Carta Maior

BC volta a cortar juro em 0,5 ponto e é criticado por falta de ousadia

Comitê de Política Monetária baixa juro a 11% e prossegue em estratégia do governo Dilma contra crise econômica global. Tamanho da queda era esperado pelo 'mercado' mas, para industriais e sindicalistas, Banco Central repete conservadorismo com corte 'tímido'. Redução anula ciclo de alta com Dilma e devolve taxa a patamar deixado por Lula. Juro real vai a 5,5%.

BRASÍLIA – O Banco Central (BC) decidiu nesta quarta-feira (30), pela terceira vez seguida, cortar em meio ponto a taxa de juros que proporciona lucro a um terço dos detentores de títulos públicos, fixando-a em 11%. A queda, no tamanho esperado pelo “mercado”, foi considerada tímida por industriais e centrais sindicais, que cobram reduções maiores para que a economia real brasileira enfrente em condições melhores a crise global. 

A frustração com o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, que já tinha sido expressa depois da decisão anterior, tomada em outubro, foi divulgada em notas oficiais coletivas, o que não é usual em se tratando das entidades em questão.

Uma delas é assinada pelos presidentes do sindicato dos metalúrgicos de São Paulo, Miguel Eduardo Torres, e do ABC paulista, Sérgio Nobre, e pelos presidentes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, e da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto.

“A situação é grave e não há pressão inflacionária, e concordamos que o Copom deveria ter feito um corte mais agressivo na taxa de juros, para afastar de vez o risco de redução da produção e do emprego”, diz o grupo.

A outra nota é de autoria dos presidentes de cinco, das seis centrais sindicais do país: Paulo Pereira da Silva, da Força Sindical; Ricardo Patah, da União Geral dos Trabalhadores (UGT); Wagner Gomes, da Central de Trabalhadores do Brasil (CTB); José Calixto, da Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST); e Ubiraci Dantas, da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB).

“Entendemos que o Banco Central perdeu uma ótima oportunidade de aproveitar-se do encolhimento da demanda mundial para fazer uma drástica redução na taxa de juros, que poderia funcionar como um estímulo para a criação de novos empregos e para o aumento da produção no País”, afirmam os sindicalistas.

Em entrevista recente à Carta Maior, o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, também havia defendido que o BC deveria intensificar o corte de juro, por conta da crise mundial, que estaria pior do que o imaginado antes.

Apesar das críticas, a opção do BC até agora tem sido de “moderação” na calibragem do juro, como repetiu no comunicado em que divulgou a decisão. “O Copom entende que, ao tempestivamente mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo, um ajuste moderado no nível da taxa básica é consistente com o cenário de convergência da inflação para a meta em 2012”, diz.

Com essa decisão, o BC do governo Dilma termina seu primeiro ano praticamente zerando o ciclo de alta de juros iniciado em janeiro e devolvendo a taxa ao patamar que herdara da gestão Lula. Em janeiro, a taxa era de 10,75%. Para conter a inflação, foi elevada cinco vezes consecutivas, até chegar a 12,5%, em julho.

Com a decisão de agora, o juro real brasileiro, ou seja, o lucro de que compra título público quando se desconta, está em cerca de 5,5%. A taxa é calculada a partir da inflação prevista pelo “mercado” para os próximos 12 meses. Segundo pesquisa semanal do BC com o “mercado”, a previsão hoje é de uma alta de 5,5%. O juro real de hoje é o menor em um década.

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