Surpresa: fantasma da revolta política e agravamento acelerado da crise financeira levam governantes a considerar hipótese vista há pouco como insana
Por Antonio Martins
Ameaçada pela falência financeira e pela desmoralização completa da política institucional, a Grécia continua no centro do palco europeu — mas acaba de haver uma grande mudança no script de seu drama. A União Europeia (UE), que até o fim de semana exigia apenas sacrifícios dos gregos e respeito aos interesses dos credores, passou a trabalhar com outra opção, a partir de segunda-feira (11/7). Ela não está sendo, nem será, chamada por seu nome verdadeiro, mas é uma moratória parcial da dívida do país, seguida de renegociação.
Por enquanto, é apenas uma hipótese, e o desfecho poderá se dar sexta-feira (15/7), numa provável reunião de chefes de Estado. Mas o simples fato de ser considerada emite um sinal claro, muito positivo e que deveria ser entendido também no Brasil. Tentar superar as novas turbulências financeiras cortando direitos sociais e serviços públicos não é a única opção – e está se tornando insustentável.
O alarme que sacudiu a Europa soou na manhã de segunda-feira, quando a crise grega começou a contagiar Espanha e… Itália. As autoridades da terceira maior economia do continente tiveram dificuldades ao rolar sua dívida. Para fazê-lo, foram obrigadas a elevar as taxas de juros a um patamar recorde, desde a adoção do euro: 3 pontos percentuais acima das oferecidas pela Alemanha. A espiral de notícias desagradáveis expandiu-se com rapidez. Na noite de terça, a Moody’s, uma das grandes agências globais de análise de riscos, classificou como “lixo” [junky] a dívida da Irlanda (a de Portugal já fora rebaixada à mesma categoria uma semana antes). Na manhã desta quarta, até a França foi obrigada a elevar ligeiramente seus juros.
Na Itália, a reação do governo Berlusconi foi a mais previsível: um pacote de corte de serviços públicos e privatizações. Mas, ainda na segunda à noite, algo novo ocorreu, durante uma reunião de ministros de Finanças da UE. O encontro, realizado em Bruxelas, durou oito horas, muito mais que o previsto. Embora inconclusiva e repleta de nuances, como apontou fina análise da revista The Economist, a nota emitida ao final já não afasta a hipótese de uma moratória parcial da Grécia. Aponta, nas entrelinhas, uma divisão. Os ministros registram que o Banco Central Europeu (BCE) – o mais feroz guardião dos interesses dos credores – manifestou-se contra tal possibilidade. Mas não assumem automaticamente a posição do banco, algo inédito desde o início da crise grega.
A indecisão da UE é provocada por um risco concreto e uma divergência de fundo. O perigo imediato é o de um “acidente de crédito”, ou credit event. Os enormes sacrifícios impostos pelo governo grego à sua sociedade há duas semanas não convenceram os dirigentes europeus, até o momento, a liberar os recursos prometidos para o “resgate” do país. Dos 110 bilhões de euros prometidos pela UE (e necessários para evitar o risco de insolvência nos próximos dois anos), apenas um décimo foi liberado.
A possível moratória em debate não é ampla quanto soluções
vislumbradas por economistas radicais. Mas seria um alívioderrotar políticas de ataque aos direitos sociais bem no ninho da serpente
vislumbradas por economistas radicais. Mas seria um alívioderrotar políticas de ataque aos direitos sociais bem no ninho da serpente
O descumprimento do compromisso mantém o país sujeito a uma fuga de capitais, conforme queixou-se o primeiro-ministro George Papandreou, numa carta aberta dirigida, segunda-feira, aos ministros de Finanças. E ela poderia desencadear algo incontrolável. Parte dos credores detém títulos [“CDS” (credit-default swaps)] com cláusula de proteção contra insolvência. Se a fuga de capitais levar o Tesouro grego a não honrar parte de suas dívidas, estes credores poderão voltar-se contra o próprio sistema financeiro, requerendo o pagamento do seguro. A consequência seria uma quebradeira em dominó, de extensões desconhecidas.
Ainda mais revelador – embora invisível nos jornais brasileiros – é o desacordo crescente entre os próprios economistas do mainstream. Parte deles reconhece que as dificuldades financeiras dos Estados não se devem a suposto desperdício. São consequência direta dos enormes recursos despejados na economia (em particular nos bancos…), para evitar que a crise iniciada em 2008 desencadeasse uma depressão semelhante à dos anos 1930. Portanto, a tentativa de enfrentar o problema cortando gastos sociais e preservando os lucros financeiros não se apoia em nenhum critério técnico. Sua única base é o imenso poder político da pequena oligarquia que se enriquece às custas de juros, como escreveu há poucas semanas Paul Krugman, Nobel de Economia.
Em um editorial e dois artigos [1 2] recentes, The Economist destaca os absurdos e os riscos implícitos em tal política. Além de não ter sido ainda afastada, a ameaça de depressão é reavivada por governantes que adotam atitudes muito parecidas às da Grande Depressão. A revista adverte: à época, “poucos observadores imaginavam a catástrofe à sua frente. Era difícil conceber a ideia de que os dirigentes conduziriam suas economias para um desastre evitável. E no entanto, ele ocorreu”.
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Como a reunião dos ministros de Finanças da UE foi inconclusiva, a decisão sobre a Grécia ficou postergada para um encontro extraordinário dos chefes de governo, que ocorrerá provavelmente na sexta-feira. A possível moratória em debate não é, evidentemente, tão ampla quanto as soluções vislumbradas por economistas mais radicais, como Mike Weisbrot e James Kenneth Galbraith (ler ponto IV de nosso texto sobre a crise europeia). Debate-se agora duas medidas parciais: impor, aos bancos privados credores da Grécia, o prolongamento de parte da dívida; e oferecer à Grécia recursos para que resgate com grande desconto, parte dos títulos de sua própria dívida nos mercados secundários, onde são cotados como “lixo”. Uma vez permitida aos gregos, a mesma solução seria reivindicada imediatamente, antecipa The Economist, por portugueses, espanhóis e irlandeses
Ainda que limitada, ela abrirá, se assumida, uma janela de sensatez em meio a um ambiente insano. Adotadas a partir da Europa, há cerca de um ano, as políticas de cortes de gastos públicos espalharam-se pelo mundo, graças à força que os especuladores financeiros adquiriram em quase todos os Estados. Nos EUA, o Partido Republicano apoia-se em ideologia semelhante para impor corte de programas sociais e manter isenções de impostos que beneficiam os ricos. No Brasil, o governo de Dilma Roussef partiu, em seus primeiros seis meses, para um vasto “contingenciamento” de despesas, que tem o mesmo sentido, ainda que mais ameno (há alternativas, como escreveu o economista Amir Khair).
Será um alívio se tais políticas sofrerem uma primeira grande derrota, bem no ninho da serpente.
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