do PÚBLICO.PT 
Por Isabel Gorjão Santos
A Junta Eleitoral proibiu as manifestações mas milhares de pessoas não lhe deram ouvidos e juntaram-se na Porta do Sol, em Madrid. O primeiro-ministro espanhol, José Luis Zapatero, já veio dizer que “é preciso ouvir” os manifestantes.
As tendas continuam estendidas nas Portas do Sol
As tendas continuam estendidas nas Portas do Sol (Andrea Comas/Reuters)

Nem a chuva nem a decisão da Junta Eleitoral, que proibiu os protestos com o pretexto de não afectar a campanha para as eleições regionais e municipais marcadas para o próximo domingo, travaram os manifestantes que se juntaram na Porta do Sol em Madrid. Os protestos terão surpreendido o Governo e a classe política. Pela primeira vez, Zapatero referiu-se ao movimento que já se alastrou a várias cidades. “É preciso ouvir, é preciso ser sensível porque há razões para esse descontentamento e essas críticas”, disse o primeiro-ministro espanhol à Telecinco.


E o que se tem ouvido nas ruas é “Democracia Real Ya!”. Milhares de pessoas pedem novas soluções num país onde o desemprego é de cerca de 21 por cento, com uma taxa ainda mais elevada entre os mais jovens. “Temos de fortalecer, melhorar em tudo o que é a causa dos países que conseguiram maiores quotas de liberdade, que são democráticos, com uma democracia representativa e com partidos”, adiantou Zapatero, citado pelo “El País”.

O movimento 15-M, como é agora conhecido, tomou as praças de várias cidades espanholas. Há quem também lhes chame “os indignados”. São jovens que não conseguem empregos, ou pessoas mais velhas que viram degradar-se as suas condições de vida. “Ainda estamos a viver com os nossos pais ou estamos a ter problemas com as nossas hipotecas. Muitos têm filhos”, disse à AFP Pedro Muñoz, um dos manifestantes na Porta do Sol. A vaga de protestos poderá traduzir-se no domingo num mau resultado para o Partido Socialista, no poder.

O movimento garantiu que não acataria a proibição da Junta Eleitoral. Em Espanha discute-se agora a legalidade da manifestação, e o “El País” recordou que, no ano passado, uma decisão do Tribunal Constitucional permitiu a realização de protestos em período eleitoral quando a sua capacidade de influenciar o eleitorado fosse “remota” e não fossem efectuados apelos ao voto no período de reflexão, uma decisão que deita por terra a proibição decretada pelo Junta Eleitoral. De qualquer forma, e independentemente do debate sobre a legalidade do seu protesto, o objectivo dos organizadores da manifestação é permanecer na rua até domingo, ou mesmo para além disso.

A Junta Eleitoral deverá reunir-se ainda nesta quinta-feira para decidir se os manifestantes deverão ser desmobilizados sábado, o dia de reflexão. Para já, as tendas e sacos-cama continuam estendidos.

O ministro do Interior, Alfredo Pérez Rubalcaba, disse poucos antes de uma tomada de decisão por parte da Junta Eleitoral que a polícia esta no local das manifestações para resolver problemas e não para os criar. “A filosofia da polícia é sustentada em três normas de funcionamento: actuações congruentes, oportunas e propositadas”, adiantou ao “El País”.

Na Porta do Sol, o acampamento está cada vez melhor organizado. Depois de uma noite de chuva, pela manhã houve quem começasse a retirar os cartões empapados e a distribuir café ou churros. A mobilização estendeu-se a outras cidades e juntou, segundo o diário espanhol, cerca de 800 pessoas em Bilbao, mil em Valência, 500 pessoas em Sevilha e outras centenas de pessoas em Granada, Santiago, Vigo ou Pontevedra.

Quem decidiu não acampar na Porta do Sol tem ajudado quem está a dormir na rua e os vizinhos têm até recolhido o lixo que se vai acumulando. Segundo o “El Mundo” quem acabou por dispersar foi a polícia, que acabou, ao longo da noite, por libertar o acesso das ruas que iam dar à praça.

Ana é uma escritora e editora galega de 33 anos e contou ao “El Mundo” como se emocionou quando ali chegou e se apercebeu da natureza positiva e pacífica daquele protesto. Diz que vai ficar até ao fim: “Esta é uma maneira de mostrarmos que queremos outros valores”.

E José Antonio, espanhol a residir em Bruxelas, com 59 anos, diz que pediu 15 dias de licença no trabalho para se juntar aos protestos. “Já estive em muitas revoluções. Mas esta é a melhor da minha vida”.

Óscar Rivas, um dos organizadores, afirma que o colectivo prepara uma comunicação escrita e admite que o fim do protesto já não será o dia 22, dia de eleições em Espanha. “Queremos uma mudança política, social e económica. Acreditamos que é possível outro mundo”. E querem ficar ali até que isso aconteça.

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