do APOSENTADO INVOCADO
O desafio de Dilma em Nova York
Presidenta embarca hoje para os EUA com uma honraria na bagagem: ser a primeira mulher a abrir uma Assembleia Geral da ONU

» DENISE ROTHENBURG

Obama e Dilma terão um encontro reservado um dia antes da Assembleia Geral da ONU: compra dos caças é um dos assuntos em discussão (Gustavo Moreno/CB/D.A Press - 19/3/11)
Obama e Dilma terão um encontro reservado um dia antes da Assembleia Geral da ONU: compra dos caças é um dos assuntos em discussão

Depois de passar dois meses voltada aos problemas domésticos, como a troca dos ministros da Agricultura e do Turismo, a presidente Dilma Rousseff se prepara para tentar conquistar um novo patamar no cenário internacional com o discurso que fará na abertura da 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas na próxima quarta-feira.


Ela viaja hoje à noite aos Estados Unidos, acompanhada de 10 ministros, levando na bagagem a minuta do discurso em que será enfática na defesa da criação do Estado da Palestina, na necessidade de reforma nos organismos internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU, e, ainda, fará os comerciais dos programas brasileiros: dirá, por exemplo, que o governo Lula tirou 40 milhões da pobreza e enfrentou a crise internacional de 2008 com um modelo de política de desenvolvimento com inclusão social.

Será a estreia de Dilma para uma plateia de mais de uma centena de chefes de Estado e de governo. Até então, o maior público desse porte da presidente brasileira tinha sido a reunião da Unasul, em julho, no Peru, com 12 chefes de Estado, quando teceu críticas à forma como os países ricos trataram da crise de 2008 e ainda usou a expressão “incapacidade política” para se referir às ações relativas ao combate à atual crise. Até então, o protagonismo de Dilma tinha se restringido aos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), em abril, durante a reunião na ilha de Hainan, e ao Boao Forum, o fórum econômico asiático equivalente ao Davos europeu.

A questão Palestina ganhou tanto peso para esse encontro que o presidente de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou esta semana que irá pessoalmente à ONU marcar uma posição contrária. Mas, embora Dilma defenda a criação da Palestina, o discurso será mais focado na crise econômica global e na necessidade de ampliar a voz de emergentes, como o Brasil e a Índia, na discussão dos problemas econômicos mundiais, uma vez que os dois países são hoje fontes de recursos para as nações ricas. Tanto é que houve um aceno de ajuda dos Brics à Zona do Euro, que atravessa uma grave crise financeira.

Dilma destacará o fato de ser a primeira mulher na história a abrir uma Assembleia Geral das Nações Unidas — que tradicionalmente cabe ao Brasil desde Oswaldo Aranha em 1947. Nesse quesito, a presença dela será carregada de simbolismo. Afinal, Dilma é vista como uma ex-guerrilheira, que sobreviveu aos porões da ditadura militar, e vai discursar numa Assembleia da ONU que tem como tema central este ano o papel da mediação na solução de disputas por meios pacíficos.

Nesse sentido, ela abordará também a primavera árabe, nome dado às rebeliões contra os regimes autoritários na região do Oriente Médio e a necessidade de maior ênfase ao que os especialistas chamam de “diplomacia preventiva”, ou seja, a resolução dos conflitos antes do uso da força. Dilma defenderá ainda a ampliação do diálogo, de forma a evitar que casos como o da Líbia se repitam. Afinal, foi uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que permitiu o ataque àquele país.

Outro ponto a ser abordado no discurso de Dilma é o meio ambiente e a agenda de desenvolvimento sustentável a ser detalhada no próximo ano, na Rio+20, a Conferência da ONU sobre meio ambiente marcada para junho de 2012 no Rio de Janeiro.

FMI

A agenda da presidente brasileira não ficará restrita aos encontros da ONU (veja quadro ao lado). Nos intervalos da programação oficial das Nações Unidas, ela terá pelo menos quatro encontros bilaterais. O primeiro será com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na tarde de terça-feira. Em pauta, além de Dilma discutir a reforma dos mecanismos multilaterais, como o Conselho de Segurança da ONU, ela falará das instituições econômicas, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Depois de Obama, Dilma terá ainda uma hora de conversa com o presidente do México, Felipe Calderón, e, no dia seguinte, após o discurso na Assembleia Geral da ONU, há encontros agendados com o primeiro-ministro da Inglaterra, David Cameron, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy. Além da mesma agenda que tratará com Obama, Dilma tem com a França um tema em aberto: a compra dos caças, assunto que, por sinal, não está descartado da conversa com Obama, uma vez que os Estados Unidos também batalham a venda de seus caças ao Brasil.

Há, portanto, uma diferença básica na legislação entre os dois países, uma vez que o Congresso americano pode vetar a transferência de tecnologia, algo que o Brasil coloca como pré-requisito para fechar um acordo.

Reconhecimento

O apoio à criação do Estado da Palestina não é novidade no discurso brasileiro na ONU. Tanto Lula quanto seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, defenderam a posição na Assembleia Geral das Nações Unidas em anos anteriores. Antes de deixar o governo, Lula assinou um documento em que o Brasil reconhece o Estado.

Disputa

Há dois anos, Sarkozy participou do desfile de Sete de Setembro no Brasil e, na oportunidade, Lula praticamente acertou a compra dos caças franceses. O governo Lula chegou ao fim, entretanto, com uma ferrenha disputa entre os suíços, os franceses e os americanos. Em abril, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, pediu que o Brasil avaliasse a possibilidade de adquirir os caças russos. A discussão, então, foi a para geladeira.

A programação

Confira os principais assuntos a serem tratados pela presidente
no exterior

» SEGUNDA-FEIRA

No primeiro dia da visita oficial a Nova York, Dilma estará na abertura da reunião sobre doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, câncer e doenças pulmonares. No mesmo dia, Dilma terá um “colóquio” sobre a participação política das mulheres, a convite da atual subsecretária-geral das Nações Unidas e diretora executiva da ONU Mulheres, Michele Bachelet, a ex-presidente do Chile.

» TERÇA-FEIRA

Dilma se reunirá com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. A presidente também participará do Encontro Parceria para o Governo Aberto (Open Government
Partnership, OGP).

» QUARTA-FEIRA

Na mesmo dia do discurso de abertura na Assembleia Geral da Nações Unidas, Dilma terá um encontro reservado com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e encerrará a programação com um jantar em que receberá o Prêmio por Serviço Público do Woodrow Wilson International Center for Scholars. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Zilda Arns — que morreu no Haiti, vítima do terremoto — já foram agraciados com a mesma premiação.

» QUINTA-FEIRA

Ainda dentro da programação das Nações Unidas, Dilma participará de uma reunião sobre segurança nuclear, onde estará em pauta o acidente em Fukushima, no Japão, e o desastre provocado depois que o país foi atingido por um tsunami. A ideia é avaliar como assegurar que o uso da energia nuclear se dê com o máximo de segurança. Estará presente também no encontro sobre diplomacia preventiva, no Conselho de Segurança da ONU, seu último evento nas Nações Unidas. O retorno ao Brasil está previsto para sexta-feira.

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