uso para os fracos, normas, incidentalmente, que os EUA seguiram violando, impondo elevados impostos ao algodão egípcio e cansando uma debilitadora escassez de dólares. A interpretação habitual dos princípios do mercado.
Dificilmente causará surpresa, pois, que a ''campanha do ódio'' contra os EUA que preocupava Eisenhower estava fundamentalizada na percepção de os EUA apoiam os ditadores e bloqueiam a democracia e o desenvolvimento, como fazem também seus aliados.
Agregando elementos em defesa de Adam Smith, que sabia claramente o que ocorreria se a Grã-Bretanha seguisse as regras da teoria econômica na prática que agora chamamos neoliberalismo. Ele alertou que se os industriais, os comerciantes e os inversores britânicos se abriam ao mundo, poderiam obter benefícios, mas a Inglaterra sofreria. Mas sentiu que se deixariam levar por um aporte nacional, como se por uma mão invisível a Inglaterra não estivessem reservados os DESQUITES da racionalidade econômica.
O caminho é difícil de esquecer. É a única vez que aparece a célebre frase da ''mão invisível'' em toda a Rique das Nações, obra de Adam Smith. O outro fundador da economia clássica, David Ricardo, tirou conclusões parecidas, na esperança de que o desenvolvimento nacional levaria aos homens de propriedade a ''se contentar com as baixas taxas de benefícios em seus próprio país, antes que busquem um emprego mais vantajoso nas nações estrangeiras.''; sentimentos esses, que, acrescentava, ''lamentaria ver enfraquecidos''. Predições à parte, os instintos dos economistas clássicos careciam de bom sentido.
As ''ameaças'' iraquianas e chinesas
As manifestações pela democracia no mundo árabe se compara, às vezes, com o que ocorreu na Europa em 1989, mas com razões duvidosas. Em 1989, o levantamento democrático foi tolerado pelos russos e apoiado pelas potências ocidentais conforme a doutrina assadeira: se acomodavam patentemente aos objetivos econômicos e estratégicos, o que fez dele um ganho nobre, diferente das lutas que paralelamente se desenvolviam na América Central pela “defesa dos feitos fundamentais dos povos”, nas palavras do arcebispo de El Salvador, um dos centenas de milhares de vítimas das forças militares armadas e treinadas em Washington. Não havia Gorbachov no Ocidente durante esse anos horrorosos, e ainda não existe. As potências ocidentais continuam sendo hostis à democracia no mundo por muitas boas razões.
As doutrinas da Grande Área seguem se aplicando às crises e às confrontações do nosso cotidiano. Nos círculos ocidentais de tomada de decisões políticas, o mesmo entre os comentaristas políticos, se considera que a ameaça iraquiana representaria o maior perigo para a ordem mundial, e a política exterior dos EUA deveria se focar primordialmente nessa questão, deixando à política exterior europeia o papel das educadas negociações diplomáticas.
Agora bem, em que consiste exatamente a ameaça iraquiana? O Pentágono e os serviços de inteligência dos EUA nos proporcionam uma resposta. Em seus informes do ano passado sobre a segurança global, deixaram claro que a ameaça não é de natureza militar. O gasto militar iraquiano é “relativamente baixo em comparação com o resto da região”, concluíram. Sua doutrina militar é estritamente “defensiva, concebida para frear uma possível invasão e forçar uma solução diplomática de hostilidades.” O Irã somente tem “uma capacidade limitada de projetar sua força mais além de suas fronteiras”. A respeito da opção nuclear, “o programa nuclear do Irã, e sua disposição em manter aberta a possibilidade de desenvolvimento armamentístico nuclear, é uma parte central de sua estratégia de dissuasão.” Até mesmo os encontros.
O regime clerical brutal do Iraque, e isso não oferece dúvida, representa uma ameaça para seu próprio povo, mas dificilmente se pode dizer que passa isso aos aliados dos EUA. Mas a ameaça está presente em outra parte, e é, em efeito, perigosa. Um elemento pertencente a ela é a capacidade potencial iraquiana para a persuasão, um ilegítimo exercício de soberania que poderia interferir na liberdade de ação dos EUA na região. Resulta manifestadamente óbvio por que o Irã procura construir uma capacidade de persuasão: para explicar, basta fazer vista grossa na distribuição de bases militares e forças nucleares na região.
Há sete anos, o historiador militar israelense Martin van Creveld escreveu que “o mundo tem sido testemunha de como os EUA têm atacada o Iraque, segundo terminou por se ver, sem a menor razão para isso. Se os iraquianos não trataram de construir armamento nuclear, estariam loucos de vez”, sobre tudo encontrando-se, e como estavam, baixo constante ameaça de ataque na violação da Carta da ONU. Que terminem construindo-o ou não, é uma questão sem resposta, mas talvez com possibilidade de construção.
Isso é o que a ameaça iraquiana vai mais além da capacidade dissuasória. Também busca expandir sua influência nos países vizinhos, sobretudo o Pentágono e os serviços dos EUA de inteligência, e assim, ''desestabilizar'' a região, como se diz uma palavra técnica do discurso da política exterior: a invasão e a ocupação militar dos EUA dos vizinhos do Irã é ''estabilização''; o esforços do Irã para estender até eles a sua influência, algo ilegítimo.
Esses usos linguísticos se são rotinas. Assim, o proeminente especialista em política exterior James Chace usava propriamente o termo ''estabilidade'' em seu sentido técnico, quando explicava que, para conseguir ''estabilidade'' no Chile, era necessário ''desestabilizar'' o país derrotando o governo eleito de Salvador Allende e instalando a ditadura do general Augusto Pinochet. Há outras preocupações relacionadas ao Irã dignas de ser exploradas, mas talvez já seja suficiente dito para ilustrar os princípios reatores e o status que gozam na cultura imperial. Como foi realçado nos planejamentos de Franklin Delano Roosevelt sobre o sistema mundial contemporâneo, os EUA não podem tolerar ''nenhum exercício da soberania'' que interfira em seus propósitos globais.
Os EUA e a Europa chegam ao ponto de castigar o Irã por sua ameaça à estabilidade. Os países não alinhados apoiaram vigorosamente o direito do Irã de enriquecer o urânio. Na região, a opinião pública árabe é, no entanto, mais favorável ao desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã. A maior potência regional, Turquia, votou contra as últimas sanções propiciadas pelos EUA e pelo Conselho de Segurança, e isso foi feito junto ao Brasil, o país mais admirado no Sul. Sua desobediência foi drasticamente censurada, e não pela primeira vez: Turquia foi já foi fortemente condenada em 2003, quando seu governo, segundo a vontade de 95% de sua população e se negou a participar na invasão de Iraque, demonstrando,assim, sua fraca noção de ''democracia'' no estilo ocidental.
Logo após sua FECHORÍA no Conselho de Segurança no ano passado, Turquia foi AMONESTADA pelo chefe da diplomacia de Obama nos assuntos europeus, Philip Gordon: tinha que ''demonstrar seu compromisso como sócio do Ocidente''. Um acadêmico que trabalha para o Conselho de Relações Exteriores se perguntou: Como manter os turcos com a luz que eles têm? Pois ora, obedecendo ordens, como bons democratas. O Brasil de Lula foi AMONESTADO em um editoral do New York Times: seus esforços conjuntos com a Turquia para abrir uma solução ao problema do urânico enriquecido foi o marco estabelecido pela potência estadunidense era uma ''TACHA no legado do dirigente brasileiro''. Em uma palavra: Faça o que nós falamos.
Uma interessante luz lateral, finalmente apagada, afirma que a negociação Irã-Turquia-Brasil teve a prévia aprovação de Obama, presumivelmente na ideia de que fracassaria, sendo, assim, uma nova arma contra Irã. Quando culmino com êxito, a aprovação virou censura, e Washington se apressou a impor com travas e barreiras uma resolução do Conselho de Segurança que ao final resultou tão fraco, que até a China a subscreveu: agora a castigam por se ater ao pé da letra essa resolução, em vez de colocar em segundo lugar as diretrizes unilaterais de Washington.
Mesmo que os EUA possam tolerar a desobediência turca, ainda sim com desalento, com a China ainda é mais difícil de ignorar. A imprensa alerta que os ''investidores e os comerciantes chineses estão preenchendo agora um vazio no Irã, na medida em que as empresas de muitas outras nações, majoritariamente europeias, preocupam-se especialmente com a expansão do papel dominante nas indústrias energéticas iraquianas. Washington está reagindo com uma pitada de desespero. O Departamento de Estado advertiu a China de que se ela deseja ser aceitada na comunidade internacional – um termo técnico para se referir aos EUA a quem quer que esteja de acordo com eles, não pode ''se manter à margem e evadir das responsabilidades internacionais, que estão bem claras'', ou seja: seguir as ordens dos EUA. É muito pouco provável que isso causou uma impressão importante na China.
Existe muita preocupação também com a crescente ameaça militar chinesa. Um recente estudo do Pentágono alertava que o orçamento militar chinês se aproxima a ''um quinto do gasto do Pentágono em operações bélicas no Iraque e no Afeganistão'', ao mesmo tempo que falta discorrer sobre uma fração do orçamento militar dos EUA. A expansão das forças militares chinesas poderia ''cegar a capacidade dos barcos de guerra norte-americanos para operar em águas internacionais fora de suas costas marítimas'', acrescentou o New York Times.
Longe das costas marítimas da China, está claro; ninguém propôs, no entanto, que os EUA eliminem as forças militares que fecham o Caribe aos barcos de guerra chineses. A incapacidade chinesa para entender as regras da civilidade internacional fica ilustrada com seus apontamentos aos planos para que o porta navios nuclear George Washington se some aos exercícios navais desenvolvidos a umas poucas milhas da costa chinesa, supostamente com capacidade para bombardear Pequim.
Em troca, o Ocidente compreende que essas operações dos EUA se empreendem, todas, para defender a estabilidade e sua própria segurança. O periódico liberal de esquerda New Republic expressa sua preocupação, já que ''China envia dez barcos de guerras às águas internacionais, justo em frente à ilha japonesa Okinawa''. É uma provocação, em diferença com o que foi dito, que nem se importa em mencionar, de que Washington tenha convertido a ilha em uma grande base militar, desafiando as contestações da população de Okinawa: isso não é uma provocação, conforme o uso principal de que nós somos proprietários do mundo.
Deixando de lado a enraizada doutrina imperial, há boas razões para os que vizinhos da China se preocupem com o crescente poder militar e comercial desse país. E mesmo que a opinião pública árabe apoia um possível programa iraquiano de armas nucleares, nós, desde agora, não deveríamos fazer isso. A bibliografia especializada em política internacional está cheia de propostas para evitar essa ameaça. Isso merece discussão: trabalhar a favor do estabelecimento de uma Zona Livre de Armas Nucleares (ZLAN) na região. A proposta, uma vez mais, nasceu na conferência do Tratado de Não Proliferação (TNP) celebrada no quartel general das Nações Unidas no mês de maio passado. Egito, na sua qualidade de presidente das 118 nações que compõe o Movimento dos Não Alinhados, fez uma chamada para começar negociações para uma ZLAN no Oriente Próximo, como havia sido acordado, também pelo Ocidente – incluindo os EUA, na Conferência do TNP de 1995.
O apoio internacional em relação a essa proposta é uma saia justa, ao ponto que Obama não teve outra solução que se somar formalmente a ela. Boa ideia, disse Washington na conferência; mas não agora. Os EUA deixaram claro, além disso, que Israel deveria ficar fora disso: não são admissíveis propostas que pretendam colocar o programa nuclear israelita sob os olhares da Agência Internacional de Energia Atômica, o que exijam informação sobre ''as instalações e as atividades nucleares de Israel''.
Basta isso para se fazer uma ideia de método com que é abordado o problema da ameaça nuclear iraquiana.
A privatização do planeta
Mesmo que a doutrina da Grande Área siga vigente, a capacidade para colocá-la em prática diminuiu visivelmente. A ascensão do poder dos EUA se deu logo após a II Guerra Mundial, quando dispunha literalmente da metade da riqueza do mundo. Mas, como é natural, foi declinando, a medida que outras economias industriais foram se recuperando da devastação bélica e a descolonização deixou caminhar, mesmo que de forma tortuosa. No começo dos anos 1970, a participação dos EUA na rique mundial havia diminuído em até 25%, e o mundo industrial se apresentava tripolar: América do Norte, Europa e o Leste asiático (com base no Japão)
Nos anos 1970 também houve uma modificação drástica na economia dos EUA, que predominou até a finalização e a exportação da produção. Vários fatores convergiram para criar um círculo vicioso de radical concentração da riqueza, primordialmente na fração de 1% da população no pico: basicamente, altos executivos, gestores de fundos e investidores livres. Isso trouxe consigo a concentração do poder político, o que traz consigo políticas públicas favoráveis ao incremento da concentração econômica; políticas fiscais, normas de governança empresarial, desregulação, etc. Entretanto, os custos das campanhas eleitorais dispararam, empurrando os partidos políticos até os bolsos do capital concentrado, crescimento financeiro: os republicanos, a consciência; os democratas – que agora são o que antes costumávamos chamar de republicanos moderados.
As eleições se converteram numa farsa grotesca e manejada pela indústria das relações públicas. Através da sua vitória em 2008, Obama ganhou um prêmio concedido por esta indústria em relação à melhor campanha de marketing do ano. Os executivos do setor estavam eufóricos. Explicavam na imprensa do mundo dos negócios que desde a época de Reagan haviam fazendo publicidade dos candidatos como uma mercadoria qualquer, mas a campanha de 2008 foi uma grande conquista e essa campanha modificaria o estilo publicitário das direções das grandes empresas. Se espera que as eleições de 2012 custarão 2 bilhões de dólares, basicamente das empresas privadas. Não pode, pois, surpreender a ninguém que Obama esteja elegendo os dirigentes do mundo dos negócios para ocupar altos cargos. A opinião pública repulsa e está frustrada.
Enquanto a riqueza e o poder tem se concentrado em uma estreita linha, o grosso da população ficou estancado e as pessoas estão cada vez mais com horas de trabalho abusivas, estão cheio de dívidas e de inflação de ativos regularmente destruídos pela crise financeira que começou a se aprofundar desde que o aparato regulatório começou a ser desmantelado a partir dos anos 1980.
Nada disso resulta problemático para os muito ricos, esses que se beneficiam de uma apólice pública de seguros chamada ''grande demais para cair''. Os bancos e as empresas de investimentos podem fazer transações arriscadas, com grandes rendimentos, que quando o sistema inevitavelmente decai, sempre podem contar com o papai Estado para que o contribuinte os resgate, isso sim, bem assistidos com seus exemplares de livros de Friedrich Hayek e Milton Friedman.
O processo mais comum desde os anos de Reagan, sendo cada nova crise mais extrema que a anterior ( para a maioria da população, é claro). Agora mesmo, o desemprego real se encontra a níveis da Grande Depressão para boa parte da população, enquanto Goldman Sachs, um dos principais arquitetos da presente crise, está mais rico do que nunca. Acabou de anunciar a cifra de 17,5 bilhões de dólares em conceito de remunerações para seus executivos no ano passado, e o presidente do seu conselho de administração, Lloyd Blankfein, somente em relação às bonificações, receberá 12,6 milhões de dólares, enquanto seu salário base se triplicará.
Não se adianta nada centrar-se nesse tipo de feitos. Consequentemente, a propaganda tem que buscar outros culpados: nos últimos meses, aos trabalhadores do setor público, a seus salários, a suas exorbitantes pensões de aposentadoria, e assim por adiante. Todo que seja a melhor tradição do imaginário reaganistas, com mães negras levadas em limusines por seus choferes a cobrar os cheques nas dependências públicas de bem-estar, e outros modelos como esse que não merecem nem ser mencionados. Todos temos que apertar o cinto; bom, quase todos.
Os professores constituem um alvo particularmente adequado, como parte do deliberado empenho em destruir o sistema público de educação, desde os jardins de infância até as universidades, pela via da privatização: uma vez mais, uma política boa para os ricos, mas desastrosa para a população, assim como para a saúde a longo prazo da economia. Mas isso é outra das externalidades que tem que ser deixadas de lado, enquanto prevalecem os princípios do mercado.
Outro alvo estupendo: os imigrante. Isso tem sido assim ao longo da história dos EUA, mas ainda em tempos de crise econômica, mas agora exacerbado por um sentido de que nosso país nos está sendo roubado: a população branca logo será uma minoria. Pode-se entender o medo dos indivíduos que se sentem ameaçados, mas a crueldade das políticas migratórias são espantosas.
Quais imigrantes se convertem em alvo desses ataques? No leste de Massachusetts, que é onde hoje vivo, muitos são maias que conseguiram escapar do genocídio cometido nos altos guatemaltecos pelos assassinos preferidos de Reagan. Outros são mexicanos, vítimas do acordo NAFTA de livre comércio propiciado por Cliton, um dos raros acordos entre governos que conseguem prejudicar os povos de todos os países participantes (três, nesse caso: EUA, México e Canadá). Quando o NAFTA foi aprovado no Congresso contra as objeções populares em 1994, foi quando Clinton iniciou também a militarização da fronteira entre México e EUA, antes razoavelmente aberta. Sabiam que os camponeses mexicanos não poderiam competir com o agronegócio publicamente subsidiado nos EUA, e que as empresas mexicanas não sobreviveriam à competição através das transnacionais dos EUA. Transnacionais as que se deve considerar como ''nacionais'', conforme o falso apelido dos acordos de livre comércio: um privilégio, dito rapidamente, somente relacionado às pessoas jurídicas que são as empresas, não às pessoas de carne e osso. Como cabia esperar, essas medidas trouxeram consigo muitos refugiados que estavam em desespero e a conseguinte histeria anti-imigração entre as vítimas internas de essas mesmas políticas de Estado e das grandes empresas privadas.
Algo muito parecido está ocorrendo na Europa, onde o racismo é provavelmente mais perigoso que nos EUA. Podemos observar com estupor quando Itália se queixa do fluxo de imigrantes procedentes da Líbia, aquele cenário do primeiro genocídio posterior à I Guerra Mundial – acontecido nesse país – a mãos do governo fascista da Itália. Ou quando França, no entanto hoje a principal protetora das ditaduras que governam suas antigas colônias, as presenteia para passar por alto as odiosas atrocidades que ela cometeu na África, enquanto o presidente francês Nicolas Sarkozy alerta, de forma sombria, sobre a ''onda de imigrantes'' e Marine Le Pen afirma que não fazem nada para preveni-la. Não necessitarei mencionar a Bélgica, que segue a dedo o que Adam Smith chama ''a salvagem injustiça dos europeus''.
A ascensão dos partidos neofascistas em boa parte da Europa resultaria já um fenômeno suficiente aterrador, mesmo sem necessidade de recordar o que ocorreu no continente no passado recente. Imagine a reação, se os judeus fossem expulsos da França, condenados à miséria e à opressão, e comparada com a falta de reação quando isso mesmo ocorreu com os ciganos, a população mais brutalizada da Europa, e mesmo assim vítima do Holocausto.
Na Hungria, o partido neofascista Jobbik ganhou 17% dos votos nas eleições nacionais, algo que pode não ser surpreendente, se recorda-se que três quartos da população acredita estar pior agora que baixo a dominação comunista. Poderíamos nos sentir talvez aliviados pelo fato de que na Áustria o ultradireitista Jörg Haider ganhou somente 10% do sufrágio em 2008, se não fosse porque o novo Partido da Liberdade que está mais a sua direita, ganhou 17%. Vamos lembrar de resultados assustadores: em 1928 os nazistas conseguiram menos de 3% do sufrágio na Alemanha.
Na Inglaterra, o Partido Nacional Britânico e a Liga de Defesa Inglesa, na direita ultrarracista, tem forças importantes. (O que se passa na Holanda vocês sabem melhor que eu). Na Alemanha, ex-social-democrata Thilo Sarrazin lamenta que os imigrantes estejam destruindo o país e consegue obter sucesso em seu discurso de lamento, enquanto que a Chanceler Angela Merkel, mesmo condenando o livro, declara que o multiculturalismo foi ''fracassado miseravelmente'': os turcos importados para fazer o trabalho sujo na Alemanha fracassaram a ponto de se tornaram loiro de olhos azuis, autênticos arianos.
Quem tem um sentido para a ironia recordará que Benjamin Franklin, umas das principais figuras da Ilustração, alertou de que as recentemente emancipadas colônias dos EUA deveriam dar atenção à hora de admitir a imigração dos alemães, porque eram muito morenos; e o mesmo com os suecos. Até meados do século XX, os mitos ridículos sobre a pureza anglo-saxônica eram comuns nos EUA, incluso entre os presidentes. O racismo na cultura literária tem sido uma obscenidade insalubre; mas pior tem sido na prática , devemos dizer. É muito mais fácil erradicar a poliomelite que essa terrível praga que uma ou outra vez reaparece, e com maior virulência, em tempos de mal estar econômico.
Não quero terminar sem mencionar outra externalidade que se passa nos sistemas de mercado: o destino da espécie. O risco sistêmico no sistema financeiro pode apresentar um remédio para o contribuinte, mas ninguém virá resgatar o meio ambiente que está sendo devastado. Que deva ser devastado, é pouco menos que um imperativo institucional. Os dirigentes empresariais que estão desenvolvendo campanhas publicitárias para convencer a população de que o aquecimento global causado pelo homem é falso esquerdismo. Eles entendem perfeitamente a gravidade da ameaça, mas têm que maximizar seus benefícios e suas cotas de mercado a curto prazo. Se não fazem eles, outros farão o mesmo.
Esse círculo vicioso poderia terminar sendo letal. Para prevenir-se do perigo, basta olhar cuidadosamente o novo Congresso dos EUA, com grande participação financeira e publicitária do campo empresarial. Quase todos são negocionistas climáticos. Já começaram a cortas fundos destinados a medidas capazes de diminuir a catástrofe do meio ambiente. E o que é pior: alguns deles creem de verdade. O novo chefe do subcomitê do meio ambiente, está por aí explicando que o aquecimento global não pode ser um problema porque Deus prometeu a Noé que não haveria outro dilúvio universal.
Se tais coisas estiverem passando em algum pequeno e remeto país, até poderíamos sorrir. Mas estão passando no país mais rico e poderoso do mundo. E antes de que ríamos de forma boba, temos que recordar que a presente crise econômica não é uma pequena medida à fé fanática em dogmas como o da hipótese da eficiência dos mercados, e em geral, no que o premiado com Nobel Joseph Stiglitz chamou há 15 anos de ''religião'' da presença constante dos mercados: uma religião que impediu que os bancos centrais e os economistas profissionais soubessem da existência de uma enorme bolha imobiliária sem a menor fundamentação da vida econômica e que, ao explodir, resultou devastadora para o conjunto da economia.
Tudo isso, e muito mais, pode seguir seu curso enquanto reina a doutras Muashar. Enquanto a maioria da população se mantém passiva, apática, entregada ao consumismo e ao ódio contra os vulnerável, os poderosos do mundo poderão seguir fazendo o que os agrada, e aos que sobrevivem a isso não restará nada senão contemplar o catastrófico resultado.
Noam Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofia da MIT. Universalmente reconhecido como renovador da linguística contemporânea, é o autor vivo mais citado, o intelectual público mais destacado do nosso tempo e uma figura política emblemática da resistência anti-imperialista mundial. O texto aqui traduzido está relacionado a uma conferência realizada em Amsterdam em março de 2011.
Tradução para espanhol www.sinpermiso.info: Amaranta Süss
Tradução para português www.diarioliberdade.org: Júlia Schnorr
Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;