do UOL - AFP - Internacional
CARACAS, 28 Jun 2011 (AFP) -A doença do presidente venezuelano, Hugo Chávez, e sua recuperação em Cuba mostram que sua liderança é, hoje, imprescindível para o governo, onde não existe uma alternância visível, e para a oposição, fragmentada com um discurso muito centrado no chefe de Estado.

Analistas, políticos e meros observadores concordam em que a ausência de Chávez, distanciado da vida pública há três semanas após ter sido operado de um abscesso pélvico em Havana, deixa claro que o presidente é o motor da política venezuelana.



Esta situação "mostra o caráter personalista do regime político, que se assenta unicamente em Chávez. Sua presença e suas declarações mobilizam os partidários e detratores e sua ausência deixa a política sem um porta-voz que fixe a agenda", disse à AFP Angel Alvarez, professor de Ciência Política da Universidade Central da Venezuela (UCV).

Do lado da situação, a doença de Chávez, de 56 anos, tem mostrado que não existe uma geração que possa preencher o vácuo que um dia pode deixar este presidente de personalidade envolvente e carisma indiscutível, com forte ligação com o povo e uma notável influência regional.

"Chávez é imprescindível neste momento e isto deve servir de alerta. Convencidos de que o presidente ainda tem muito tempo na política, este tempo deve ser investido para construir uma geração sucessora que continue este projeto político para além de uma liderança", declarou à AFP Nicmer Evans, colunista e professor de Teoria Política da UCV.

Durante a convalescença de Chávez, que ainda não tem previsto seu retorno para a Venezuela, no país agravou-se a crise elétrica, explodiu um confronto sangrento em uma prisão e os Estados Unidos ameaçaram com novas sanções. A ausência do presidente ficou evidente na gestão de todos estes problemas domésticos.

"Para o governo, a doença de Chávez o pegou de surpresa. Estão paralisados", disse Alvarez, citando como exemplo o enfrentamento na prisão venezuelana de El Rodeo, que deixou pelo menos 29 mortos.

"Saiu de suas mãos. Chávez teria sabido coordenar melhor a operação ou teria usado seu apoio popular para falar com os familiares", acrescentou.

Por outro lado e segundo analistas, as divisões dentro da situação já teriam começado a aparecer.

"Apesar da imagem de unidade que se tenta dar, há um forte debate sobre a sucessão", disse Alvarez.

No entanto, em qualquer ato do governo o nome de Chávez é mencionado e seu gabinete garante seguir suas instruções e trabalhar em seu nome.

"É preciso ter confiança na equipe que ficou aqui na retaguarda, ocupando-se dos assuntos do país", pediu a ministra para as Comunas (pasta que corresponderia ao ministério das Cidades), Isis Ochoa, em entrevista à televisão estatal VTV.

Chávez, que está no poder desde 1999, é o candidato do PSUV para as presidenciais de 2012, quando se candidatará a um terceiro mandato de seis anos.

"Quais são agora os líderes do chavismo sem Chávez dentro do governo? (...) Se fossem convocadas primárias para as presidenciais, no PSUV haveria uns 10 candidatos", afirmou José Albornoz, secretário-geral do partido Pátria para Todos (ex-aliado de Chávez).

Do lado da oposição, a ausência de Chávez mostrou as divisões internas e a ausência de um líder único e forte.

"A oposição sente um vazio de Chávez (...) Estão sofrendo uma síndrome de abstinência", disse o deputado governista Earle Herrera.

Para Evans, os detratores do governo estão concentrados em "especular sobre a saúde do presidente", que provoca múltiplos boatos dentro e fora do país devido à falta de boletins médicos.

"Há anos, a oposição só gera respostas em função do que o presidente diga. Sua forma de fazer política é aprofundar o antagonismo e não articular programas alternativos", afirmou.

Para Alvarez, se a oposição tivesse candidato para as presidenciais de 2012, "poderia agora capitalizar a seu favor os desacertos do governo e a ausência de Chávez".

Os críticos ao governo preveem eleger um candidato único para as presidenciais no começo de 2012.

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